A guerra
contra os Kaiowá Guarani no Mato Grosso do Sul, declarada secularmente, volta a ser reafirmada. Atualizada, esta guerra genocida,
ininterrupta, ganha contornos inimagináveis em qualquer parte do mundo neste
século 21.

Tem um fazendeiro conhecido aí da
região que falou pra todo mundo aqui: posso até sair, e entregar para os
bugres, mas assim que a poeira baixar, eu lavo essa terra de sangue”, relata um
dos produtores que falaram com a reportagem.Vieira confirma que a contratação
de pistoleiros paraguaios é uma opção para os produtores rurais reagirem. “Eu
acredito que vai ser por aí. A guerra vai começar aí. Eu, como a propriedade lá
não é minha... Se é minha, já tinha índio estendido à vontade aqui”, diz
apontando para o campo às margens da rodovia.”(Midiamax,18-08-2012)
Diante da
eminência de mais ações genocidas, os Kaiowá Guarani reafirmam : “Acreditamos
na paz, somos da paz verdadeira, nos não temos armas de fogos destrutivos à
vida humana. Queremos sobreviver. Por fim, repudiamos reiteradamente a
violências contra a vida humana. Sim,
temos somente nossos cantos e rezas sagradas mbaraka e takua para buscar e
gerar a paz verdadeira à vida humana. Neste sentido, nós vamos e queremos ser
morto coletivamente cantando e rezando pelos pistoleiros das fazendas. Esta é
nossa posição definitiva diante da ameaça de morte coletiva/genocídio/etnocídio
anunciada publicamente pelos fazendeiros da região de faixa de fronteira
Brasil/Paraguai.” (Conselho da Aty Guasu, 18-08-2012)
Andando
pelas aldeias e acampamentos Kaiowá Guarani, os sentimentos afloram em dor e
esperança a cada passo dessa história de resistência e afirmação da vida, em
meio à guerra declarada e a dor manifesta em cada sentimento reprimido, em cada
família rompida, em cada casa destruída, em cada vida partida,
Andamos com
a alma na mão e o coração acelerado pois em cada comunidade, acampada ou
confinada, os gritos de dor ou alegria
se repetiam com muita intensidade.
Em
Laranjeira Nhanderu, onde partilhamos belos momentos de luta e resistência,
encontramos uma comunidade abalada pela morte inesperada do Zezinho. Um forte
vendaval de ressentimentos e sentimentos submersos, emergiram transbordando em
agressões, ódio, lágrimas e disputas. Provavelmente só o tempo irá restabelecer
a paz e harmonia entre todos.
Já em Itay um grupo nos aguardava, com o sorriso largo
e constante dos Kaiowá Guarani. Tomando terere (mate com água fria) relataram
orgulhosos o clima de paz, após a publicação da portaria declaratória da terra.
Porém está tudo parado. Ainda não foi feita a demarcação física. Não entendem
por que a demora da Funai neste aspecto. Também sentem a ameaça de moradores de
uma vila que está dentro da área, e que disseram que iriam colocar veneno na
caixa d’água que abastece a comunidade indígena.
Seguimos
para Guirá Kambi’y, onde nos receberam com ritual, enfrente e dentro da oga
pysy ( casa de reza) que estão acabando de construir.
Nas
periferias de Dourados, vimos as duas áreas retomadas, Boqueirão e Nhum Verá
com muito mais barracos do que em tempos passados. As lideranças relataram com
orgulho o que conseguiram plantar e as pequenas conquistas, dentro de uma
realidade de muita necessidade, caristia e pobreza.
Com Damiana,
guerreira destemida, lutadora incansável,
fomos a mais uma “via crucis”,
caminho da dor, da visita ás cruzes onde estão sepultados seus dois
filhos recentemente mortos por atropelamento. Ela, mais do que ninguém conhece
a dor das estradas que matam. Já teve o marido e três filhos mortos por
atropelamento. E ali está ela o asfalto, a cerca e a cana, resistindo
bravamente, no tekohá Apika’y.

Nos caminhos
da dor há esperança. Nos caminhos da guerra secular enfrentada pelos Kaiowá
Guarani no Mato Grosso do Sul, existem as brisas que suavizam o sofrimento e
não deixam morrer a esperança, mesmo em meio a tantas mortes e violência. A resistência
desse povo da paz sinaliza e nos convoca para outros jeitos de vida, para além
do brutal sistema da acumulação, da agressão á terra e sua gente.
Egon Heck e Laila Menezes
Povo Guarani Grande Povo
Cimi 40 anos, agosto de 2012