Não é nenhuma casualidade a proposta de um general no
comando da Funai. Alguém poderia pensar: é o começo do fim da Funai! Semelhante
afirmativa vem ao encontro de um desejo arduamente acalentado por grupos
reacionários no Congresso Nacional. Não é preciso fazer muito esforço para
perceber que atitudes do governo com relação ao órgão indigenista caminham nesta
direção. Ou alguém ainda duvida que o decreto de morte da Funai já não está na
mesa sem nenhum temor ou temer? As últimas iniciativas da política indigenista
são o aviso prévio. Nada mais coerente do que ter um general no comando da
Funai para anunciar o seu fim. Foi o que ocorreu quando da extinção do SPI, que
tinha à sua frente o major-aviador Luis Vinhas Neves.
A bem da verdade, o indigenismo do Estado brasileiro nunca
se distanciou daquilo que se desenhou como seu projeto histórico, ou mais
precisamente, do projeto colonial de um Brasil sem índios. Quase mil povos
foram reduzidos a um pouco mais de 300. Mas os massacres, extermínios, o genocídio,
a legislação pombalina e dezenas de decretos de morte, não conseguiram
consolidar as políticas e práticas assimilacionistas e integracionistas. Erraram
quando anunciaram de forma triunfal que o Brasil chegaria ao ano 2.000 sem
índios.
A insurgência e a revolta indígenas consolidaram um processo
de resistência que nenhum cientista social se aventurou a prever. Nas últimas
décadas os povos indígenas se transformaram num dos atores políticos mais
contestadores da ditadura e do desenvolvimentismo em prática até hoje. Infelizmente
o país ainda não garantiu aos índios espaço de futuro de paz e igualdade. Mas é
exatamente com sua sabedoria milenar e resistência secular que se propõem a
contribuir com a construção de um novo projeto de Brasil.
E nesta semana, povos onde a invasão começou, os Pataxó e Tupinambá
do extremo sul da Bahia, estão aqui para dizer em alto e bom som, que nada tem
a temer, que já aguentaram e enfrentaram muitos generais e que estão cansados
do cinismo da política indigenista do Estado brasileiro. Fazem leis bonitas,
mas continuam com práticas genocidas.
Estamos num momento delicado da história do nosso país.
Vamos pensar o novo a partir da raiz, da resistência, da revolta.
No que depender dos povos indígenas e seus aliados, o balão
de ensaio furou. Não aceitarão um militar de volta à Funai nos dias atuais. O
que o Estado brasileiro terá que fazer sem temor, será uma profunda mudança nos
rumos da política indigenista, mas em diálogo respeitoso e igualitário com os povos
indígenas, com vistas a um processo de descolonização da política indigenista,
de suas ações e de suas instâncias.
Da escola da retomada,
à retomada da escola
Um grupo de professores indígenas de várias regiões do país também
está em Brasília se unindo às vozes e movimentos dos povos originários para
dizer não ao retrocesso e fazer avançar na articulação dos projetos de vida, teko porã, bem viver dos povos
indígenas. Também estarão manifestando sua total solidariedade aos povos
indígenas em luta por seus territórios, em especial os Guarani-Kaiowá e Terena
do Mato Grosso do Sul.
Os Tupinambá que ontem entregaram documentos em várias
embaixadas assim se manifestaram: "Nós povo Tupinambá da região Sul da
Bahia queremos mostrar o nosso apoio e solidariedade ao povo Guarani e Kaiowá,
e nossa total comoção, revolta e indignação com os recentes e constantes
ataques contra nossos parentes. Nós povos indígenas sofremos quase diariamente
com ataques, criminalização e perseguições. Não bestasse o sangue que nossos antepassados
derramaram por essa terra com o genocídio sofrido pelo povo indígena brasileiro.
Terminam a carta dizendo"Querem nos exterminar, mas cada vez que morre um
indio, serve como semente e brotam novos guerreiros, pois enquanto houver
índio, haverá luta pelo que é nosso por direito, que é a terra".
Egon Heck
Fotos Laila Menezes
Cimi Secretariado Nacional
Brasília, 5 de julho de 2016.