A seca, o sertão e
a cerca

"Nois até que se vira, acha uma comidinha aqui, uma
aguinha acolá, mas quem mais sofre com a seca é os animal. Coitado dos bichinho
não tem muitas vezes pra onde se socorrer. Acaba morrendo..." Essa
expressão de dor e compreensão da vida nos revela um pouco o sentimento do
sertanejo calejado pela seca e que ama os seres que o rodeiam como ama o seu
próximo.
Lago
dos Amaro, no caminho entre Exu e a serra do Araripe
O bode, o jumento e o
boi
A
imagem que mais choca é ver centenas de cabeças de gado apodrecendo na beira da
estrada. De Exu a Ouricori, o cenário era desolador.
Não
sendo um especialista na questão, partilho uma reflexão que o companheiro Gogo
fez, comentando a seca e o sertão. " De fato, o gado bovino tem sofrido e morrido
em quantidade nessa seca. Mas, essa é uma questão superada para o movimento
social que defende a convivência com o semiárido, isto é, essa região nunca foi
local adequado para se criar bois e vacas. Há uma comparação feita pelos
educadores populares nos cursos de formação com uma estatística bem simples: um
boi come por sete bodes, bebe por sete bodes, ocupa o espaço de sete bodes.
Quando morre um boi, morre o equivalente a sete bodes.

Bem
ilustra esse quadro um caso que seu Welington nos contou, a propósito da seca e
desanimo de vários sertanejos dessa região da caatinga, do sertão pernambucano,
do semiárido. "Meu amigo José de Pedro, já velho, aposentado, trabalhou a
vida toda pra reuni um gadinho. Trabalhou 40 anos de sol a sol.Conseguiu mil
cabeças de gado. Veio a seca braba desse ano e o resultado foi que seiscentas
morreram. Sobrou apenas um gadinho magro e dívida no banco." Esse é um dos muitos fatos semelhantes que
ilustram a forte migração para as cidades, e a difícil sobrevivência da
economia baseada no gado.
Outro
exemplo que fomos ver é a Fazenda
Uruguai (foto). Outrora foi uma próspera propriedade onde se produzia, além de
gado, cana , cachaça e muitos alimentos. Hoje a falda casa das setenta janelas,
é alvo de assombrações e abandono.
pluviômetro
- chuva e conversa sob medida
chamou atenção foi um pequeno aparelho que em outras
partes do país nem se houve falar - é o medidor da chuva, o pluviômetro.
Cuidadosamente instalado da maioria dos terrenos e casas, ele é o puxador do
assunto mais importante no sertão, pois mede e presenteia o sertanejo com o que
há de mais sagrado: a água.
-Compadre, aqui choveu só dois milímetros, e aí no pé da
serra?
Olhando
pras planta tudo triste, de boca aberta, aguardando ansiosamente uns pingos
dágua, seu Gelsi, sertanejo calejado pela seca, aposentado, desfila sabedoria,
ao falar do sertão e dos tempos atuais. "Sabe que o responsável por essa
perda do feijão somos nois que antigamente sabia quando a chuva vinha e hoje
acredita da televisão. O resultado tá aí. Falou que chovia, a gente plantou e a
chuva não veio".
A
guerra do Exu, Gonzagão e revolução.
Terra de Barbara de Alencar, avó do famoso escritor, José
de Alencar. Ela liderou uma revolta republicana em 1817, sendo hoje considerada
heroína nacional.
Exu exaltada, cantada em verso e prosa por Luiz Conzaga, Gonzaguinha e
inúmeros poetas, cordelistas e artistas
da terra.
Na região da Serra do Araripe, logo na divisa com o
Ceará, foi criada a primeira área de conservação do país, nos conta Antonio Alencar, grande
conhecedor, da região, raizeiro muito conhecido e procurado na região e no
país.
Apesar dos medos e ressentimentos persistirem, existe uma
voz corrente de que "a guerra do exu acabou". Começa a predominar uma
nova mentalidade na convivência, que tenta
enterrar na seca do sertão, os fatos de violência e vingança que se
davam entre famílias dominantes na região.
A sinfonia
dos sapos em intermináveis amplexos

Curiosidades
e lições
A diferença de 1 (um voto) nas últimas eleições para
prefeito. Vitória dos "boca negra", derrota dos "boca
branca". Denominação corrente na cidade de Exu, que vem da década de 60,
com a divisão entre os dois partidos UDN e PSD.
Apesar de hoje não ter uma base em partidos políticos ou
mesmo base de famílias, a denominação continua muito presente nas rodas de
conversa.
A cidade de Exu e região ainda respirava Gonzagão
Depois da rodar por mais de cinco mil quilômetros de
estrada do centro (Brasília) ao nordeste do país, em seis estados, impressiona o grande fluxo de veículos) a
sensação de que de fato estamos construindo o caos. Até quando continuaremos
enchendo ainda mais as estradas de veículos de todo tipo, colocando o Brasil
sobre rodas, no círculo vicioso de que não poderemos correr o risco de
desacelerar a indústria automobilística, o Brasil sobre rodas?
Mas a impressão mais forte é com relação à água. Da cultura
do desperdício na maior parte do país, á secura do sertão, onde a água pode
salvar ou matar vidas. Cada gota vale ouro. A cisterna é um espaço sagrado a
ser olhado e cuidado como preciosidade. O semiárido nordestino de hoje talvez
seja o planeta terra de amanhã, caso não forem tomadas providencias urgentes,
desde os hábitos pessoais, até as políticas públicas nacionais com relação à
água.
.Egon e
Laila
Brasília,
fevereiro de 2013