Ao
atravessar a ilha nos deparamos com paisagens encantadores e muitas dores
impostas a seus originários moradores, os Karajá e Javaé e mais recentemente os
Avá Canoeiros que para lá foram levados, em função das invasões promovidas
pelos diversos interesses econômicos, dentre os quais a pecuária e o turismo.
Idjahina
Karaja/ Jawaé, sábio, líder e nosso mestre nos guiou com segurança e prudência na travessia dos brejões e igarapés. Longos
silêncios meditativos vão se intercalando com os ruídos de multidões de animais e aves. Estamos envoltos nas energias desse pedaço do Brasil recôndito, que precisa de respeito e
apoio para que sua terra sagrada não seja respeitada e seus povos e todas as formas de vida sobrevivam com
abundância, liberdade e beleza.
Nas aldeias
de Txuiri e Santa Izabel, encontramos
muita esperança, vida, crianças lindas e alegres. Os dias que partilhamos com
as comunidades foram de imensa riqueza na troca solidária de saberes e
esperança. Uma resistência secular impressionante. “O fato de conservarem sua língua já lhes garante 50% da
sua sobrevivência física e cultural”, afirmou D. Pedro. Apesar de todos os
projetos impactantes que foram levados
para a ilha, eles conseguem driblar as ameaças e continuarem afirmando e fortalecendo suas vidas e
cultura.
Também
pudemos sentir os muitos riscos e desafios que enfrentam no dia a dia, em
grande parte decorrentes da ausência de políticas públicas respeitosas e
eficazes.
Exímios artesões
Além de terem fortemente impactado seu regime
alimentar, dependências e vícios acabem
tende forte impacto sobre o equilíbrio e vivência harmônica nas aldeias e no
conjunto da vida na ilha, na terra e nas águas. Esses desafios são enfrentados
pelas aldeias com muita determinação e esperança. Porém nem sempre é fácil superá-los.
Os povos da
ilha do Bananal com toda a rica diversidade de vida precisa ser respeitada e
apoiada, conforme nos conclamou Dom Pedro Calsaldáliga “Assumam a causa
indígena...a levem para dentro da universidade...”
Somos
imensamente gratos aos Javé e Karaja, por terem partilhado parte de suas lutas
e vidas conosco
Os isolados e a saudação de vida e
morte
Essa semana
mais uma vez o Brasil e o mundo assistiram o contato de um gruo de índios
isolados (também denominados de livres), no Estado do Acre. A primeira questão importante é nos darmos
conta de que no Brasil existem pelos menos 90 grupos que estão evitando o
contato com a sociedade não indígena, possivelmente por já terem sido vítimas
de violências e mortes. A maioria desses grupos, numericamente muito reduzidos,
se refugiam nos últimos espaços ainda não invadidos pelas frentes de expansão
na Amazônia. Os riscos de serem
atingidos, rechaçados, caçados ou contaminados por madeireiros, garimpeiros,
peões ou jagunços são grandes. Também correm o risco do abraço oficial,
igualmente mortal, uma vez que o mesmo governo que mantém as “frentes de
atração”, é o mesmo que implantou os projetos fatais do PIN (Plano de
Integração Nacional), no início da década de 70 e se atualiza com o PAC
(Programa de Aceleração do Crescimento) , e seus grande projetos. É o contraditório processo de defender os
índios sem “atrapalhar o progresso”, inerente
ao acelerado avanço capitalismo sobre os recursos naturais da Amazônia.
Basta
lembrar os processos genocidas que foram impostos a esses povos pelas
transferências forçadas em função da construção de estradas, hidrelétricas e
outras obras, que levaram à morte milhares de indígenas nas últimas décadas,
como os Waimiri/Atroari, os Parakanã, os Yanomami, os Panará, os Kayabi, os Txukaramãe, Tenharim, os Arara e dezenas de
outros povos, particularmente na Amazônia. Seria, como afirmou Orlando Vilas
Boas, na década de 70, “Um abrraço de morte?” Será que a manifesta boa intenção
da presidente da Funai conseguirá
garantir a vida de mais um dos “povos em situação de isolamento
voluntário”?
Com
Leonardo Boff acreditamos e esperançamos que “Muitos veem, como o (sociólogo português) Boaventura de Sousa
Santos, que na América Latina há um conjunto de valores vividos pelas culturas
originárias que podem ajudar a humanidade a sair da crise. Especialmente com a característica
central do bem-viver, que significa ter outra relação com a natureza, entender
a Terra como mãe, que nos dá tudo que precisamos ou podemos completar com o
trabalho”.(Entrevista a S 21)
Egon
Heck
Secretariado
nacional do Cimi
Brasilia,
2 de agosto de 20014