
Os povos indígenas no Brasil sabem o que significa, em termos
de impacto e destruição, a mineração nas terras indígenas. Por ocasião da constituinte na década de
oitenta os interesses minerais nacionais e mundiais tentaram inviabilizar os
direitos indígenas na nova Constituição. Montaram uma campanha midiática contra
os povos indígenas e seus aliados, como o Cimi, jamais vista na recente
história do país.
Os povos indígenas na América latina sustentam uma luta
secular contra o saque e destruição que a mineração vem promovendo em seus
territórios. Na Bolívia, no Peru e Equador existe uma luta ferrenha contra a
predatória e genocida exploração mineral em territórios indígenas, desde os
Antes até a Amazônia.
A voracidade e truculência do poder mineral no mundo nunca
se conformou com o dispositivo constitucional que exige uma regulamentação especial
para a exploração mineral em terras
indígenas. Em vários momentos tentaram a aprovação no Congresso desse projeto
de lei. Aos sobrevivente caberá contar a desgraça anunciada.
Eleições e
primavera
Para os povos indígenas as eleições são apenas mais um
momento de tapas nas costas, promessas de benefícios imediatas, sorrisos e
rostos farisaicamente simpáticos. Para alguns, dos mais de 200 candidatos
indígenas a vereador, é também o momento de levar a reflexão política para dentro
das aldeias, para mostrar as possibilidades e limites de participar desse
ritual da democracia formal, representativa ( tão diferente da democracia
comunitária participativa das aldeias!) É provável que mais de trinta lideranças indígenas sejam
aprovados no ritual das urnas e tenham quatro anos de mandato, no estranho e
complicado ninho das câmaras dos vereadores. Boa sorte aos que como Otoniel
Kaiowá Guarani, buscam a reeleição,
na estreita margem de luta pelos direitos de seu povo, especialmente à
terra e os recursos naturais nelas existentes.

No embalo da primavera a vida é mais vida, a esperança
galopa na beleza abundante da natureza que renasce em cada olhar atento e
desabrocha em gratidão à mãe terra.
No dia da
" pacificação"
Convite irrecusável. Colegas do Cimi em Florianópolis
convidaram para falar da "Vivência com os Povos Indígenas", e
juntamente com o Kaiowá Guarani Elizeu Lopes, debater a situação dos povos
indígenas no Mato Grosso do Sul. Não
poderia deixar de falar sobre a trajetória de luta e compromisso com os povos
indígenas, uma vez que foi com os Kaingang, Guarani e Xokleng que inicie a
trajetória de 40 anos de aprendizado e luta com os habitantes primeiros desta
terra. Eram quase 100 alunos indígenas de um curso de licenciatura na
Universidade Federal de Santa Catarina.
Ao final da conversa os Xokleng pediram um tempo para
apresentar algo sobre a data de 22 de setembro, que além do início da
primavera, para eles tinha um significado especial. Faziam exatos 98 anos em
que eles decidiram fazer contato pacífico com os brancos. É considerado o dia
da "pacificação", ou seja, quando eles decidiram manter contato com a
equipe de atração do Serviço de Proteção ao Índio- SPI. Assim como os Kaingang
os Xokleng se mantiveram isolados e resistentes ao contato até o início do
século 20. E a resistência deles foi a razão da criação do SPI, em 1910.
Egon Heck
-www.egonheck.blogspot.com.br - Cimi
40 anos, inicio de primavera de 2012