Termina mais uma Grande Assembleia (Aty Guasu).
Inverno rigoroso, com geada e vento cortante. Nada melhor que um fogo
aconchegante e um bom chimarrão. Nada fez as centenas de lideranças, caciques ,
nhanderu e nhandesi(Tekoa'ruvixa), desistir
da realização mais um grande momento de reza, de fortalecer a esperança e
reafirmar a decisão da dura luta pelos tekohá, terras originárias,
tradicionais.

Muita reza
e ritual. Batizado de mais de uma dezena de crianças e aliados
Como em todas as Grandes Assembleias Kaiowá Guarani(Aty
Guasu), a dimensão ritual religiosa é
fundamental. Os rezadores(as), voltam a
ter uma função de centralidade nas comunidades e no movimento. Voltam a ser
reconhecidos como "Tekoa'ruvixá" aqueles que
dão vida às crianças.
No documento dos rezadores, deixam claro suas angustias,
sofrimento e esperanças
" Nós
estamos preocupados em não ver acontecer o nosso sonho de ao menos morrer em
nosso tekoha terra tradicional. Queremos entrar na nossa terra e morrer nela.
Nosso sonho é esse e não dá mais pra esperar.
Para toda
essa cultura continuar viva nós precisamos da terra. Essa cultura funciona com
a terra. Não temos como viver assim na beira de uma estrada nem num canto de
uma fazenda. Enquanto não tiver a terra, não tem como viver.
A terra é a
sobrevivência da nossa cultura, da nossa nação. Essas são as principais coisas.
Isso não interessa para os brancos. Para os brancos isso não é nada. Os
Tekoa’ruvixa mais velhos estão envelhecendo e morrendo e queriam que já
tivessem voltado tudo no tekoha. Querem entrar na terra, ainda vivo, para
morrer no tekoha deles, onde morreram os nossos avôs. Não dá mais para esperar.
Fim da impunidade , memória das vítimas
Um dos
momentos fortes foi o da solidariedade a todos os guerreiros(as) que morreram
na luta pela terra e os direitos dos Kaiowá Guarani e Terena. Essa memória foi
também um grito de basta de assassinatos e de impunidade. Po isso nos
documentos deixaram claro:
"Exigimos justiça nas dezenas de casos de
assassinatos de lideranças, professores e jovens indígenas no contexto dos
conflitos e da falta de terra. Nenhum dos assassinos dos Guarani e Kaiowá está
preso e suas famílias estão desassistidas. Exigimos punição aos culpados e
respeito às comunidades atacadas!
Chega de
perseguição contra movimentos e entidades apoiadoras do movimento indígena. Somos
autônomos e independentes, e estabelecemos nossas próprias relações políticas
como bem entendermos e isso não é crime."
Recado jovem


Queremos
nossas terras de volta. Estamos na luta pelo nosso direito. Passamos precários
problemas e obstáculos por causa das nossas terras. Nos preocupa as nossas
lideranças que já foram várias vezes ameaçadas, e continuam sendo ameaçadas por
estarem lutando pelo que é nosso."
Depois do
dia 5, outra história
A questão
central foi novamente a falta de providências na demarcação e devolução de seus
territórios tradicionais. Não aguentam mais. Em
coerência à luta e exigência de soluções urgentes e definitivas, estão
cumprindo o prazo estabelecido na meda de negociações, dia 5 de agosto. Se até então
nenhuma solução for implementada, eles tem seus planos determinados para a
questão da terra:
"
Cumprimento, até o dia 5 de agosto, da promessa do governo federal de resolver
o problema da demarcação de todas as terras indígenas de todos os povos do Mato
Grosso do Sul. Nós estamos respeitando o acordo com o governo e aguardando
alguma solução, e até agora o governo não fez nada. Nós não aceitaremos outro
prazo. De norte a sul do país, nós indígenas estamos juntos na luta contra a
perda de direitos, contra a perda de nossas terras, e pela demarcação de nossos
territórios tradicionais. (Documento da Aty Guasu)
Houve vários depoimentos contundentes, relatando que o
sofrimento é o mesmo, e que muitas vezes estão chegando à beira da desesperança
"Estamos assinando a homologação com o nosso sangue.
Da parte da Funai, apesar do apoio, foi cobrado,
principalmente agilização da demarcação das terras. A presidente do órgão,
Maria Augusta, reconheceu que a Funai erra e muito, mas está aí presente
ouvindo os clamores e exigências dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul.
"Vou sair daqui com o coração preocupado,
disse ela. Porém ressaltou que não vai prometer coisas que não vai poder
fazer por não depender da Funai. Depende da Justiça e da pressão de muitos
inimigos dos vossos direitos.
No decorrer dos falas, muitas denúncias foram feitas,
especialmente de violências, ameaças e desmatamento da pouca mata que ainda
existe nas terras já demarcadas.
Todos se declararam em estado de alerta e total disposição
de retornar às suas terras tradicionais, caso não houver solução até o dia 5 de
agosto, conforme prometeu o ministro Gilberto Carvalho.
Egon Heck
Povo Guarani Grande Povo
Cimi Brasília, 31 de julho de 2013