“Declare-se interino o presidente da Funai e se preciso
for o mesmo se repita nas várias instâncias do órgão...assim
estaremos acorrentando um incômodo órgão, cuja missão contraditória, é defender
os índios desde que não atrapalhem os
interesses maiores que se encastelaram no Estadobrasileiro...” Um pesadelo.
Uma realidade. O começo do fim?
Num olhar de soslaio para mais de meio século de Funai,
certamente poderíamos escrever alguns livros retratando uma trajetória marcada
por mil e uma peripécias, nessa sua nobre missão de defender os povos indígenas
e seus direitos, garantindo a proteção de suas vidas, sua cultura, seus
territórios e bens materiais e imateriais.
Poderíamos começar pelo primeiro dia da Fundação Nacional do
Índio. Antes só existiam os escombros do carcomido Serviço de Proteção aos
Índios (SPI), que havia se transformado no maior antro de corrupção e violência
da história desse país. A nascente Funai herdou de seu antecessor em torno de
700 funcionários. Destes, no dizer do procurador Jader de Figueiredo, que
presidiu a comissão de sindicância do SPI em 1967, talvez uns 10 não estariam
incluídos na lista de irregularidades em sua atuação. Naquele primeiro dia, as
intensões eram louváveis. Se constituiu um conselho que seria o responsável
pela atuação do órgão. As mãos estariam limpas. Mas o jogo de interesses
antiindígenas não mudou e não permitiu com que ações efetivamente de proteção
aos direitos dos povos indígenas fossem colocadas em prática pelo então governo
da ditadura militar. Restou então ao coordenador do Conselho, o jornalista
Queiroz Campos, transformar-se no primeiro presidente da Funai.
Mais de meio século depois, outros 35
presidentes do órgão iriam capitanear o sucateamento da instituição, até
transformá-la num esquálido ente com a missão permanente de ser e não ser a
executora de deploráveis políticas antiindígenas, ou a falta das mesmas. Na
melhor das hipóteses, tímidos bocejos de defesa dos direitos indígenas.
Nos caminhos e descaminhos do órgão indigenista do governo
passaram generais, capitães e coronéis, bem como padrinhos e apadrinhados
políticos como Romero Jucá.
A última estratégia deste
festival de incongruências está sendo o da eterna interinidade, sinalizando que
os direitos indígenas também sejam interinos. Mas essa cilada não passará
incólume. A delegação dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul, cobrou do
ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Miguel Rosseto, uma
resposta urgente sobre a efetivação do atual interino na presidência do órgão.
“Exigimos
do Poder Executivo respeito ao órgão indigenista, a Funai, consolidando o hoje
presidente interino, pois é um cargo que demanda habilidade técnica e não
política”. Porém, deixaram claro que é preciso mudar a relação do Estado
brasileiro com os povos indígenas, e não simplesmente a efetivação de alguém na
presidência da Funai.
Apesar de não terem nenhuma ilusão de que isso irá mudar
substancialmente as políticas efetivas do órgão, acreditam que assim poderá ter
um pouco de oxigênio na defesa dos direitos dos povos indígenas na atualidade.
Pelo fim da Funai
Ruralistas, membros da Comissão Especial da PEC 215, um
tanto constrangidos com a presença de indígenas do Mato Grosso do Sul, não
contiveram sua sanha contra esses povos
apontando sua artilharia pesada e fúria contra a Funai. “Se é para
acabar com a Funai assino embaixo. Ela está com seu prazo de validade
vencido”. E perguntavam com malícia e
ironia: “Onde a Funai quer chegar? Dizem que os índios já ocupam 12% do
território brasileiro e a Funai com as terras indígenas desse tamanho quer
chegar a 22%?” E passaram a desfilar números enganosos e inverídicos numa clara
intenção de reforçar seus pelotões antiindígenas.
Não é novidade o pedido de extinção da Funai, que a rigor é
um desejo de extinção dos índios. Isso aconteceu diversas vezes nas últimas
décadas. Diversas comissões parlamentares de inquérito foram criadas ou
propostas: CPI do Índio ou CPI da Funai, CPI contra o Cimi, CPI da Amazônia.
Todas com objetivo claro de impedir que os direitos constitucionais dos povos
indígenas fossem respeitados.
A sessão pela demarcação das terras indígenas, solicitada e
coordenada pela deputada Janete Capiberibe, teve a grande maioria das
intervenções favoráveis aos indígenas e seus direitos. Vale destacar a
exposição de Marcelo Zelic que pontuou a ação desastrosa das políticas do
Estado brasileiro com relação dos povos indígenas, conclamando para uma efetiva
reparação aos povos nativos, o mínimo a ser feito para começar uma pagar a
dívida histórica.
Além da urgente demarcação das terras indígenas, foi também
pedido o “fim da interinidade falaciosa” que tem sido imposta aos últimos
presidentes da Funai.
A maratona contra a PEC 215 e
todas as iniciativas dos Três Poderes visando tirar ou limitar os direitos
indígenas, continuam. Muita reza e o fim da paciência e da impunidade: “Reforçamos
que não aceitaremos estes ataques, denunciamos que as ações neste sentido são
inconstitucionais e criminosas. Aqui estamos, resistiremos e dizemos que se o
Governo e Estado Brasileiro seguir com estes desmontes não nos restará
alternativa se não retomarmos nossos territórios e buscar a justiça que nos
cabe com as nossas próprias mãos. Nós, povos do Mato Grosso do Sul, estamos
unidos neste sentido com todos os povos do Brasil para parar estes projetos de
morte ou morrer pela vida de nosso povo” (Moção dos Povos Indígenas do Mato
Grosso do Sul l à sociedade e Estado brasileira).
Egon Heck
Cimi – Secretariado Nacional
Brasília 20 de maio de 2015