Sexta feira santa de
2014. Babau Tupinambá é condenado ao
silêncio. Impedido de deixar o país. Seu território está militarizado e sua
luta pela terra criminalizada. “Querem me impedir de todas as formas de ir para
o encontro com o Papa. É uma rede contra a demarcação das terras Tupinambá,
contra os indígenas. Não querem que denunciemos ao mundo que se passa aqui.
Isso não é democracia, é ditadura. Como pode se instalar um estado de exceção
assim, sem mais nem menos?”, questiona cacique Babau. (site do Cimi)
Babau iria ao
Vaticano a convite feito pela CNBB para que participasse
de uma celebração relativa à canonização do padre José Anchieta. Na
oportunidade, o Babau levaria ao papa documentos e mensagens sobre a questão
indígena no Brasil, denunciando violações de direitos humanos e a paralisação
da demarcação de terras.
A
história se repete
Novembro de 1980. A ditadura impede Juruna de deixar o país.
Fora convidado a participar do Tribunal ,
em Rotterdan, na Holanda. O impedimento
da viagem de Juruna desencadeia uma reação ampla do movimento indígena e
indigenista e seus aliados, em nível nacional e internacional. Neste IV
Tribunal Russel estavam sendo denunciadas as violações aos direitos humanos das
populações indígenas das Américas. A maioria dos países estavam mergulhados em
ditaduras civis-militares.

Finalmente “ por quinze
votos a nove o Tribunal Federal de Recursos concedeu habeas corpus ao cacique
Xavante Mário Juruna e reconheceu seu direito
de representar o Brasil no Tribunal Bertrand Russel atentando a
“ilegalidade e o abuso de poder do ministro do Interior Mario Andreazza
que negara autorização para o índio sair
do país.
Juruna chegou no último dia do encontro, sendo recebido com
flores e empossado como presidente das últimas sessões do Tribunal. A tutela fora
nocauteada. Porém só seria superada na Constituição de 1988 e seus resquícios
são enfrentados ainda hoje.
Genocídio
dos índios no Brasil é levado ao Vaticano
“O etnólogo Frances Christian Delorme, membro do Comitê da
Escravatura, informou o Vaticano sobre o assassinato em massa de índios em diversos
países latino-americanos.. O relatório
diz que no tempo do Serviço de Proteção
aos índios, quando era diretor o major Luis Vinhas (já na ditadura militar),
este inverteu em seu benefício 300.000 dólares, além de ser responsável pela
morte de 42 indígenas... Já não é um ou
vários indivíduos monstruosos cujos atos são denunciados. Trata-se da
destruição coletiva de várias comunidades étnicas, organizada sistematicamente
por uma administração oficial”. (Folha da Tarde, Porto Alegre, 4-03-1970)
Já no ano de 1968,
com a publicação do “Relatório Figueiredo” e CPI do Índio - 1963, o
Brasil e o mundo ficaram surpresos com
as vultuosas barbaridades cometidas contra os índios no Brasil. Logo as reações nacionais e internacionais se
fizeram sentir “De Genebra, na Suíça, a Comissão Internacional de Juristas
pediu ao governo brasileiro para tomar as mais enérgicas providências contra os
responsáveis pelo assassinato em massa de índios. Como resultado das corajosas
descobertas de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, o mundo chocou-se ao
saber que tribos inteiras de índios, que viviam em certas regiões do interior
do Brasil – em particular nas áreas da Bacia Amazônica e Mato Grosso estavam
sendo exterminadas a vários anos. Os métodos
empregados foram excepcionalmente bárbaros: bombardeios de aldeias por
aviões, inoculação de varíola e outras doenças contagiosas. Embora não
seja possível fornecer números com
certeza, pode-se declarar que todos os elementos de genocídio estiveram presentes...”(Estado de Minas,
19/09/68)
Denuncias semelhantes
foram apresentadas ao Papa Paulo VI em julho de 1980. Recentemente o presidente
do Cimi, D. Erwin Krautler e o assessor teológico da entidade, Paulo Sues,
entregaram ao papa Francisco documento com as graves violações do direitos
indígenas, que infelizmente continuam acontecendo.
Como diz o ditado popular “quem não deve não teme!”.
Esperamos que a luta dos povos indígenas e seus aliados faça o Estado brasileiro reconhecer os
direitos indígenas, demarque e proteja os territórios indígenas, antes mesmo
que comece a rolar a bola na Copa do Mundo. E que os Tupinambá, vítimas
primeiras da secular invasão, tenham finalmente suas terras demarcadas e possam
viver em paz.
Egon Heck
Secretariado do Cimi
Brasília, sexta feira santa de 2014