
Vinte dias de travessia e partilha. Quase 100 km de troca de passos, espaços e saberes.
Uma caminhada memorável atravessando os medos e as belezas da maior ilha
fluvial do planeta. Fomos os primeiros a fazer a travessia a pé. Muitas
recomendações e temores: cuidado com as onças, os jacarés, as piranhas.
Atravessamos ilesos todos esses medos e apreensões.
Os Jawaé, Karajá e Avá Canoeiro, povos guerreiros e
resistentes, nos acolhem com alegria e sabedoria. Tudo no seu tempo e
significado. As redes atadas na beira do rio ou da estrada, as barracas embaixo
de frondosas mangueiras ou vegetação do
cerrado. Tudo acontecendo a contento e a seu tempo.
Quarenta e quatro caminhantes, pé na estrada, mochila nas
costas e o coração aberto para o diferente.
Fomos sendo surpreendidos pelos bandos de biguá, garças, socó boi e uma
infinidade de pássaros. Até os enormes
Tuiuiu, em seus ninhos no alto das
árvores, vigilantes com seus filhotes deram os ares de sua graça
Quando as bolhas, calos começaram aparecer, era a hora da
solidariedade e as paradas para refazer
as energias e tratar as feridas no corpo e na alma com os óleos naturais, e os
cuidados necessários
A ilha do
Bananal: belezas, impactos e ameaças

No governo de Juscelino Kubitschek, foi construído um grande
hotel, próximo à aldeia Kararjá de Santa
Izabel, com o intuito de desenvolver ali um polo turístico. Serviu como local de férias e safari para os
militares durante a ditadura. Foi repassado parar o governo de Goias no iíncio
da década de 80, para utilização para o
turismo na ilha. Felizmente o projeto não se consolidou. Os índios se livraram
do pesadelo ateando fogo no lendário Hotel JK. Hoje restam apenas as ruinas
entre árvores e as casas de palha de babaçu.
Outra grande ameaça foi o início da construção da estrada Transaraguaia,
em 1983. Houve uma grande reação nacional, pois se considerava essa como
“estrada da morte”, da insensatez, da ignomínia. Um absurdo. Teriam que ser
feitos mais de 80 km de aterro de 3 a 6 metros. O impacto sobre o ecossistema
da ilha seria fatal No depois de iniciadas as obras os índios Jawaé
interromperam os trabalhos e obrigaram a retirada das máquinas. Porém até hoje
continuam as pressões dos políticos e do agronegócio para a construção dessa
estrada. Ainda no ano passado o governador do Tocantins, Siqueira Campos esteve
com os Karajá tentando mostrar as vantagens da estrada, fazendo promessas e
doando objetos agrícolas. Uma liderança Jawaé, solicitou aos caminhantes que os
apoiássemos na luta contra a construção dessa estrada. Nos comprometemos com
essa luta pelo bem da vida e da mãe terra. Vimos, sentimos e nos sintonizamos
com o direito amplo de todas as formas de vida existentes na ilha do Bananal.

Nos unimos, no caminho da resistência, afirmação de direitos
e da vida, a todos os que lutam para que a ilha do Bananal continue sendo não apenas a maior ilha
fluvial do mundo, mas também um exemplo de preservação sócio-ambiental.
Caminhantes da vida
na “troca de saberes”, não apenas vivenciamos uma experiência admirável desse
grande Brasil desconhecido, mas construímos e assumimos um compromisso com os
povos indígenas e a ameaçada biodiversidade dessa região.
Avante caminhantes, o caminho se faz caminhando, com lutas
concretas, sonhos e utopias.
Egon Heck e Laila Menezes
Cimi-Secretariado
Brasilia, 24 de julho de 2014