Um forte vento se
uniu ás vozes, gritos e clamores contra o projeto de morte, o PDA MATOPIBA( Plano de Desenvolvimento
Agrícola) no segundo dia da 3ª Assembleia
dos Povos Indígenas de Goiás e Tocantins. Palmas- TO está sendo o palco desse
histórico evento onde os povos originários se unem aos quilombolas, camponeses,
acadêmicos, para juntos traçarem estratégias para o enfrentamento desse modelo
de desenvolvimento, predador, destruidor, criminoso e genocida, que está sendo
implantado com euforia e aval do governo e apoiado com recursos públicos.
“Nós não vamos deixar o MATOPIBA passar” exclama a liderança
Kraho, Gercília “O Rio Vermelho está morrendo. Eu protejo o rio sagrado. Não
vamos deixar roubar nossas terras e matar os rios e as matas. Falo do que está dentro do meu coração, não sei
falar bonito em português, mas quero dizer a vocês que o MATOPIBA não vai vingar”
Antonio Apinajé destacou a gravidade do momento de sérias
ameaças à vida e ao futuro das comunidades e aldeias “A gente fica atordoado,
perturbado com esses projetos como o MATOPIBA. Estamos construindo união com os
quilombolas, camponeses na defesa da Mãe Terra. Precisamos lutar juntos,
fortalecer a cultura, nossas raízes para ter mais força no enfrentamento com
esses poderosos”.
O secretário do Cimi, Cleber Buzatto, chamou atenção para a agressividade com que
os setores antiniindígenas estão
procurando desconstruir direitos e conquistas dos povos indígenas nas
últimas décadas. “É preciso dar continuidade à mobilização permanente dos povos
indígenas, ampliando suas alianças com as populações do campo”.
Rituais de vida e
resistência
Ivo Poletto, que há décadas vem acompanhando e denunciando a
destruição do cerrado lembrou que na verdade o MATOPIBA é a reedição de
projetos como o PRODECER, implantado pelo ditador Geisel, em 1978, com a
entrega de grande parte do cerrado a multinacionais japonesas. Agora vemos a
mesma lógica se repetindo. “E uma loucura o que está sendo feito” e conclamou
todos “seja profetas da Vida. Tenham amor e respeito sagrado pela terra. O
cerrado diz seu não desesperado a esse desastre total Deem a vossa mensagem do
Bem Viver”.

Para o procurador da República Felício Pontes, “o MATOPIBA é
o projeto final de destruição do cerrado”. Destacou que a voracidade com que o
atual modelo capitalista busca sugar os recursos naturais está baseada em
quatro pilares: madeira, pecuária, monocultura e mineração” Esse modelo caminha
celeremente para o esgotamento deixando
em seu caminho os rastros de morte e destruição.” Alertou para as gravíssimas
consequências de semelhantes projetos, não apenas para o cerrado, mas com
fortes impactos sobre praticamente todos
os biomas, em especial para a Amazônia,
que tem os berços de seus mananciais de água no bioma do cerrado. Destacou que
é obrigação constitucional do Ministério Público a defesa das populações que
vão sendo atingidas por esses projetos e sugeriu ações e debates que deem visibilidade a esse
grave situação e que se realize uma audiência pública em Brasília, sobre o
MATOPIBA. Mostrou com números como os
governos vem destinando recursos públicos para promover a destruição. É contra
esses monstros que temos que lutar.
O Procurador Alvaro Manzano, de Palmas, mostrou a
continuidade do modelo desenvolvimentista gerando grave desagregação social nas
populações do cerrado.
Alfredo Wagner professor da Universidade Federal do
Amazonas, mostrou o descalabro do
momento atual, onde sequer existe uma definição clara sobre o lugar
institucional para resolver a questão da demarcação das terras indígenas e
quilombolas. E neste quadro caótico de desconstrução de direitos, o agronegócio
avança incontrolavelmente. Mostrou com números o importante espaço de terras
coletivas, garantidas ou reivindicadas, e que poderiam configurar uma esperançosa garantia de vida de populações e
da natureza. Mas que infelizmente, apesar das garantias legais e
constitucionais, não estão seguras diante da voracidade do atual modelo de
desenvolvimento. Todos os direitos estão ameaçados. “Estamos numa encruzilhada.
Temos que admitir nossas fraquezas, contradições e esfacelamentos. É preciso unir as forças e
escolher um novo caminho. Estivemos imobilizados por muito tempo. É hora
de fazer os enfrentamentos locais, somar
as resistências locais e ir somando forças.
Luta comum
Os debates mostraram que é urgente avançar na unificação das
lutas. É preciso enfrentar sem medo.
Na parte da tarde foi feito uma importante passeata pelo
centro da cidade, conclamando a população para se unir aos povos indígenas,
quilombolas, populações e comunidades tradicionais, camponeses e todos os
lutadores pela vida, para “defender nossos rios, nossa água, nossa casa comum.
Quase 500 cruzes simbolizando o longo processo de extermínio
e destruição, foram fincadas numa das praças centrais da cidade. No folheto que
foi distribuído à população trazia
importantes informações sobre as graves consequências de destruição da vida
pelo atual modelo de desenvolvimento. “Vocês estão percebendo que o Rio
Tocantins está morrendo? Ele está cada da mais estreito e está pedindo socorro.
É pelo desmatamento que, em média, desaparecem 10 pequenos rios no Cerrado, por
ano...
Território livres, florestas sagradas, fontes de águas
puras! Vamos somar, unir forças na defesa da nossa Mãe Terra. Se a Casa é Comum, a luta também é Comum.
O final da manifestação foi na Assembleia Legislativa, onde
foi entregue um documento e um questionamento de projetos aprovados pelos
deputados:” Queremos também dizer o nosso não ao projeto MATOPIBA que com os correntões da morte, ameaça
destruir o cerrado no qual apenas restam menos de30% da vegetação nativa. Caso esse
projeto for implementado, em poucos anos
não restará quase nada do cerrado e estaremos sujeitos a una
catastrófica falta de água. E a que restar estará cada vez mais contaminada e
escassa, pois as nascentes secarão e nossos rios serão mortos.”
Egon Heck
Cimi GOTO
Palmas, junho de 2016