ATL 2017
sábado, 20 de outubro de 2012
Ato contra o genocídio Kaiowá Guarani, em Brasília
http://www.youtube.com/watch?v=SnVqafGCE6c&feature=youtu.be(veja
video)
Na medida em que o tempo foi passando mais e mais pessoas,
quase todas vestidas de preto, como gesto de luto e protesto. Nas camisetas o
clamor contra o terrorismo dos poderes contra a vida e os direitos dos Kaiowá
Guarani e demais povos indígenas do país ameaçados em perder direitos
conquistados na Constituição e consagrados na legislação internacional. Existe
uma verdadeira guerra contra as terras indígenas e o saque dos recursos
naturais.
Imprensa e aliados foram se juntando à manifestação.
Entidades de Direitos Humanos, indigenistas, parlamentares de plantão, em tempo
de Congresso vazio. Até a veterana jornalista, que desde a década de setenta
vem denunciando as violações dos direitos indígenas se fez presente. Eliana
Lucena, foi e continua sendo uma aliada dos povos indígenas em nosso país, há
mais de 40 anos.
Dentre os articuladores das ações estão o Conselho Federal de
Psicologia, Justiça Global, Plataforma
de Direitos Humanos,Sociais,Culturais e Ambientais - DHSCA e o Conselho
Indigenista Missionário.
Foi um grito forte da sociedade civil exigindo medidas
imediatas e eficazes da parte dos três poderes para estancar o genocídio e
garantir os direitos dos povos originários deste país. As falas foram neste
sentido. Foram elencadas ações em curso para exigir do governo e do Estado
brasileiro. Ações e denuncias na Organização dos Estados Americanos (OEA) e Organização
das Nações Unidas (ONU). Por isso só com uma aliança ampla com a sociedade e a
intensa mobilização dos povos indígenas poderá se dar um exitoso enfrentamento
com os interessas anti-indígenas.
, presidente da Comissão Pastoral da Terra, juntamente com
outros representantes do órgãos de várias regiões do país.
O genocídio continua, mas também se consolidaram importantes
alianças da causa e a esperança também avançou. A luta continua. A luta Kaiowá
Guarani ganhou importante visibilidade. Os enfrentamentos vão se dar nos
diversos espaços. As cruzes fincadas no coração dos poderes certamente trarão
resultados. Os povos resistentes à
secular dominação são portadores de futuro e aliados de todos os marginalizados
e empobrecidos deste país.
Enquanto isso as comunidades nas retomadas, nos
acampamentos, nas aldeias, organizam a esperança, enfrentam os poderosos e
lutam com as forças que lhes restam contra as políticas de morte e genocídio.
Egon Heck
Povo Guarani Grande Povo
Cimi 40 anos, 19 de outubro de 2012
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
Kaiowá Guarani, despejo é morte
Passou
o primeiro turno das eleições. A greve da polícia federal terminou. Tudo pronto
para executar os despejos dos índios no Mato Grosso do Sul.
Passo Piraju: luta pela vida , contra o
etnocídio/genocídio
Conforme relatório de comissão da Aty Guasu à comunidade à comunidade de Passo Piraju, esta "se encontra em estado de pânico, perplexa e desespero total". Relatam a importância da presença de alguns Ñanderu, lideres espirituais, para diminuir o desespero e medo e buscam indicar rumos diante da decisão do despejo, cujo prazo está previsto para amanhã. " Uma das decisões definitiva anunciada na reunião pela comunidade Passo Piraju é não sair do lugar, é resistir e morrer todos juntos. Esta decisão foi repetida, em coro, várias vezes pela comunidade.
Os dos Kadiwéu,(município de Bodoquena)
está anunciada para a próxima semana. A do Passo Piraju(,município de Dourados),também
está na eminência do despejo. Pyelito Kuê/Mbarakay(município de Iguatemi)
também está sob a ordem do despejo. Portanto mais violência, sofrimento e
mortes estão anunciadas.
Do Potrero Guasu(município de
Paranhos) as lideranças comunicaram que seus barracos na retomada foram
queimados essa noite.Apesar de insistente pedido para que a Força Nacional se
faça presente no local em que estão acampados, dentro da terra já com portaria
declaratório e parte fisicamente demarcada, até o momento nem ela, nem Funai,
nem polícia federal estiveram na área para assegurar os direitos dessa
comunidade indígena.
Para os povos primeiros dessas
terras, a terra é vida e despejo é morte. Mas parece que as forças da morte
esperam mais uma vez prevalecer.
Conforme relatório de comissão da Aty Guasu à comunidade à comunidade de Passo Piraju, esta "se encontra em estado de pânico, perplexa e desespero total". Relatam a importância da presença de alguns Ñanderu, lideres espirituais, para diminuir o desespero e medo e buscam indicar rumos diante da decisão do despejo, cujo prazo está previsto para amanhã. " Uma das decisões definitiva anunciada na reunião pela comunidade Passo Piraju é não sair do lugar, é resistir e morrer todos juntos. Esta decisão foi repetida, em coro, várias vezes pela comunidade.
“Nós
não vamos sair daqui! nós vamos morrer todos junto aqui!. Na beira da estrada
não vamos voltar mais viver! por isso vamos morrer todos junto aqui mesmo!”. Ao
falar essa frase várias mulheres e moças indígenas choram sem parar. “Parece
que a Justiça do Brasil só que ver o sofrimento e morte dos índios na beira da
estrada”. “Será que essa é justiça de verdade?”
. De
fato, para todos nós Guarani e Kaiowá, esse tipo de decisão de despejo deferido
pela Justiça é violência que gera miséria e morte/extermínio dos indígenas, por
essa razão, nós comissão de lideranças da Aty Guasu pedimos a revogação imediata
da ordem de despejo da comunidade de Passo Piraju-Dourados-MS. (Tekoha Passo
Piraju, 16 de outubro de 2012. Comissão de lideranças da Aty Guasu)
Egon
Heck - Povo Guarani Grande Povo - Cimi 40 anos, outubro de 2012
quarta-feira, 10 de outubro de 2012
Kaiowá Guarani - Decretos de extermínio
Estava trabalhando na memória histórica dos últimos 40 anos, na
perspectiva da reedição do documento Y Juca Pirama - "O Índio aquele que
deve morrer". Em dezembro de 1973 foi dado esse grito, por bispos e
missionários, contra o genocídio indígena em curso pelos governos da ditadura
militar.
Enquanto buscava reunir denúncias e violências, mortes e massacres de
povos indígenas nestes 40 anos, quando vejo um email, "urgente", do
Conselho da Aty Guasu Kaiowá Guarani.
Ao ler o teor do comunicado, fico estarrecido e me junto ao grito dos
condenados- que país é esse?"
Diante do decreto de morte e extermínio surge a obstinada determinação
dos povos de viver ou morrer coletivamente, conforme suas crenças, esperanças
ou desespero. Esse grito certamente fará parte do manifesto "os povos
indígenas, aqueles que devem viver", apesar e contra os decretos de
extermínio.
Não podemos calar ou ficar inertes diante desse clamor da comunidade
Kaiowá Guarani, de Pyelito Kue/Mbarakay,
no município de Iguatemi, Mato Grosso do Sul. Não se trata de um fato isolado,
mas de excepcional gravidade, diante de uma decisão de morte coletiva.
Continuaremos sendo desafiados por fatos semelhantes caso não se tome medidas
urgentes de solução da questão da demarcação das terras indígenas desse
povo.
O grito
Kaiowá Guarani
" Sabemos que
seremos expulsas daqui da margem do rio pela justiça, porém não vamos sair da
margem do rio. Como um povo nativo/indígena histórico, decidimos meramente em
ser morto coletivamente aqui. Não temos outra opção, esta é a nossa última decisão unânime diante
do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS." Esse é o comunicado da
comunidade indígena para o Governo e Justiça Federal. "
Nos
matem e enterrem coletivamente, gritam das margens do rio Hovy
"Comemos comida uma
vez por dia. Tudo isso passamos dia-a-dia para recuperar o nosso território
antigo Pyleito Kue/Mbarakay.
De fato, sabemos muito
bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários os
nossos avôs e avós, bisavôs e bisavós, ali estão o cemitérios de todos nossos
antepassados. Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser morto e
enterrado junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso,
pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de
despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para
enterrar nós todos aqui. Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa
dizimação/extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande
buraco para jogar e enterrar os nossos
corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais. Já aguardamos esta decisão da
Justiça Federal, Assim, é para decretar a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá
de Pyelito Kue/Mbarakay e para enterrar-nos todos aqui. Visto que decidimos
integralmente a não sairmos daqui com vida e nem morto e sabemos que não temos
mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já
sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo de modo acelerado."
(Carta da comunidade 8/10/20120) Segue em anexo a íntegra da carta.
Ao tomar ciência do teor
da carta dessa comunidade, Eliseu Lopes,da Aty Guasu/APIB comentou " É,
isso vai se repetir muitas vezes se o governo não demarcar logo as nossas
terras. Quando os nossos líderes religiosos decidem retornar aos tekoha (terras
tradicionais de nossas comunidades) vão mesmo e ninguém segura. Ele lamenta
profundamente se chegar a esse ponto de desespero que poderá levar a muitas
mortes.
Povo Guarani Grande Povo
Cimi 40 anos, 10 de
outubro de 2012
terça-feira, 9 de outubro de 2012
Passo Piraju, a um passo da cova
Quase uma década de tribulação, tormento e desassossego
permanente. Talvez seja a comunidade Kaiowá Guarani da Terra Indígena Passo
Piraju, emblemática de uma comunidade indígena sitiada, cercada de soja, cana e
ódio. "Reduzidos sim, mas não vencidos", diziam comunidades indígenas
da Amazônia, quando da Marcha e Conferência Indígena do ano 2000.
Neste período vi as lágrimas deslizando no rosto de
Carlitos, ao narrar tudo que passou nas décadas de luta pela terra e vida de
seu povo. Ele recebeu a visita de dezenas de personalidades e delegações de
Direitos Humanos e aliados, do Brasil e do mundo. Narrou com a mesma dignidade
e fidelidade os acontecimentos, desde a expulsão de seu pai e comunidade do
Passo Piraju, da área onde hoje se encontram.
A pergunta crucial que fica é o que se quer de fato dos
Kaiowá Guarani. Serão os sete palmos de terra, para consumar de vez o genocídio
nunca estancado? Para os arautos dos decretos e
praticas de extermínio é muito mais importante ampliar as
lavouras de soja, uma vez que na bolsa de valores a cotação do grão maldito
está alto, bem acima da vida de qualquer indígena.
Dos 43 indígenas assassinados neste ano, conforme dados
divulgados pelo Cimi, mais de 60% ocorreram no Mato Grosso do Sul, confirmando
a triste estatística de campeão de violência contra os povos indígenas. Com
certeza ações de reintegração de posse, além de ser um ato de violência em si,
propiciam o desencadear de mais violências e mortes. No Estado recentemente
três reintegrações de posse foram expedidas: Pueblito Kuê-Mbarakay (Iguatemi)
Kadiwéu (Bodoquena) e agora Passo Piraju (Dourados)
Nesta semana foi instalada em Amambai um grupo de 20
integrantes da Força Nacional, para evitar a violência contra a população
indígena em 12 municípios da fronteira com o Paraguai.Se espera uma ação eficaz,
especialmente em áreas em que as lideranças estão ameaçadas de morte,como em
Arroio Korá.
Comissão da Verdade Indígena
Até que enfim neste país se resolve começar a fazer
justiça,ou ao menos dar visibilidade, às violências, crimes, torturas e mortes
contra comunidades indígenas em todo o país, ocasionando milhares de mortes.
Embora tardiamente, e possivelmente contra a vontade de setores das elites do
país, à semelhança da Comissão Camponesa.
Para o ex-secretário
do Cimi, Saulo Feitosa a instauração de uma Comissão de Verdade Indígena, além
de um valor simbólico muito grande, traz em seu bojo a possibilidade ( e
necessidade) de uma reparação aos povos afetados.
Egydio Shwade e a Comissão da Verdade em Manaus estarão
entregando, na próxima semana um relatório com mais de 200 documentos
comprovando o massacre de mais de 2 mil Waimiri Atroari, por ocasião da
construção da estrada BR 194 que liga
Manaus(AM) a Boa Vista (RR). A estrada foi construída durante a ditadura
militar, nas décadas de 60 e 70.
Esse será um momento importante para esclarecer a morte de
mais de 1.500 Yanomami, em decorrência da invasão de seu território,
especialmente por garimpeiros e empresas mineradoras., na década de 80. Também
será o momento de esclarecer os massacres dos Juma (Tapauá-AM), do massacre do
paralelo 11, Cinta Larga, dentre muitos outros. Quem sabe se comece a
reescrever a história fazendo justiça a esses povos.
Egon Heck
-www.egonheck.blogspot.com.br
Povo Guarani Grande Povo
Cimi 40 anos, 9 de outubro de 2012
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Depois da eleição, o furacão da mineração em terras indígenas
Remover a terra, numa guerra desigual e insaciável, em busca
do vil metal! Eis a nova batalha anunciada. As vítimas serão mais uma vez os
povos indígenas, que verão enormes
máquinas adentrarem seus territórios, rasgarem o ventre da mãe terra e dela
extraírem riquezas para saciar sua voracidade de acumulação de capital e
poder. Mineradoras do mundo inteiro
estão com suas máquinas apostas, aguardando apenas o sinal verde da aprovação
do projeto que regulamente a exploração mineral em terras indígenas. O relator
da Comissão Especial criada na Câmara dos Deputados, Edio Lopes, já anunciou
que seu relatório está pronto e estará sendo colocado em votação logo depois
das eleições. " Pelas contas do relator, há quase 10 mil requerimentos de
pesquisa de lavra, 150 pedidos de lavra e 10 títulos de lavra que incidem sobre
terras indígenas " Autor do projeto de Lei é o senador Romero Jucá, de
Roraima, que tem enormes expectativas na aprovação, pois parentes seus tem
mineradoras naquele estado. O projeto 1610/96 tramita no Congresso há mais de
15 anos. Os povos indígenas e seus aliados já se pronunciaram inúmera vezes
contrários à aprovação entendendo que essa questão deve ser apensada ao Estatuto dos Povos Indígenas.
Os povos indígenas no Brasil sabem o que significa, em termos
de impacto e destruição, a mineração nas terras indígenas. Por ocasião da constituinte na década de
oitenta os interesses minerais nacionais e mundiais tentaram inviabilizar os
direitos indígenas na nova Constituição. Montaram uma campanha midiática contra
os povos indígenas e seus aliados, como o Cimi, jamais vista na recente
história do país.
Os povos indígenas na América latina sustentam uma luta
secular contra o saque e destruição que a mineração vem promovendo em seus
territórios. Na Bolívia, no Peru e Equador existe uma luta ferrenha contra a
predatória e genocida exploração mineral em territórios indígenas, desde os
Antes até a Amazônia.
A voracidade e truculência do poder mineral no mundo nunca
se conformou com o dispositivo constitucional que exige uma regulamentação especial
para a exploração mineral em terras
indígenas. Em vários momentos tentaram a aprovação no Congresso desse projeto
de lei. Aos sobrevivente caberá contar a desgraça anunciada.
Eleições e
primavera
Para os povos indígenas as eleições são apenas mais um
momento de tapas nas costas, promessas de benefícios imediatas, sorrisos e
rostos farisaicamente simpáticos. Para alguns, dos mais de 200 candidatos
indígenas a vereador, é também o momento de levar a reflexão política para dentro
das aldeias, para mostrar as possibilidades e limites de participar desse
ritual da democracia formal, representativa ( tão diferente da democracia
comunitária participativa das aldeias!) É provável que mais de trinta lideranças indígenas sejam
aprovados no ritual das urnas e tenham quatro anos de mandato, no estranho e
complicado ninho das câmaras dos vereadores. Boa sorte aos que como Otoniel
Kaiowá Guarani, buscam a reeleição,
na estreita margem de luta pelos direitos de seu povo, especialmente à
terra e os recursos naturais nelas existentes.

No embalo da primavera a vida é mais vida, a esperança
galopa na beleza abundante da natureza que renasce em cada olhar atento e
desabrocha em gratidão à mãe terra.
No dia da
" pacificação"
Convite irrecusável. Colegas do Cimi em Florianópolis
convidaram para falar da "Vivência com os Povos Indígenas", e
juntamente com o Kaiowá Guarani Elizeu Lopes, debater a situação dos povos
indígenas no Mato Grosso do Sul. Não
poderia deixar de falar sobre a trajetória de luta e compromisso com os povos
indígenas, uma vez que foi com os Kaingang, Guarani e Xokleng que inicie a
trajetória de 40 anos de aprendizado e luta com os habitantes primeiros desta
terra. Eram quase 100 alunos indígenas de um curso de licenciatura na
Universidade Federal de Santa Catarina.
Ao final da conversa os Xokleng pediram um tempo para
apresentar algo sobre a data de 22 de setembro, que além do início da
primavera, para eles tinha um significado especial. Faziam exatos 98 anos em
que eles decidiram fazer contato pacífico com os brancos. É considerado o dia
da "pacificação", ou seja, quando eles decidiram manter contato com a
equipe de atração do Serviço de Proteção ao Índio- SPI. Assim como os Kaingang
os Xokleng se mantiveram isolados e resistentes ao contato até o início do
século 20. E a resistência deles foi a razão da criação do SPI, em 1910.
Egon Heck
-www.egonheck.blogspot.com.br - Cimi
40 anos, inicio de primavera de 2012
sábado, 22 de setembro de 2012
Homenagem ao guerreiro Avá Apykaverá - Amilton
Jonia, da FIAN Brasil, escreveu uma linda mensagem lembrando o quanto, pacientemente, Ava Apykavera ensinou a nós sobre o modo de vida , luta e resistência do povo Guarani “Aprendi a ter paciência e respeitar as diferenças, a ter perseverança e saber que não importa as derrotas que temos e sim o que podemos construir com o cenário que temos... Ao final do dia estávamos exaustos e Amilton jamais se queixou, se manteve firme e sereno. Sempre que indagado sobre o perigo da situação guarani, ele respondia não temer: “vale a pena lutar pela terra sem males para o bem viver guarani”.

Recolhi, para homenagear esse guerreiro Avá, alguns trechos dos escritos e registros das falas que ele foi semeando, com indignação e espeerança, por vários países do velho mundo.
Registrando o momento da partida “Avá senta em frente a seu barraco antes da viagem iniciar. Vem à memória os 25 anos de luta pela terra, vida e futuro Guarani Kaiowá. Naquele outubro de 1983 quando, finalmente, voltaram, resolutos, ao tekoha de Pirakuá. Menos de um mês depois Marçal Tupã’i seria assassinado à porta de seu barraco. Vinte e cinco anos depois continuam confinados dentro de sua terra. Continuam as mesmas ameaças e violências. Algumas lágrimas caem ao chão. Não serão
Retomando os sonhos Guarani
Avá Apykuverá está muito animado. Em suas falas tem ressaltado a importância de retomarem os sonhos Guarani, que são de não apenas retornar a seus tekoha, mas de verem nelas novamente crescer os alimentos e as florestas. Os animais das florestas sumiram. Quem sabe daqui uns tempos eles possam retornar a essas terras. Só assim também os espíritos, os rituais, a saúde de seu povo poderão novamente estar presentes nas comunidades. Avá está feliz. Está completando 52 anos, aqui em Grenoble. Parabéns ! (Grenoble,França, 9 de outubro 2008)
Destruiram nosso supermercado
Uma das questçoes que Avá tem ressaltado em suas falas é a grande tristeza por terem destruído tanto a terra, a mata, os animais, os peixes, enfim, tudo que era parte essencial de sua alimentação natural. “Destruiram nosso supermercado que eram as florestas. Hoje vivemos de alimentos com produtos químicos, pobres, que vem na sexta básica, na maioria das vezes. Quase não comemos mais carne. A comida de uma sexta básica mal dá para alguns dias. É um tipo de um lanche.” Dessa forma desabafa sobre a triste realidade de carência e dependencia em que se transformou a maior parte dos mais de 40 mil Kaiowá Guarani do Maato Grosso do Sul. “Nosso supermercado foi destruído pelo governo. Nosso supermercado foi trocado pela Colonia Agricola. Nosso supermercado foi trocado pela erva mate, depois pelo gado e soja. E agora está sendo trocado pela cana e etanol”.
Em Budapest - Hungria
Avá Apykaverá Kaiowá Guarani faz uma rápida explanação sobre a situação grave por que passa sua comunidade e povo por causa do confinamento e falta de reconhecimento das terras. Lembra que essa história de violência na verdade já dura mais de 500 anos.. “Hoje estão nos matando lentamente com as leis e as demoras em reconhecer nossos direitos, como as nossas terras”, explica.
Após mais alguns dados para compreensão da realidade Kaiowá Guarani e da conjuntura atual em conseqüência do modelo de produção e da expansão rápida do setor sucroalcoleiro na região, foi aberto espaço para as perguntas dos jornalistas. Havia grande interesse em conhecer a realidade trazida até a Hungria pela Campanha Guarani, através da FIAN e do CIMI. Foi um longo tempo de perguntas visando um melhor entendimento especialmente da situação fundiária, terras Guarani e o sistema de produção do etanol. Foram quase duas horas de esforço intenso para o entendimento de uma das realidades mais graves por que passa um povo indígena no Brasil. Houve insistência na co-responsabilidade mundial diante da grande crise por que passa o planeta e da necessária solidariedade em nível global diante da violação de direitos fundamentais dos povos e das pessoas ( Budapest, 22 de outubro de 2008)
O que fazer
- Pedir o cumprimento da Constituição que garante a terra e vivência conforme a organização social, tradição e cultura dos povos indígenas. Igualmente esses direitos estão garantidos na legislação internacional como a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho e a Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas aprovada no ano passado pela Organização das Nações Unidas.
- Articulação das instituições e pessoas sensíveis à causa do Povo Guarani construindo uma rede que possa conhecer sempre mais a vida, os valores e os desafios que encontra esse povo nos cinco países da América do Sul onde vivem hoje.
- Contribuir com a descolonização exigida pelos povos em todos os lugares do mundo, que significa mudar atitudes, modos de vida, abdicar de privilégios e ajudar na construção de um mundo plural e justo.
- Participar concretamente de campanhas de apoio aos Povos Guarani, como a Campanha que a FiAN internacional está realizando enviando cartão ao presidente Lula pedindo a urgente demarcação das terras Kaiowá Guarani .
A volta - a Campanha Povo Guarani Grarnde Povo nas alturas
Enquanto brigamos com o tempo, aproveitamos para socializar nossas impressões no giro pelo velho mundo. O futuro certamente não passará mais por aqui. Creio que está vindo das Américas. E mais precisamente das raízes e valores indígenas. É o que nos contou com muito entusiasmo Geza, na Hungria, ex-república da União Soviética. Nos dizia ele que a presença da questão indígena ente eles naqueles dias tinha uma dupla mão. Entender e ver como ser solidário com essa causa e ao mesmo tempo aprender com essas sociedades como voltar a ter uma vida mais simples, solidária e coletiva. Certamente a inspiração na aldeia e seus valores é algo muito real, concreto e possível hoje.
Fomos refletindo sobre os inúmeros contatos, pessoas extremamente gentis, receptivas e solidárias, entidades entusiasmadas com a Campanha, especialmente as equipes de FIAN nos diversos países. Recordamos o acolhimento nas casas dos membros das equipes, as longas caminhas, sobe e desce de metrô, trem, ônibus, trembus (um cruzamento de bondinho e ônibus) e assim por diante. Só não andamos de bicicleta em Amsterdam, onde milhares de bicicletas circulam constantemente e outras tantas estão amarradas nas ruas, com direito até a prédios de estacionamento de bicicleta. Creio que é algo que aponta para o futuro. Ao menos deixa respirar melhor do que em Paris, Pudapest e outros lugares que se assemelham dramaticamente às ruas das nossas grandes cidades. O impressionante é que não vimos nenhum acidente nesses dias e lugares todos e também não atropelamos nenhuma bicicleta em Amsterdam.
Só o que não faltou guarani e gauchamente, foi o chimarrão. Não ficamos um dia sem o precioso líquido. A primeira palavra que tínhamos que decorar nas diversas línguas era “água quente”. O único fato curioso foi na Hungria, onde não conseguimos nos prevenir, e quando de manhã fomos entregar a garrafa termina pedindo água quente nas línguas que conhecíamos o resultado foi uma garra de chá bem doce. Não tivemos dúvidas. Foi o nosso chá-mate.
Sobre o oceano Atlântico, há 10300 metros de altura, 23, de outubro de 2008
Egon Heck (Cimi) Avá Apykaverá Kaikowá Guaran)i
Mas a esperança está viva como ouvimos nas falas da filha “Meu pai não morreu, está vivo em nossos corações e no nosso sangue de guerreiros”.
Egon Heck -Povo Guarani Grande Povo, 20 de setembro de 2012
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