ATL 2017

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sábado, 20 de outubro de 2012

ATO CONTRA O GENOCIDIO


Ato contra o genocídio Kaiowá Guarani, em Brasília


Sol de rachar logo após o meio dia. A esplanada dos ministérios amanheceu com cinco mil cruzes plantadas no coração do poder. Cinco mil vidas indígenas ceifadas, simbolizando o genocídio em curso e as décadas e séculos de decretos de extermínio e mortes planejadas. Cenário tétrico, que deveria comover os responsáveis pelos três poderes, em última instância pelo silencioso e continuado genocídio do povo Kaiowá Guarani do Mato Grosso do Sul.

Eliseu e Rose Kaiowá Guarani caminham por entre as cruzes como se estivessem caminhando entre cinco séculos de dominação, perseguições, invasões, expulsões e mortes. Seguram faixas que denunciam o genocídio desse povo e clamam por solidariedade "Salve kaiowá Guarani" , "Em defesa do povo e das terras dos Kaiowá Guarani". Falam da violência que seu povo sofre nos dias atuais, quando várias lideranças foram assassinadas e outras estão seriamente ameaçadas pelo poder dos fazendeiros e do agronegócio.

http://www.youtube.com/watch?v=SnVqafGCE6c&feature=youtu.be(veja video)

Na medida em que o tempo foi passando mais e mais pessoas, quase todas vestidas de preto, como gesto de luto e protesto. Nas camisetas o clamor contra o terrorismo dos poderes contra a vida e os direitos dos Kaiowá Guarani e demais povos indígenas do país ameaçados em perder direitos conquistados na Constituição e consagrados na legislação internacional. Existe uma verdadeira guerra contra as terras indígenas e o saque dos recursos naturais.

Imprensa e aliados foram se juntando à manifestação. Entidades de Direitos Humanos, indigenistas, parlamentares de plantão, em tempo de Congresso vazio. Até a veterana jornalista, que desde a década de setenta vem denunciando as violações dos direitos indígenas se fez presente. Eliana Lucena, foi e continua sendo uma aliada dos povos indígenas em nosso país, há mais de 40 anos.

Dentre os articuladores  das ações estão o Conselho Federal de Psicologia,  Justiça Global, Plataforma de Direitos Humanos,Sociais,Culturais e Ambientais - DHSCA e o Conselho Indigenista Missionário.

Foi um grito forte da sociedade civil exigindo medidas imediatas e eficazes da parte dos três poderes para estancar o genocídio e garantir os direitos dos povos originários deste país. As falas foram neste sentido. Foram elencadas ações em curso para exigir do governo e do Estado brasileiro. Ações e denuncias na Organização dos Estados Americanos (OEA) e Organização das Nações Unidas (ONU). Por isso só com uma aliança ampla com a sociedade e a intensa mobilização dos povos indígenas poderá se dar um exitoso enfrentamento com os interessas anti-indígenas.

Dentre os participantes do ato vale destacar a presença solidária de D. Enemesio

, presidente da Comissão Pastoral da Terra, juntamente com outros representantes do órgãos de várias regiões do país.

O genocídio continua, mas também se consolidaram importantes alianças da causa e a esperança também avançou. A luta continua. A luta Kaiowá Guarani ganhou importante visibilidade. Os enfrentamentos vão se dar nos diversos espaços. As cruzes fincadas no coração dos poderes certamente trarão resultados. Os povos resistentes  à secular dominação são portadores de futuro e aliados de todos os marginalizados e empobrecidos deste país.

Enquanto isso as comunidades nas retomadas, nos acampamentos, nas aldeias, organizam a esperança, enfrentam os poderosos e lutam com as forças que lhes restam contra as políticas de morte e genocídio.

 

Egon Heck

Povo Guarani Grande Povo

Cimi 40 anos, 19 de outubro de 2012

 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Kaiowá Guarani, despejo é morte

Passou o primeiro turno das eleições. A greve da polícia federal terminou. Tudo pronto para executar os despejos dos índios no Mato Grosso do Sul.

            Os dos Kadiwéu,(município de Bodoquena) está anunciada para a próxima semana. A do Passo Piraju(,município de Dourados),também está na eminência do despejo. Pyelito Kuê/Mbarakay(município de Iguatemi) também está sob a ordem do despejo. Portanto mais violência, sofrimento e mortes estão anunciadas.

            Do Potrero Guasu(município de Paranhos) as lideranças comunicaram que seus barracos na retomada foram queimados essa noite.Apesar de insistente pedido para que a Força Nacional se faça presente no local em que estão acampados, dentro da terra já com portaria declaratório e parte fisicamente demarcada, até o momento nem ela, nem Funai, nem polícia federal estiveram na área para assegurar os direitos dessa comunidade indígena.

            Para os povos primeiros dessas terras, a terra é vida e despejo é morte. Mas parece que as forças da morte esperam mais uma vez prevalecer.
 Passo Piraju: luta pela vida , contra o etnocídio/genocídio

Conforme relatório de comissão da Aty Guasu à comunidade  à comunidade de Passo Piraju, esta "se encontra em estado de pânico, perplexa e desespero total". Relatam a importância da presença de alguns Ñanderu, lideres espirituais, para diminuir o desespero e medo e buscam indicar rumos diante da decisão do despejo, cujo prazo está previsto para amanhã. " Uma das decisões definitiva anunciada na reunião pela comunidade Passo Piraju é não sair do lugar, é resistir e morrer todos juntos. Esta decisão foi repetida, em coro, várias vezes pela comunidade.

Nós não vamos sair daqui! nós vamos morrer todos junto aqui!. Na beira da estrada não vamos voltar mais viver! por isso vamos morrer todos junto aqui mesmo!”. Ao falar essa frase várias mulheres e moças indígenas choram sem parar. “Parece que a Justiça do Brasil só que ver o sofrimento e morte dos índios na beira da estrada”. “Será que essa é justiça de verdade?”
. De fato, para todos nós Guarani e Kaiowá, esse tipo de decisão de despejo deferido pela Justiça é violência que gera miséria e morte/extermínio dos indígenas, por essa razão, nós comissão de lideranças da Aty Guasu pedimos a revogação imediata da ordem de despejo da comunidade de Passo Piraju-Dourados-MS. (Tekoha Passo Piraju, 16 de outubro de 2012. Comissão de lideranças da Aty Guasu)
 

Egon Heck - Povo Guarani Grande Povo - Cimi 40 anos, outubro de 2012

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Kaiowá Guarani - Decretos de extermínio


Estava trabalhando na memória histórica dos últimos 40 anos, na perspectiva da reedição do documento Y Juca Pirama - "O Índio aquele que deve morrer". Em dezembro de 1973 foi dado esse grito, por bispos e missionários, contra o genocídio indígena em curso pelos governos da ditadura militar.
Enquanto buscava reunir denúncias e violências, mortes e massacres de povos indígenas nestes 40 anos, quando vejo um email, "urgente", do Conselho da Aty Guasu Kaiowá Guarani.

Ao ler o teor do comunicado, fico estarrecido e me junto ao grito dos condenados- que país é esse?"
Diante do decreto de morte e extermínio surge a obstinada determinação dos povos de viver ou morrer coletivamente, conforme suas crenças, esperanças ou desespero. Esse grito certamente fará parte do manifesto "os povos indígenas, aqueles que devem viver", apesar e contra os decretos de extermínio.

Não podemos calar ou ficar inertes diante desse clamor da comunidade Kaiowá Guarani,  de Pyelito Kue/Mbarakay, no município de Iguatemi, Mato Grosso do Sul. Não se trata de um fato isolado, mas de excepcional gravidade, diante de uma decisão de morte coletiva. Continuaremos sendo desafiados por fatos semelhantes caso não se tome medidas urgentes de solução da questão da demarcação das terras indígenas desse povo. 

O grito Kaiowá Guarani

" Sabemos que seremos expulsas daqui da margem do rio pela justiça, porém não vamos sair da margem do rio. Como um povo nativo/indígena histórico, decidimos meramente em ser morto coletivamente aqui. Não temos outra opção,  esta é a nossa última decisão unânime diante do despacho da Justiça Federal de Navirai-MS." Esse é o comunicado da comunidade indígena para o Governo e Justiça Federal.  "  

 
Nos matem e enterrem coletivamente, gritam das margens do rio Hovy

"Comemos comida uma vez por dia. Tudo isso passamos dia-a-dia para recuperar o nosso território antigo Pyleito Kue/Mbarakay.

De fato, sabemos muito bem que no centro desse nosso território antigo estão enterrados vários os nossos avôs e avós, bisavôs e bisavós, ali estão o cemitérios de todos nossos antepassados. Cientes desse fato histórico, nós já vamos e queremos ser morto e enterrado junto aos nossos antepassados aqui mesmo onde estamos hoje, por isso, pedimos ao Governo e Justiça Federal para não decretar a ordem de despejo/expulsão, mas solicitamos para decretar a nossa morte coletiva e para enterrar nós todos aqui. Pedimos, de uma vez por todas, para decretar a nossa dizimação/extinção total, além de enviar vários tratores para cavar um grande buraco para  jogar e enterrar os nossos corpos. Esse é nosso pedido aos juízes federais. Já aguardamos esta decisão da Justiça Federal, Assim, é para decretar a nossa morte coletiva Guarani e Kaiowá de Pyelito Kue/Mbarakay e para enterrar-nos todos aqui. Visto que decidimos integralmente a não sairmos daqui com vida e nem morto e sabemos que não temos mais chance em sobreviver dignamente aqui em nosso território antigo, já sofremos muito e estamos todos massacrados e morrendo de modo acelerado." (Carta da comunidade 8/10/20120) Segue em anexo a íntegra da carta.

 
Ao tomar ciência do teor da carta dessa comunidade, Eliseu Lopes,da Aty Guasu/APIB comentou " É, isso vai se repetir muitas vezes se o governo não demarcar logo as nossas terras. Quando os nossos líderes religiosos decidem retornar aos tekoha (terras tradicionais de nossas comunidades) vão mesmo e ninguém segura. Ele lamenta profundamente se chegar a esse ponto de desespero que poderá levar a muitas mortes.

  
Egon Heck

Povo Guarani Grande Povo

Cimi 40 anos, 10 de outubro de 2012

 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Passo Piraju, a um passo da cova


 

Querem decididamente a comunidade kaiowá Guarani, embaixo da terra, há sete palmos.  Conforme pedido do senhor Esmalte, confirmado pelo juiz de primeiro grau, já em 2004 " O MM. juiz de primeiro grau, então, determinou seja o cacique Carlitos de Oliveira advertido a não mais autorizar, incentivar ou permitir que os indígenas sob sua chefia ingressem na propriedade do autor e que a FUNAI providencie "a retirada dos índios da margem da propriedade do autor, assentando-os em local distante" (f. 159).

Quase uma década de tribulação, tormento e desassossego permanente. Talvez seja a comunidade Kaiowá Guarani da Terra Indígena Passo Piraju, emblemática de uma comunidade indígena sitiada, cercada de soja, cana e ódio. "Reduzidos sim, mas não vencidos", diziam comunidades indígenas da Amazônia, quando da Marcha e Conferência Indígena do ano 2000.

Neste período vi as lágrimas deslizando no rosto de Carlitos, ao narrar tudo que passou nas décadas de luta pela terra e vida de seu povo. Ele recebeu a visita de dezenas de personalidades e delegações de Direitos Humanos e aliados, do Brasil e do mundo. Narrou com a mesma dignidade e fidelidade os acontecimentos, desde a expulsão de seu pai e comunidade do Passo Piraju, da área onde hoje se encontram.

Apesar de doenças, mortes, tensões e conflitos, pressões e enganações de toda ordem, Carlitos e sua comunidade,enfrentaram todas essas adversidades com muita fé e convicção de que Tupã, Nhanderu fará um dia justiça para seu povo. Agora se encontra diante de uma nova ordem de despejo.

A pergunta crucial que fica é o que se quer de fato dos Kaiowá Guarani. Serão os sete palmos de terra, para consumar de vez o genocídio nunca estancado? Para os arautos dos decretos e

 

praticas de extermínio é muito mais importante ampliar as lavouras de soja, uma vez que na bolsa de valores a cotação do grão maldito está alto, bem acima da vida de qualquer indígena.

Dos 43 indígenas assassinados neste ano, conforme dados divulgados pelo Cimi, mais de 60% ocorreram no Mato Grosso do Sul, confirmando a triste estatística de campeão de violência contra os povos indígenas. Com certeza ações de reintegração de posse, além de ser um ato de violência em si, propiciam o desencadear de mais violências e mortes. No Estado recentemente três reintegrações de posse foram expedidas: Pueblito Kuê-Mbarakay (Iguatemi) Kadiwéu (Bodoquena) e agora Passo Piraju (Dourados)

Para Eliseu Lopes, representante da Aty Guasu na Articulação dos Povos Indígenas do Brasil- APIB, é inconcebível que se continue provocando mais violência ao invés de resolver o problema das terras indígenas de uma vez. Ele está participando de vários iniciativas dos Direitos Humanos "para que haja uma somatória de forças para impedir a continuação da violação dos direitos do nosso povos Kaiowá Guarani", afirma Eliseu. Ele está cobrando do governo e em especial da Funai, a urgente publicação dos relatórios de identificação de todas as terras indígenas no Mato Grosso do Sul. "A APIB continua exigindo a revogação da portaria 303 da AGU, que é uma das causadoras de violência.

Nesta semana foi instalada em Amambai um grupo de 20 integrantes da Força Nacional, para evitar a violência contra a população indígena em 12 municípios da fronteira com o Paraguai.Se espera uma ação eficaz, especialmente em áreas em que as lideranças estão ameaçadas de morte,como em Arroio Korá.

Comissão da Verdade Indígena

Até que enfim neste país se resolve começar a fazer justiça,ou ao menos dar visibilidade, às violências, crimes, torturas e mortes contra comunidades indígenas em todo o país, ocasionando milhares de mortes. Embora tardiamente, e possivelmente contra a vontade de setores das elites do país, à semelhança da Comissão Camponesa.

Para  o ex-secretário do Cimi, Saulo Feitosa a instauração de uma Comissão de Verdade Indígena, além de um valor simbólico muito grande, traz em seu bojo a possibilidade ( e necessidade) de uma reparação aos povos afetados.

Egydio Shwade e a Comissão da Verdade em Manaus estarão entregando, na próxima semana um relatório com mais de 200 documentos comprovando o massacre de mais de 2 mil Waimiri Atroari, por ocasião da construção da estrada BR 194 que liga  Manaus(AM) a Boa Vista (RR). A estrada foi construída durante a ditadura militar, nas décadas de 60 e 70.

Esse será um momento importante para esclarecer a morte de mais de 1.500 Yanomami, em decorrência da invasão de seu território, especialmente por garimpeiros e empresas mineradoras., na década de 80. Também será o momento de esclarecer os massacres dos Juma (Tapauá-AM), do massacre do paralelo 11, Cinta Larga, dentre muitos outros. Quem sabe se comece a reescrever a história fazendo justiça a esses povos.

 

Egon Heck -www.egonheck.blogspot.com.br

Povo Guarani Grande Povo

Cimi 40 anos, 9 de outubro de 2012


segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Depois da eleição, o furacão da mineração em terras indígenas



Remover a terra, numa guerra desigual e insaciável, em busca do vil metal! Eis a nova batalha anunciada. As vítimas serão mais uma vez os povos indígenas, que  verão enormes máquinas adentrarem seus territórios, rasgarem o ventre da mãe terra e dela extraírem riquezas para saciar sua voracidade de acumulação de capital e poder.  Mineradoras do mundo inteiro estão com suas máquinas apostas, aguardando apenas o sinal verde da aprovação do projeto que regulamente a exploração mineral em terras indígenas. O relator da Comissão Especial criada na Câmara dos Deputados, Edio Lopes, já anunciou que seu relatório está pronto e estará sendo colocado em votação logo depois das eleições. " Pelas contas do relator, há quase 10 mil requerimentos de pesquisa de lavra, 150 pedidos de lavra e 10 títulos de lavra que incidem sobre terras indígenas " Autor do projeto de Lei é o senador Romero Jucá, de Roraima, que tem enormes expectativas na aprovação, pois parentes seus tem mineradoras naquele estado. O projeto 1610/96 tramita no Congresso há mais de 15 anos. Os povos indígenas e seus aliados já se pronunciaram inúmera vezes contrários à aprovação entendendo que essa questão deve ser apensada  ao Estatuto dos Povos Indígenas.

Em vários encontros os  indígenas tem se posicionado contrários à mineração em seus territórios.  Eles exigem que não apenas sejam consultados a respeito, mas que tenham poder de veto.

Os povos indígenas no Brasil sabem o que significa, em termos de impacto e destruição, a mineração nas terras indígenas.  Por ocasião da constituinte na década de oitenta os interesses minerais nacionais e mundiais tentaram inviabilizar os direitos indígenas na nova Constituição. Montaram uma campanha midiática contra os povos indígenas e seus aliados, como o Cimi, jamais vista na recente história do país.

Os povos indígenas na América latina sustentam uma luta secular contra o saque e destruição que a mineração vem promovendo em seus territórios. Na Bolívia, no Peru e Equador existe uma luta ferrenha contra a predatória e genocida exploração mineral em territórios indígenas, desde os Antes até a Amazônia.

A voracidade e truculência do poder mineral no mundo nunca se conformou com o dispositivo constitucional  que exige uma regulamentação especial para  a exploração mineral em terras indígenas. Em vários momentos tentaram a aprovação no Congresso desse projeto de lei. Aos sobrevivente caberá contar a desgraça anunciada.

Eleições e primavera

Para os povos indígenas as eleições são apenas mais um momento de tapas nas costas, promessas de benefícios imediatas, sorrisos e rostos farisaicamente simpáticos. Para alguns, dos mais de 200 candidatos indígenas a vereador, é também o momento de levar a reflexão política para dentro das aldeias, para mostrar as possibilidades e limites de participar desse ritual da democracia formal, representativa ( tão diferente da democracia comunitária participativa das aldeias!) É provável  que mais de trinta lideranças indígenas sejam aprovados no ritual das urnas e tenham quatro anos de mandato, no estranho e complicado ninho das câmaras dos vereadores. Boa sorte aos que  como Otoniel  Kaiowá Guarani, buscam a reeleição,  na estreita margem de luta pelos direitos de seu povo, especialmente à terra e os recursos naturais nelas existentes.

A primavera explode em beleza rara, no serrado em flor. A cagaita com suas minúsculas flores e folhas de cores variadas são de encher os olhos e regar o coração, numa infinita série maravilhosa de imagens gravadas em nossos atentos olhares. As flores do pequizeiro recebem inúmeras abelhas entre seus brancos filetes com bolinhas nas pontas. As árvores que há poucos dias espetavam o céu desnudas, agora colocam suas novas vestes para engalanar a primavera com seus verdes tons, e sons dos pássaros, das cigarras e inúmeros viventes encantados.

No embalo da primavera a vida é mais vida, a esperança galopa na beleza abundante da natureza que renasce em cada olhar atento e desabrocha em gratidão à mãe terra.

No dia da " pacificação"

Convite irrecusável. Colegas do Cimi em Florianópolis convidaram para falar da "Vivência com os Povos Indígenas", e juntamente com o Kaiowá Guarani Elizeu Lopes, debater a situação dos povos indígenas no Mato Grosso do Sul.  Não poderia deixar de falar sobre a trajetória de luta e compromisso com os povos indígenas, uma vez que foi com os Kaingang, Guarani e Xokleng que inicie a trajetória de 40 anos de aprendizado e luta com os habitantes primeiros desta terra. Eram quase 100 alunos indígenas de um curso de licenciatura na Universidade Federal de Santa Catarina.

Ao final da conversa os Xokleng pediram um tempo para apresentar algo sobre a data de 22 de setembro, que além do início da primavera, para eles tinha um significado especial. Faziam exatos 98 anos em que eles decidiram fazer contato pacífico com os brancos. É considerado o dia da "pacificação", ou seja, quando eles decidiram manter contato com a equipe de atração do Serviço de Proteção ao Índio- SPI. Assim como os Kaingang os Xokleng se mantiveram isolados e resistentes ao contato até o início do século 20. E a resistência deles foi a razão da criação do SPI, em 1910.

Egon Heck  -www.egonheck.blogspot.com.br  - Cimi 40 anos, inicio de primavera de 2012

sábado, 22 de setembro de 2012

Homenagem ao guerreiro Avá Apykaverá - Amilton


Jonia, da FIAN Brasil, escreveu uma linda mensagem lembrando o quanto, pacientemente, Ava Apykavera ensinou a nós sobre o modo de vida , luta e resistência do povo Guarani “Aprendi a ter paciência e respeitar as diferenças, a ter perseverança e saber que não importa as derrotas que temos e sim o que podemos construir com o cenário que temos... Ao final do dia estávamos exaustos e Amilton jamais se queixou, se manteve firme e sereno. Sempre que indagado sobre o perigo da situação guarani, ele respondia não temer: “vale a pena lutar pela terra sem males para o bem viver guarani”.
Amilton, era um guerreiro, nada temia por estar com suas plumagens mágicas. É triste Amilton partir antes de ver seu povo desfrutando da terra sem males. Ficam as boas lembranças e o estímulo para continuar na árida busca pela efetivação dos direitos humanos do povo Guarani. Assim, talvez um dia, mesmo que distante, mesmo que em outro plano, ele possa ver a realização de seu sonho, sonho de seu povo. Os feitos de Ava Apykaverá são inspirações ao nosso viver e na atuação do FIAN Brasil. “ Jônia Rodrigues  - FIAN Brasil
Recolhi, para homenagear esse guerreiro Avá, alguns trechos dos escritos e registros das falas que ele foi semeando, com indignação e espeerança, por vários países do velho mundo.

Registrando o momento da partida “Avá senta em frente a seu barraco antes da viagem iniciar.  Vem à memória os 25 anos de luta pela terra, vida e futuro Guarani Kaiowá.  Naquele outubro de 1983 quando, finalmente, voltaram, resolutos, ao tekoha de Pirakuá. Menos de um mês depois Marçal Tupã’i seria assassinado à porta de seu barraco. Vinte e cinco anos depois continuam confinados dentro de sua terra. Continuam as mesmas ameaças e violências. Algumas lágrimas caem ao chão. Não serão em vão. Pega a maleta e parte para mais uma missão de vida e esperança. Acabou de votar e ser votado. O horizonte nunca acaba! Um outro mundo é possível, urgente e necessário.(Nhanderu Marangatu, 5 de outubro de 2008)
Retomando os sonhos Guarani
Avá Apykuverá está muito animado. Em suas falas tem ressaltado a importância de retomarem os sonhos Guarani, que são de não apenas retornar a seus tekoha, mas de verem nelas novamente crescer os alimentos e as florestas. Os animais das florestas sumiram. Quem sabe daqui uns tempos eles possam retornar a essas terras. Só assim também os espíritos, os rituais, a saúde de seu povo poderão novamente estar presentes nas comunidades. Avá está feliz. Está completando 52 anos, aqui em Grenoble. Parabéns! (Grenoble,França, 9 de outubro 2008)

Destruiram nosso supermercado
Uma das questçoes que Avá tem ressaltado em suas falas é a grande tristeza por terem destruído tanto a terra, a mata, os animais, os peixes, enfim, tudo que era parte essencial de sua alimentação natural. “Destruiram nosso supermercado que eram as florestas. Hoje vivemos de alimentos com produtos químicos, pobres, que vem na sexta básica, na maioria das vezes. Quase não comemos mais carne.  A comida de uma sexta básica mal dá para alguns dias. É um tipo de um lanche.” Dessa forma desabafa sobre a triste realidade de carência e dependencia em que se transformou a maior parte dos mais de  40 mil Kaiowá Guarani do Maato Grosso do Sul. “Nosso supermercado foi destruído pelo governo. Nosso supermercado foi trocado pela Colonia Agricola. Nosso supermercado foi trocado pela erva mate, depois pelo gado e soja. E agora está sendo trocado pela cana e etanol”.
Fome de solidariedade e luta
Nesta véspera do dia mundial da alimentação, quando os movimentos sociais, e particularmente os do campo, os trabalhadores rurais que são a metade da população que passa fome no mundo hoje, estarão fazendo mobilizações, Avá também fará seu protesto e diálogo em Bruxelas, sede da União Européia. Irá com outros ativiistas sociais protestar contra a fome e violência a que está submetido seu povo, pedindo a demarcação o mais urgentemente possível das terras Guarani.  “Só com terra poderemos novamente ter liberdade, alegria e fartura”, declarou AVá em diversos momentos.
Em Budapest - Hungria
Avá Apykaverá Kaiowá Guarani faz uma rápida explanação sobre  a situação grave por que passa sua comunidade e povo por causa do confinamento e falta de reconhecimento das terras. Lembra que essa história de violência na verdade já dura mais de 500 anos.. “Hoje estão nos matando lentamente com as leis e as demoras em reconhecer nossos direitos, como as nossas terras”, explica.
Após mais alguns dados para compreensão da realidade  Kaiowá Guarani e da conjuntura  atual em conseqüência do modelo de produção e da  expansão rápida do setor sucroalcoleiro na região, foi aberto espaço para as perguntas dos jornalistas. Havia grande interesse em conhecer a realidade trazida até a Hungria pela Campanha Guarani, através da FIAN e do CIMI. Foi um longo tempo de perguntas visando um melhor entendimento especialmente da situação fundiária, terras Guarani e o sistema de produção do etanol. Foram quase duas horas de esforço intenso para o entendimento de uma das realidades mais graves por que passa um povo indígena no Brasil.  Houve insistência na co-responsabilidade mundial diante da grande crise por que passa o planeta e da necessária solidariedade em nível global diante da violação de direitos fundamentais dos povos e das pessoas ( Budapest, 22 de outubro de 2008)
O que fazer
No final dos encontros, contatos e debates sempre se manifestam os desejos de saber como apoiar essa causa nobre e justa, a vida, terra e futuro dos Kaiowá Guarani. Juntos se tem construído algumas possibilidades e gestos concretos de apoio
  1. Pedir o cumprimento da Constituição  que garante a terra e vivência conforme a organização social, tradição e cultura dos povos indígenas. Igualmente esses direitos estão garantidos na legislação internacional como a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho e a Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas aprovada no ano passado pela Organização das Nações Unidas.
  2. Articulação das instituições e pessoas sensíveis à causa do Povo Guarani construindo uma rede que possa conhecer sempre mais a vida, os valores e os desafios que encontra esse povo nos cinco países da América do Sul onde vivem hoje.
  3. Contribuir com a descolonização exigida pelos povos em todos os lugares do mundo, que significa mudar atitudes, modos de vida, abdicar de privilégios e ajudar na construção de um mundo plural e justo.
  4. Participar concretamente de campanhas de apoio aos Povos Guarani, como a Campanha que a FiAN internacional está realizando enviando cartão ao presidente Lula pedindo a urgente demarcação das terras Kaiowá Guarani .
Pelas ruas , calçadas, corações e mentes, Avá vai semeando a semente da volta do povo Guarani Kaiowá a seus tekohá, terras tradicionais e ali fazer brotar os sonhos e a sabedoria que foram cultivados por milhares de anos pelo seu povo.( Paris, 17 de outubro de 2008)
A volta -  a Campanha Povo Guarani Grarnde Povo nas alturas
Enquanto brigamos com o tempo, aproveitamos para socializar nossas impressões no giro pelo velho mundo. O futuro certamente não passará mais por aqui. Creio que está vindo das Américas. E mais  precisamente das raízes e valores indígenas. É o que nos contou com muito entusiasmo Geza, na Hungria, ex-república da União Soviética. Nos dizia ele que a presença da questão indígena ente eles naqueles dias tinha uma dupla mão. Entender e ver como ser solidário com essa causa e ao mesmo tempo aprender com essas sociedades como voltar a ter uma vida mais simples, solidária e coletiva. Certamente a inspiração na aldeia e seus valores é algo muito real, concreto e possível hoje.
Fomos refletindo sobre os inúmeros contatos, pessoas extremamente gentis, receptivas e solidárias, entidades entusiasmadas com a Campanha, especialmente as equipes de FIAN nos diversos países. Recordamos o acolhimento nas casas dos membros das equipes, as longas caminhas, sobe e desce de metrô, trem, ônibus, trembus (um cruzamento de bondinho e ônibus) e assim por diante. Só não andamos de bicicleta em Amsterdam, onde milhares de bicicletas circulam constantemente e outras tantas estão amarradas nas ruas, com direito até a prédios de estacionamento de bicicleta. Creio que é algo que aponta para o futuro. Ao menos deixa respirar melhor do que em Paris, Pudapest e outros lugares que se assemelham dramaticamente às ruas das nossas grandes cidades. O impressionante é que não vimos nenhum acidente nesses dias e lugares todos e também não atropelamos nenhuma bicicleta em Amsterdam.
  o que não faltou guarani e gauchamente, foi o chimarrão. Não ficamos um dia sem o precioso líquido. A primeira palavra que tínhamos que decorar nas diversas línguas era “água quente”. O único fato curioso foi na Hungria, onde não conseguimos nos prevenir, e quando de manhã fomos entregar a garrafa termina pedindo água quente nas línguas que  conhecíamos o resultado foi uma garra de chá bem doce. Não tivemos dúvidas. Foi o nosso chá-mate.
Já estamos nos reencontrando com a saudade que já foi ao Brasil e voltou. Em breve estaremos pisando firme em chão brasileiro. Pena que seja na poluição de São Paulo. Mas seguiremos. Em Campo grande, antes do dia findar, iremos respirar novamente nosso ar.
Sobre o oceano Atlântico, há 10300 metros de altura, 23, de outubro de 2008
Egon Heck (Cimi) Avá Apykaverá Kaikowá Guaran)i
Mas a esperança está viva como ouvimos nas falas da filha “Meu pai não morreu, está vivo em nossos corações e no nosso sangue de guerreiros”.
Egon Heck  -Povo Guarani Grande Povo, 20 de setembro de 2012