ATL 2017

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terça-feira, 18 de agosto de 2015

AGENDA genocida BRASIL


Quando se pensava que os abomináveis decretos de morte contra os povos indígenas estariam superados e finalmente a justiça abriria suas asas sobre um milhão de nativos originários deste país, é anunciado um novo plano genocida e etnocida. Desta vez a iniciativa vem do presidente do Senado, com o aval complacente do governo.  É a agenda mata índio Brasil.
O que os povos indígenas poderão esperar do casamento do modelo ultra neoliberal, com o sistema desenvolvimentista ora em curso?
Pela primeira vez, desde o “milagre brasileiro” no início da década de 1970, os povos indígenas são explicitamente intimados a uma agenda de entrega de seus territórios e recursos minerais à sanha dos interesses econômicos e políticos no poder. São acusados de serem obstáculos para a superação da crise por que passa o país. É a versão atualizada do Projeto de “Emancipação” do ministro do Interior, General Rangel Reis. É a tentativa de impor o projeto da “aculturação”, que Bernardo Cabral tentou impor aos povos indígenas com seu substitutivo na Constituinte em 1.988. É a proposta de criação das colônias Indígenas, com lotes de terra por família indígena, que o Projeto Calha Norte tentou impor, a partir de 1986. Enfim, é o resumo de todas essas propostas antiindígenas que voltam com essa Agenda proposta por Renan Calheiros, presidente do Senado.
As terras indígenas são consideradas entraves para a recuperação da atual crise por que passa o país.  Como sábia medida redentora propõe-se a revisão dos marcos jurídicos que possibilitem acelerar as obras de infraestrutura. A proposta tem o claro objetivo de transformar essas terras em locais de atividades produtivas, torná-las rentáveis, ou seja, disponibilizá-las à agenda do agronegócio.
“Não se leva em conta, como de costume, os povos tradicionais que ali habitam, suas culturas e hábitos, e muito menos os serviços prestados por estes territórios preservados, como a regulação climática, a produção de chuvas e a manutenção da biodiversidade, entre outros. A proposta também quer incentivar a mineração a partir da implementação de um novo marco jurídico para o setor. Isso vai gerar uma corrida, sem regra conhecida e com potencial dramático de destruição, às riquezas que hoje pertencem à União” (Greenpeace, 11/08/15).
Diante de mais essa ameaça, os povos indígenas mobilizados em Brasília manifestaram sua repulsa a mais esse plano de morte, e reafirmaram sua disposição de retornar aos territórios tradicionais dos quais foram expulsos, e realizarem aos autodemarcações de suas terras.
A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB também condenou veementemente mais essa ameaça de morte: “Nós somos filhos da terra, alimentados pela força espiritual dos nossos ancestrais, e é por ela e por toda a Natureza e todo Ser que soltamos o nosso canto e clamor, e erguemos os nossos maracás, nossos punhos e arcos para lutar em defesa da vida e dos direitos, das nossas atuais e futuras gerações” (Manifesto dos Participantes do II Encontro Nacional de Culturas Indígenas e APIB- São Paulo 15/08/15).

Resistência indígena vence ministro

Na semana passada, a delegação dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, permaneceu por mais de dez horas no auditório do Ministério da Justiça, com a firme determinação de que de lá não sairiam sem ter um encontro com o ministro José Eduardo Cardozo.
Na carta entregue ao ministro da Justiça e a representantes de outros ministérios, os índios foram categóricos: “Assim como os senhores, que representam o Executivo brasileiro estão hoje articulados com os poderes Legislativo e Judiciário, empenhados na defesa do ruralismo, promovendo a paralisação política das demarcações de nossas terras tradicionais e o extermínio de nossos direitos previstos na Constituição de 1988, nós povos indígenas queremos dizer que também estamos articulados para retomar nossos territórios e garantir na prática a vida e a cultura de nossos povos, mesmo que isso signifique nossa morte, morte que o Governo e o Estado brasileiros decretam quando nos condenam a viver na beira das rodovias em condições sub-humanas de vida”.
Recado sem rodeios

“Nós, povos indígenas a muito deixamos de sermos tutelados, e dizemos aos senhores que temos plena capacidade de analisar a conjuntura política e compreender as relações que se estabelecem para diminuir e atacar nossos direitos. Exigimos respeito e repudiamos os discursos demagógicos que os senhores fazem para enrolar nosso povo. Voltamos a insistir senhores. Não queremos discursos. Fomos claros e objetivos, queremos respostas claras e objetivas para nossas exigências” (Documento entregue a ministros e seus representantes).

Egon Heck
Cimi Secretariado Nacional
Brasília, 17 de agosto de 2015.



quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Povos originários: que os ministros nos ouçam

Povos originários: que os ministros nos ouçam

Mais um dia agitado. Brasília é o palco móvel em que se mobilizam setores do governo, da sociedade e dos povos originários. Tudo deve ser minuciosamente avaliado para não transpor águas de um para outro rio. Nesse jogo de xadrez, de interesses e poder é preciso pressa, astúcia, habilidade e sabedoria. E muita espiritualidade, rituais e rezas.





De um lado florescem margaridas e ostentam sua resistência e vida, no seco e árido planalto central. Do outro lado maquinações maquiavélicas induzem a caminhos floridos para além das pedras e espinhos. Para os povos de cinco séculos de opressão só resta a opção de lutar, enfrentar todos os dragões com as armas do futuro, da construção coletiva da sociedade plural, de novos projetos de sociedade.

A educação e escola aguerrida

Neste dia 11 as delegações indígenas do sul do país e do Mato Grosso do Sul tiveram uma agende importante e gratificante no Ministério da Educação.  Sem nenhuma ilusão ou expectativa salvacionista, foram dizer a responsáveis pela Educação Escolar Indígena, suas angústias sonhos e lutas por uma efetiva educação diferenciada, combativa e de qualidade.

Puderam expor detalhadamente o sofrimento, a miséria e a fome que passam inúmeras crianças indígenas, nos acampamentos, nas retomadas, nas áreas de conflito e nos confinamentos. Centenas delas estão fora do sistema escolar por negligência dos poderes responsáveis, nos estados e municípios. Os professores e lideranças Kaiowá Guarani denunciaram os inúmeros casos em que os municípios se negam a construir escolas nas áreas de retomadas e acampamentos indígenas.  Dos representantes da Secadi (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, diversidade e Inclusão) receberam a informação de que não existe nenhum empecilho legal nesse sentido. Pelo contrário, a Constituição e outras normas obrigam os poderes públicos locais a garantir escolas para as crianças indígenas, estejam onde estiverem.

Da delegação de mais de 40 participantes do debate, mais de 30 eram professores indígenas. Mostrando clareza política de seus direitos, que são os direitos de seus povos, denunciaram os inúmeros descumprimentos das leis, da inviabilização, na prática, de escolas verdadeiramente indígenas, relataram inúmeros fatos de violência e omissão do governo especialmente na garantia de seus territórios.

Os representantes do ministério ouviram atentamente os relatos, as denúncias e as cobranças, e reafirmaram o compromisso de se empenhar na solução de várias questões práticas relacionadas à Educação Escolar Indígena, e parabenizaram os professores, especialmente do Mato Grosso do Sul pela sua compreensão e luta política por seus direitos.

Ficou agendada para este mês, a ida de representantes do ministério ao cone Sul do Mato Grosso do Sul, ocasião em que visitarão aldeias e acampamentos indígenas. Posteriormente, o ministro da Educação estará indo à região para contatos diretos com as realidades prementes das populações indígenas locais.

Segundo Censo de 2.014 são 3.160 escolas indígenas, com um total de 239.666 alunos, 18 mil professores indígenas e aproximadamente 13 mil indígenas nas universidades. Sem ilusões quanto às reais possibilidades de autonomia de suas escolas, exigem justiça e punição aos seus colegas Genivaldo e Rolindo Vera assassinados quando retornaram com seu povo à terra tradicional do Ypoi, no município de Paranhos. Os assassinos continuam soltos e o corpo de Rolindo até hoje não foi encontrado.

Indígenas fecham pistas de acesso ao Palácio do Planalto

Indignados com a morosidade e o descaso em cumprir a promessa de serem recebidos por ministros de Estado, a delegação indígena trancou novamente, no início da tarde de ontem, a rodovia em frente ao Palácio do Planalto. Representantes do governo federal haviam se comprometido a agendar reuniões com representantes dos ministérios da Justiça, Desenvolvimento Agrário, da Fazenda, da Casa Civil e Secretaria Geral da Presidência da República, além da Advocacia Geral da União e do Presidente da Funai. Prontamente policiais foram novamente posicionados e a polícia de choque com cães foram colocados de prontidão.

Em nova rodada de negociação ficou acertada uma conversa prévia com representantes dos ministérios e uma agenda conjunta com os ministros acima relacionados, para quinta-feira, dia 13.
No encontro com a participação de toda a delegação indígena e apoiadores, realizada no Ministério da Justiça, se percebeu que praticamente nada mudou nos discursos e posicionamentos desses órgãos públicos.

Egon Heck
Cimi Secretariado Nacional
Brasília, 11 de agosto de 2015.





quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Presidente da Funai na fronteira com o Paraguai

Não é por acaso ou fortuitamente que o novo presidente da Funai, João Pedro, do PT do Amazonas, vem ao Mato Grosso do Sul, logo no início de sua gestão. Com dois meses no cargo teve seu primeiro  embate com uma delegação indígena.  Os Pataxó, em cujo território iniciou a invasão do até então desconhecido continente, Ameríndia. Depois de mais de 500 anos de resistência, não mais acreditam em  promessas ou  falas enganosas   feitas pelos  neocolonizadores e e terminadores dos povos originários.




Mas seus representantes continuam insistindo e jurando que estão bem intencionados, mesmo repetindo as velhas mazelas de tutores com ares de superioridade.

Por que vem correndo até o  Mato Grosso do Sul? Para resolver o gravíssimo problema da demarcação das terras indígenas ou para socorrer a Biafra brasileira como é conhecida a região de pior violência e negação dos direitos indígenas.  Se nos governos Lula e Dilma tivessem demonstrado vontade política em resolver o problema, que sabidamente não é fácil, mas absolutamente factível ,  certamente os povos indígenas da região, especialmente os Kaiowá Guarani e os Terena, não continuariam vendo suas lideranças diariamente ameaçadas e assassinadas.

Mas porque então João Pedro vem à região?  Será porque as Olimpíadas vem aí  e a imagem do país mão pode estar manchada ou conspurcada por ações ao arrepio da lei e dos direitos, violando a Constituição?

Uma coisa é certa. Não é por falta de conhecimento da realidade que se está deixando de agir em favor da vida dos povos indígenas da região e do país. Pilhas de relatórios e documentos devem estar entulhando as gavetas dos  senhores dos três poderes. É obstinação em não cumprir a lei em favor dos historicamente oprimidos e rejeitados povos originários.

A boa vontade ao avesso




Será que existe boa vontade e disposição de resolver essa situação de envergonha a todos nós cidadãos desse país? Que falem  os fatos.  A Terra Indígena Buriti foi durante anos  exaltada e endeusada pelo Ministro da Justiça, como a única forma de resolver o problema através da mesa de negociação. Depois de  dois  anos os fazendeiros deram uma banana ao Ministro e um adeus  à solução por negociação e diálogo. Quando, no governo Lula houve um tímido sussurro de começar a resolver o problema das terras, sinalizando para a indenização e compra de terras, a Famasul se dispôs de fazer o levantamento das terras que estariam à disposição para serem compradas. Um número ínfimo de proprietários se dispuseram  a vender as terras.  E assim poderíamos levantar inúmeros fatos que  sinalizam claramente que o que não se quer é que a Constituição seja cumprida e as terras indígenas demarcadas. Salta à vista que o que prevalece é uma boa vontade às avessas.


CPI do Cimi

Diante do quadro desolador e vergonhoso, da violência genocida, da discriminação e racismo, é preciso achar um bode expiatório.  Repete-se a mágica de quase meio século. Realiza-se uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Forjam-se acusações falaciosas,  mentiras são plantadas como verdades.

“Em outra vertente, a Assembleia Legislativa deve averiguar denúncias contra o CIMI (Conselho Indigenista Missionário) que, além de incitar invasões, tem orquestrado o confronto armado, colocando em risco a vida de índios e não índios.” Afirmações da deputada estadual Mara Caseiro. (Ponta Porã Digital 7/08/15)

João Pedro em Guaivyri e Ypoi

O presidente da Funai   estará visitando nesta tarde duas aldeias onde foram utilizadas as mesmas estratégias de assassinar e ocultar o cadáver como forma de dificultar a elucidação dos crimes. Até hoje o corpo do professor Rolindo Vera, do Ypoi e do cacique Nizio Gomes, do Guayviri, não foram encontrados.

Ao passar pelos acampamentos certamente será impactado pela extrema pobreza e dificuldades em que sobrevivem essas populações. Diante desse quadro estarrecedor, radicalmente diferente da maioria dos povos indígenas da Amazônia que pelo menos tem seus territórios demarcados.

Certamente o presidente da Funai sairá com o coração na mão e apesar das mãos amarradas pela burocracia e os interesses políticos e econômicos certamente, se empenhará em minorar a gravidade da situação.

Aos povos indígenas resta a resistência ativa, no caminho  para seus tekohá, suas terras tradicionais. Para isso contam com a solidariedade nacional e internacional, com a força dos nhanderu e guerreiros.

Egon Heck
Secretariado Nacional do Cimi
Dourados, 8 de agosto de 2015



sexta-feira, 31 de julho de 2015

Caminhada – rumo a Terra Ronca




Quando os caminhantes da “troca de saberes” foram definindo seu roteiro, não tiveram dúvidas. Deixaram se embalar pelas energias da região conhecida por Terra Ronca, em função dos ruídos naquela caverna e também pelo Parque Estadual do mesmo nome. Seria ali que em torno de 60 pessoas iriam se encontrar e traçar os caminhos a serem percorridos. Região de muitas belezas, com mais de 60 cavernas, muitos rios e lindas cachoeiras. Era ali que iriam morar por alguns dias os sonhos caminhantes de gente de  diversas regiões do país, mais especificamente de Goiânia,  Pernambuco e Tocantins.
Após percorrer grandes distâncias, é hora de experimentar o pó da região, acampar à beira da cachoeira de São Bernardo. Delícia para quem vem da secura do sertão, curtição para quem vem das regiões de águas e rios poluídos, sem precisão.
Não foram  feitos grandes percursos a pé. Apenas o suficiente para sentir as energias da região que foi  impactada pela agropecuária, felizmente em recesso.

Alegria e calor do encontro e reencontro

Um dos aspectos importantes, durante o caminho é  sentir-se e sentir o outro. Os abraços demorados e calorosos,  são carregados da alegria e felicidade do reencontro. Também os novos caminhantes são incorporados à roda da vida com muita esperança. Como o grupo era grande e a noite já ia avançada, foi sugerido que apenas se cumprimentasse com abraço, aos novos membros.  Não houve jeito. Todos se tornaram novos e os abraços foram gerais, no pé das montanhas gerais.

Do ventre da mãe terra

Me senti no ventre da mãe terra, ao ser envolto na beleza da caverna de São Bernardo. Foi como adentrar a escuridão da noite em pleno meio dia. Sentir a cada passo a leveza da água escorrendo pelos pés, os olhos ofuscados com a suavidade da luz dos carburetos e lanternas deslumbrando  o encanto, quase em pranto, a cada nova maravilha. Quando brilhavam os estalactites e estalagnites, formando figuras, minha alma subia ao teto dos salões e se incorporava no festival de beleza.

Carona na Caravana da paz e Enca

Após percorrer caminhos  pela natureza, do cerrado restante,  instantes de partilha e reflexão. Fomos juntando nossos parcos conhecimentos com os sentimentos que foram brotando da realidade sentida, num belo festival da vida em pleno  chão esturricado pela seca.  Gratidão. Essa é talvez a melhor expressão dos nossos sentimentos.
Quando  estávamos buscando uma forma de encerrar nossa caminhada com chave de ouro, na caverna Angélica, distante mais de 30 km de Terra Ronca, eis que surge a inconfundível Wipalla, um locomóvel a serviço da Caravana da Paz, que há 30 anos iniciou no México e continua viajando e propiciando momentos de formação pelas Américas, tendo sempre como horizonte a construção de uma cultura da Paz.
Nossa caminhada estava precedendo a realização do 39º Encontro Nacional de Comunidades Alternativas – ENCA.  Esse é um dos momentos  de socialização e intensificação da  alternativas já encontradas, diante do fracasso do modelo capitalista que se pretende impor em todo o planeta. É um modelo necrófilo que só gera sofrimento e destruição.


Fica sempre um pouco de perfume

Quando a caminhada vai terminando já começa a saudade. Aquele gosto gostoso de quem deixou um pouco de si e acolheu em seu coração tantas vidas, alegrias e belezas. Caminhar é preciso. Partilhar solidariamente vida e caminho, também.
Já na despedida, em pleno caminho, recebemos e socializamos, a linda carta enviada por Samara (TO) : “A todos caminhantes sou grata a cada um que esteve comigo me proporcionou carinho, afeto e amizade... e  por me ensinar que cada dia deparamos com diversidades e me mostraram que, quando acreditamos em nós tudo deixa de ser impossível é se torna possível de acontecer dependendo de qual for objetivo. A força está dentro de nós basta deixar fluir pensamentos sinceros que o sucesso da vida é a vitória.
                Para mim foi uma caminhada sensacional, ter conhecido cada uma de vocês... como diz: Charles Chaplin cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha, é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra! Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha e não nos deixa só porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso.
                Em poucas palavras quero demonstrar meu imenso carinho e amor, mesmo que alguns de vocês eu nunca mais encontre na caminhada da vida...quero que saiba que cada um foi importante para mim. Que Deus retribui, pois nunca poderei retribuir tanta gentileza. Grata por tudo! Eu caminhei e caminhei e caminhei ... que todos fazem uma boa caminhada.
Ps; espero estar na próxima caminhada rs ...
Gratidão!  Beijos e Beijinhos com carinho de Samara Kelly)  Palmas 10/07/ 2015 Awire soré ...
Egon, Laila e Silésia
Brasília, 30 de julho de 2015


quinta-feira, 30 de julho de 2015

Tupã abençoe Francisco


Naquela noite memorável, no calor úmido da Amazônia se deu o encontro que marcaria as lutas dos povos indígenas nas próximas décadas. O Papa se encontrou com um grupo de lideranças indígenas de todo o país.  Ouviu atentamente as falas, interrompidas por longos aplausos.  Ao manifestar seu sentimento diante da dura realidade exposta, o fez reconhecendo os povos indígenas como nações. “Assim se respeitará e favorecerá a dignidade e a liberdade de cada um de vocês como pessoa humana e de todos como como um povo e uma nação”. Era 10 de julho, tempo de verão e esperança na Amazônia.

Julho de 1980 – Papa João Paulo II se encontra com os índios em Manaus

“Somos massacrados, explorados e tendo estradas que traçam em nossas terras, que prejudicam o índio por doenças e diversos problemas que não haviam antes entre nós; estamos sendo acabados por projetos, empresas e invasores que roubam nossas vidas, tomando nossa terra e  nos expulsando delas, sendo nós os donos dessa  pequena e única ponto final em nossa cultura e nossos direitos...
Santidade, olhai para esse povo que está desaparecendo, queremos os nossos direitos, somo humanos também” (Carta dos povos indígenas ao Papa).
Marçal Tupã’i Guarani ergueu a cabeça, fixou seu olhar atento na figura toda de branco e fez uma denúncia que correu o mundo, e os mais recônditos lugares do país. “Somos uma nação subjugada pelos governantes, uma nação espoliada, uma nação que está morrendo aos poucos... Nossas terras são invadidas, nossas terras são tomadas... A nossa voz é embargada por aqueles que se dizem dirigentes desse grande país”. Tentaram calar a sua voz. O assassinaram friamente três anos depois. Mas não conseguiram matar seus sonhos, embargar suas lutas. A Terra Indígena Pirakuá está lá, regularizada. A TI Nhanderu Marangatu está com a homologação embargada no Supremo Tribunal Federal. Até quando?

10 de Julho 2015 – Papa Francisco se encontra com os movimentos sociais e índios, na Bolívia

Trinta e cinco anos e um dia depois do histórico encontro em Manaus, novamente um índio Guarani-Kaiowá se encontra com o Papa, para clamar por justiça e direito à vida em paz e dignidade.
Desta vez foi Eliseu Kaiowá o escolhido para estar na mesa com o Papa, entregando-lhe uma carta em nome dos povos indígenas do Brasil.


“Amado Papa Francisco. Nós, povos indígenas do Brasil, sofremos um processo de ataque violento contra nossas comunidades, nossas lideranças e nossos direitos. Nós, Guarani-Kaiowá, vivemos no estado do Mato Grosso do Sul. Enfrentamos as piores condições de vida, sofremos a violência mais profunda e uma situação de maior vulnerabilidade social e cultural no país. Somos cerca de 45 mil pessoas e vivemos no exílio, fora de nossas terras, que se encontram invadidas por fazendeiros, que delas nos expulsaram em passado recente com o apoio do Estado brasileiro” (Carta entregue ao Papa Francisco Por Eliseu Guarani Kaiowá).
“Ele me recebeu com um sorriso, estendeu a mão e me escutou, coisa que a presidente e os governantes brasileiros, mesmo sabendo de nossa situação, nunca fizeram e se negam a fazer. Eu pedi a ele que interceda por nós, que ajude a fazer o Governo Brasileiro cumprir a Constituição e demarcar nossos territórios, que o próprio Poder Executivo paralisou. Disse que por causa disso, em todo Brasil, e em especial no Mato Grosso do Sul, vivemos em guerra, que estamos morrendo, sendo massacrados por pistoleiros armados e pelos políticos do agronegócio, que sobre nós existe um verdadeiro genocídio. Pedi pelo futuro de nossas crianças e velhos, para que possam continuar existindo” (Eliseu Kaiowá). Ameaçado por estar lutando pela terra e direitos de seu povo, vive numa das aldeias, Kurusu Ambá, onde dezenas de indígenas foram assassinados nos últimos anos, após o retorno a parte do território tradicional.

A luta e a esperança Guarani crescem

Os gritos de socorro fazem coro nas selvas de pedra e nas terras devastadas pelo capital. Mais um julho marcado pelo grito, a dor e a resistência:
“Falamos com o Papa, gritamos em Paris, às consciências ainda não adormecidas. Retomamos pequenas partes de nossos tekohá, territórios tradicionais. Redigimos documentos, estivemos com autoridades, fizemos manifestações em Brasília, num supremo esforço para que haja justiça, vingue a paz e a esperança. Realizamos mais uma Grande Assembléia/Aty Guasu, e estamos realizando mais um encontro continental do nosso povo”.
Julho especial.  O clamor corre o mundo. A esperança se lança à frente.  Em Paris, representantes desse povo denunciam. Eles afirmam que estas mortes são perpetradas por milícias privadas contratadas por grandes proprietários de plantações de soja e cana.

“Estamos vivos, mas estão nos matando pouco a pouco e de várias maneiras”, afirmou o cacique Vilharva-Cáceres. “Estamos aqui para pedir socorro e ajuda, não apenas pelas florestas e pela natureza, mas também pela vida”, afirmou em coletiva de imprensa Valdelice Veron. "Nós demarcaremos nosso território com nosso próprio sangue se for preciso” (Le Monde 24/07/2015).
Grande encontro Continental Guarani acontece nesses dias na Argentina. É mais um momento importante em que esse povo tão ameaçado e massacrado nos cinco países em que vivem mais de 350 mil Guarani, trace suas estratégias para garantir seus direitos, especialmente a seus territórios.
Apesar de todo ódio e discriminação que sofrem diariamente, das ameaças constantes, das ordens de despejo, e toda sorte de violência, a esperança, resistência e a luta avançam. E nessa caminhada precisam cada vez de mais solidariedade e apoio.
Que Tupã abençoe o Papa Francisco e todos aqueles que lutam pela vida no planeta terra e em especial pelos Kaiowá Guarani. Pedir perdão é comprometer-se com a transformação.

Egon Heck
Cimi Secretariado Nacional

Brasília, 29 de julho de 2015.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Brasil campeão



Jogos Mundiais dos Povos Indígenas

“A presidenta Dilma Rousseff participou da cerimônia e garantiu presença na abertura, em outubro. Para o ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves, os jogos ajudam a projetar o Brasil no cenário internacional. "Os Jogos Mundiais dos Povos Indígenas são mais um gesto nosso no sentido de se abrir para o mundo, mostrando a nossa capacidade de oferecer oportunidades a todos de crescer, se desenvolver e se alegrar", afirmou Alves. Segundo ele, o evento ressalta características positivas do país. "Mostramos um Brasil democrático, que respeita a própria história e as diferenças", afirmou. É a primeira vez que um evento esportivo-cultural reúne uma diversidade tão grande de etnias.”(Jornal do Turismo 24/06/15)
Depois de muitos revezes, finalmente um  chance de ser campeão. Acrescente violência contra os povos indígenas, com centenas de assassinatos de lideranças, nos últimos anos;  a tentativa de suprimir direitos indígenas da Constituição; as leituras e decisões reducionistas a partir do “marco temporal”; as condicionantes da Raposa Serra do Sol, sendo estendidas para demais processos de regularização de terras indígenas; as inúmeras iniciativas no Congresso (quase um centena de projetos contra os direitos indígenas), visando impedir o reconhecimento dos direitos constitucionais dos povos indígenas; poderíamos continuar perfilando um rosário de ações e omissões do Estado brasileiro, que o habilitam a ser campeão de violências e violações dos direitos indígenas.
Como dantes, em dois tempos/momentos o país assumiu o reconhecimento e regularização de todas as terras indígenas (Estatuto do Índio/1973 e Constituição federal/1988), prazos esses olimpicamente descumpridos, e mais recentemente o próprio presidente Lula se comprometeu realizar todas as demarcações de terras indígenas  e não fez quase nada neste sentido. Chegou a vez da presidente Dilma fazer um gol. Ao que tudo indica, será um gol contra.
Mas ainda é tempo. Restam quase três meses para que uma força tarefa, como jamais vista neste país,  como jamais vista neste país, mobilizando toda a sociedade e o Estado brasileiro para o pagamento da dívida eterna, através da demarcação de todas as terras indígenas, possibilitando uma vida digna com autonomia e respeito aos projetos históricos desses povos. Só assim poderemos dizer que somos “ um Brasil democrático, que respeita a própria história e as diferenças”. Quem viver verá!

Povos Indígenas da Bahia exigem seus direitos

Com a mesma perplexidade da invasão primeira, há 515 anos, os Pataxó, Pataxó Hã-hã-hai, Tupinambá, dentre outros, estão agora no Brasil central, mais precisamente nas praças e palácios dos poderes em Brasília, para identificar os invasores, suas motivações e estratégias, para combate-los com maior eficácia e exigir seus direitos.
Movidos por uma grande força histórica de resistência e espiritualidade, seus rituais estarão inundando os diversos espaços do poder e seus braços de dominação e corrupção. Sua pauta principal é a regularização de seus territórios e uma saúde de qualidade, diante do descalabro em que a Sesai transformou o atendimento a esses povos.

Egydio, com ou sem título, cidadão amazonense

È um dos guerreiros destacados desse país, Egydio ,talvez mais do que qualquer outro cidadão desse Brasil, ´foi e é um aguerrido lutador pela vida, um intrépido e incansável defensor dos povos indígenas,  inflexível e radical defensor da natureza, em especial da Amazônia. Mais do que merecedor de cidadão de uma região, é cidadão do Brasil e do mundo.

Batalhador e um dos articuladores da OPAN e do Cimi, Egydio sempre buscou se inserir na radicalidade dos processos de transformação dentro do Igreja e na sociedade. Foi e é um dos críticos ferrenhos das políticas do Estado brasileiro e sua nefasta política indigenista.  Com a mesma dedicação e radicalidade defende a importância das abelhas para a continuidade da vida no planeta Terra. Com Egydio partilhei, caminhos, sonhos e sofrimentos nestas veias abertas da América latina e em especial no Brasil. A ele nós do Cimi  temos muita gratidão e carinho pelo que já fez e continua fazendo pelos povos indígenas deste Pais e dessa Ameríndia, ainda na paixão. Com especial destaque para os Kiña-Waimiri Atroari, a quem dedicou momentos especiais de sua vida.


O gesto mais forte que me lembra nesse dia, o Egydio guerreiro, é seu gesto emblemático de queimar em praça pública, em Presidente Figueiredo, seu título de eleitor. Foi a expressão máxima que encontrou para externar sua revolta e indignação com o descalabro , malvadezas e acintes escabrosos da política local. Com ou sem título de eleitor e cidadão amazonense em seus 80 anos de vida, tens nosso total reconhecimento, admiração e apoio.
 Certamente essa nossa homenagem se estende com todo carinho a Dorothy, que igualmente deu a sua vida por essa causa.

Egon Heck
Cimi Secretariado nacional
Brasília 7 de julho de 2015






segunda-feira, 22 de junho de 2015

Povos Indígenas no Brasil: gritos da violência


Há mais de duas décadas se repete um ritual que ecoa como um grito ensurdecedor pelo país e mundo afora. É o lançamento do Relatório de Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil, organizado pelo Cimi, com informações recolhidas na imprensa, com as comunidades indígenas, os missionários do Cimi e instituições públicas e privadas, relacionadas com a questão indígena. É um recolher criterioso dos gritos de mais de 300 povos indígenas e em torno de 100 comunidades/grupos de povos isolados, em situação de isolamento voluntário, na Amazônia brasileira. Apesar de não conseguir ser revelador da totalidade do sofrimento, dor e crueldades e violências contra os povos indígenas, é sem dúvida uma denúncia inequívoca de que continuamos sendo um país contra os seus povos originários.
O desejo seria que esse relatório fosse diminuindo a cada ano, com o crescimento da consciência do povo brasileiro com relação ao respeito aos direitos, vida e dignidade desses povos e a ação enérgica do Estado na defesa constitucional dos direitos indígenas e punição dos infratores. Lamentavelmente está ocorrendo o contrário. A cada ano vemos e sentimos que as violências vêm aumentando. De chofre surge, como uma flecha no coração do sistema e do poder, a interrogação fatal: até quando? Ao ultrapassar o umbral dessa vergonha nacional nos sentimos todos, de alguma forma, cúmplices dessa secular e atual violência, etnocídio e genocídio.

Esse relatório deveria ser livro de cabeceira dos responsáveis por essa situação. Que o sangue derramado, as vidas ceifadas, a natureza destruída, as culturas e religiões indígenas vilipendiadas, soassem diuturnamente na cabeça e consciência dos responsáveis por esse sistema e situação iníqua a clamar por justiça e reparação.

O lançamento do Relatório de Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil com os dados de 2014, contou com a presença do Secretário Geral da CNBB, Dom Leonardo Steiner. Ele enfatizou que a violência contra os povos indígenas exige de todos nós uma conversão em nosso modo de nos relacionarmos com esses povos e que atinja nossos corações. O presidente do Cimi, Dom Erwin Kraütler, que vem há anos fazendo pronunciamentos e manifestações contundentes em defesa dos direitos dos povos indígenas, exorta uma vez mais a ações concretas e urgentes que acabem com as violências impetradas contra os povos indígenas em nosso país.

Lúcia Rangel, antropóloga, que nos últimos anos vem coordenando a pesquisa e elaboração dos dados do relatório, lembrou que a publicação é dedicada a um dos esteios das lutas contra as violências que vitimaram os povos indígenas nas últimas décadas. Pe. Antônio Iasi, que faleceu no início deste ano, foi um bravo lutador e um exemplo de compromisso radical com a vida e os direitos dos povos indígenas.  A antropóloga destacou o grande aumento das violências durante o ano de 2014. Lembrou que as violências atingem principalmente os jovens indígenas: “Essa é uma realidade latino-americana”.

Tito Vilhalva, Kaiowá Guarani, do Mato Grosso do Sul, veio com muita disposição para denunciar que continuam matando seu povo de diversas maneiras. Ele é liderança de Guyraroká, terra indígena já reconhecida, mas cujo processo foi recentemente anulado pela Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal. Fato esse, como outros do mesmo teor, considerados extremamente graves e preocupantes. De certa forma essa decisão sinaliza para a total insegurança de qualquer terra indígena no país.

Cleber Buzatto, secretário do Cimi, chamou atenção para a intensa campanha anti indígena registrada nos Três Poderes no ano que passou. A intenção dessas articulações é destruir os projetos de vida dos povos indígenas. A causa principal das violências continua sendo o não reconhecimento, demarcação e respeito às terras e territórios indígenas.

 A voz do Papa pela vida dos povos aborígenes/indígenas e o respeito à criação, à natureza

“A encíclica sobre ecologia é uma declaração de amor à humanidade e aos povos indígenas”, expressou o deputado Edmilson, no final do lançamento do relatório de Violência. E concluiu dizendo que “não existe dignidade da sociedade brasileira se não houver a dignidade dos povos indígenas”.


Dom Erwin também fez referência às citações do Papa Francisco em sua recente encíclica sobre ecologia. Disse estar feliz por terem sido contempladas as questões às quais fez menção pessoalmente no encontro com o Papa: a questão indígena e a Amazônia.
No próximo mês o Papa Francisco irá se encontrar com os movimentos sociais da América Latina, na Bolívia. Quem sabe os relatórios e relatos de violências contra os povos indígenas e seus projetos de vida possam aos poucos diminuir e emergir um novo cenário em nosso continente marcado por tantas contradições e violações de direitos.

Egon Heck,   fotos: Laila
Cimi Secretariado Nacional
Brasília, 21 de junho de 2015.