Jonia, da FIAN Brasil, escreveu uma linda mensagem lembrando o quanto, pacientemente, Ava Apykavera ensinou a nós sobre o modo de vida , luta e resistência do povo Guarani “Aprendi a ter paciência e respeitar as diferenças, a ter perseverança e saber que não importa as derrotas que temos e sim o que podemos construir com o cenário que temos... Ao final do dia estávamos exaustos e Amilton jamais se queixou, se manteve firme e sereno. Sempre que indagado sobre o perigo da situação guarani, ele respondia não temer: “vale a pena lutar pela terra sem males para o bem viver guarani”.

Recolhi, para homenagear esse guerreiro Avá, alguns trechos dos escritos e registros das falas que ele foi semeando, com indignação e espeerança, por vários países do velho mundo.

Retomando os sonhos Guarani
Avá Apykuverá está muito animado. Em suas falas tem ressaltado a importância de retomarem os sonhos Guarani, que são de não apenas retornar a seus tekoha, mas de verem nelas novamente crescer os alimentos e as florestas. Os animais das florestas sumiram. Quem sabe daqui uns tempos eles possam retornar a essas terras. Só assim também os espíritos, os rituais, a saúde de seu povo poderão novamente estar presentes nas comunidades. Avá está feliz. Está completando 52 anos, aqui em Grenoble. Parabéns ! (Grenoble,França, 9 de outubro 2008)
Destruiram nosso supermercado
Uma das questçoes que Avá tem ressaltado em suas falas é a grande tristeza por terem destruído tanto a terra, a mata, os animais, os peixes, enfim, tudo que era parte essencial de sua alimentação natural. “Destruiram nosso supermercado que eram as florestas. Hoje vivemos de alimentos com produtos químicos, pobres, que vem na sexta básica, na maioria das vezes. Quase não comemos mais carne. A comida de uma sexta básica mal dá para alguns dias. É um tipo de um lanche.” Dessa forma desabafa sobre a triste realidade de carência e dependencia em que se transformou a maior parte dos mais de 40 mil Kaiowá Guarani do Maato Grosso do Sul. “Nosso supermercado foi destruído pelo governo. Nosso supermercado foi trocado pela Colonia Agricola. Nosso supermercado foi trocado pela erva mate, depois pelo gado e soja. E agora está sendo trocado pela cana e etanol”.
Em Budapest - Hungria
Avá Apykaverá Kaiowá Guarani faz uma rápida explanação sobre a situação grave por que passa sua comunidade e povo por causa do confinamento e falta de reconhecimento das terras. Lembra que essa história de violência na verdade já dura mais de 500 anos.. “Hoje estão nos matando lentamente com as leis e as demoras em reconhecer nossos direitos, como as nossas terras”, explica.
Após mais alguns dados para compreensão da realidade Kaiowá Guarani e da conjuntura atual em conseqüência do modelo de produção e da expansão rápida do setor sucroalcoleiro na região, foi aberto espaço para as perguntas dos jornalistas. Havia grande interesse em conhecer a realidade trazida até a Hungria pela Campanha Guarani, através da FIAN e do CIMI. Foi um longo tempo de perguntas visando um melhor entendimento especialmente da situação fundiária, terras Guarani e o sistema de produção do etanol. Foram quase duas horas de esforço intenso para o entendimento de uma das realidades mais graves por que passa um povo indígena no Brasil. Houve insistência na co-responsabilidade mundial diante da grande crise por que passa o planeta e da necessária solidariedade em nível global diante da violação de direitos fundamentais dos povos e das pessoas ( Budapest, 22 de outubro de 2008)
O que fazer
- Pedir o cumprimento da Constituição que garante a terra e vivência conforme a organização social, tradição e cultura dos povos indígenas. Igualmente esses direitos estão garantidos na legislação internacional como a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho e a Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas aprovada no ano passado pela Organização das Nações Unidas.
- Articulação das instituições e pessoas sensíveis à causa do Povo Guarani construindo uma rede que possa conhecer sempre mais a vida, os valores e os desafios que encontra esse povo nos cinco países da América do Sul onde vivem hoje.
- Contribuir com a descolonização exigida pelos povos em todos os lugares do mundo, que significa mudar atitudes, modos de vida, abdicar de privilégios e ajudar na construção de um mundo plural e justo.
- Participar concretamente de campanhas de apoio aos Povos Guarani, como a Campanha que a FiAN internacional está realizando enviando cartão ao presidente Lula pedindo a urgente demarcação das terras Kaiowá Guarani .

A volta - a Campanha Povo Guarani Grarnde Povo nas alturas

Fomos refletindo sobre os inúmeros contatos, pessoas extremamente gentis, receptivas e solidárias, entidades entusiasmadas com a Campanha, especialmente as equipes de FIAN nos diversos países. Recordamos o acolhimento nas casas dos membros das equipes, as longas caminhas, sobe e desce de metrô, trem, ônibus, trembus (um cruzamento de bondinho e ônibus) e assim por diante. Só não andamos de bicicleta em Amsterdam, onde milhares de bicicletas circulam constantemente e outras tantas estão amarradas nas ruas, com direito até a prédios de estacionamento de bicicleta. Creio que é algo que aponta para o futuro. Ao menos deixa respirar melhor do que em Paris, Pudapest e outros lugares que se assemelham dramaticamente às ruas das nossas grandes cidades. O impressionante é que não vimos nenhum acidente nesses dias e lugares todos e também não atropelamos nenhuma bicicleta em Amsterdam.

Sobre o oceano Atlântico, há 10300 metros de altura, 23, de outubro de 2008
Egon Heck (Cimi) Avá Apykaverá Kaikowá Guaran)i
Mas a esperança está viva como ouvimos nas falas da filha “Meu pai não morreu, está vivo em nossos corações e no nosso sangue de guerreiros”.
Egon Heck -Povo Guarani Grande Povo, 20 de setembro de 2012