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terça-feira, 25 de dezembro de 2012
sábado, 15 de dezembro de 2012
Avante Xavante de Marãwatsédé
Argumentos falazes
Há poucos dias vi estampado na mídia manchetes raivosas e mentirosas dizendo que mais de 7 mil pessoas seriam jogadas na miséria com a sua retirada da terra indígena Xavante de Marãwatsédé.
“Aproximadamente 700 índios xavantes poderão ser donos de um latifúndio já ocupado e beneficiado por cerca de 7.000 pessoas...Até o dia 6 de dezembro, aproximadamente 7.000 pessoas terão que desocupar a gleba Suiá-Missú, localizada entre os municípios de Alto da Boa vista, Bom Jesus do Araguaia e São Félix do Araguaia “Rui Prado – Justiça Injusta)
Os números são mentirosos. Conforme levantamento do IBGE. são apenas um pouco mais de 2 mil pessoas que vivem nessa área.
Ao afirmar que índios e não “índios viviam em harmonia” e que os “ índios são entraves econômicos”, a mídia repete os mesmos jargões mentirosos como nos tempos da ditadura militar, quando os índios Kaingang e Guarani do sul do país, começaram a expulsar os milhares de invasores de seus territórios. Certamente havia harmonia entre os grandes invasores e aqueles que estavam sendo iludidos com a promessa de legalização das terras que estavam sendo invadidas. E quem sabe existia a harmonia de cemitérios, entre os índios assassinados e os deportados para centenas de quilômetros de seu território originário. Lembro-me bem que o discurso dos invasores na década de 70 era de que se tirassem os “brancos” das terras indígenas, estes morreriam de fome e abandonariam suas terras para acompanhar os que estavam sendo retirados. Mais de 30 anos depois, vemos os povos indígenas do sul em suas terras em grande parte recuperadas, construindo, com dificuldade, com dignidade seus projetos de autonomia bem viver.
A volta da vida
“Os animais não podem sofrer mais com tanta destruição da natureza. Quando a terra for devolvida para nosso povo, a floresta vai viver novamente. Vão voltar animais e plantas. Nossa mãe vai ficar muito forte e bonita como sempre foi. É assim que vai ser.” (Cacique Damião Paridzane – dezembro de 2012)
As palavras carregadas de sabedoria e profecia, são a certeza de que algo de novo e melhor acontecerá para todos, Xavantes e a natureza. Porém as ameaças e os riscos continuam a rondar as terras indígenas e seus projetos de vida e autonomia. Será preciso solidariamente lutar por transformações profundas em nosso modelo de sociedade para dar concretude aos sonhos do cacique Damião
D. Pedro, a amigo dos Xavantes ,dos posseiros e pobres

Representantes dos Xavante e Borora, foram levar seu apoio às comunidades Kaingang e Guarani do sul do país, em 1976. Hoje esses povos prestam seu apoio e solidariedade aos Xavante de Marãwatsédé, na luta pela retirada de todos os invasores de seu território.
Egon Heck
Povo Guarani Grande Povo
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Kaiowá
Guarani – não agüentamos mais
“Diga ao povo que avance. Avançaremos nas retomadas”. Com
essa determinação os Kaiowá Guarani no
Congresso Nacional em Brasília, deixaram claro sua decisão de não mais ficar
eternamente por decisões e ações que nunca vem.

A Campanha "Eu apoio a Causa
Indígena
A Associação de Juízes pela Democracia, juntamente com o
Cimi, efetuaram, no decorrer deste ano, uma importante campanha de cartas de
apoio aos povos indígenas, conseguindo mais de 20.000 assinaturas. Dentre as
adesões figuram ilustres nomes da luta
dos direitos humanos no país e no mundo.
Uma delegação fez a entrega no gabinete do presidente do STF,
Joaquim Barbosa. Foi manifestado o interesse de dar urgência ao julgamento das
ações que envolvem os direitos dos povos indígenas.
Os três poderes se esmeraram em suas ações sutis ou virulentas
contra os povos indígenas neste ano de 2012. A bancada ruralista e seus aliados
das empreiteiras e mineradoras, depois da vitória no Código Florestal,
investiram todas as suas forças em impedir a demarcação das terras indígenas -
PEC 218 e 038, além de abrir as terras indígenas para a saque dos recursos
naturais, principalmente madeira e minérios - PL 1610.
O Judiciário, especialmente nas instância locais, tem se
mostrado zeloso em julgar com rapidez as
reintegrações de posse contra os índios, e extremamente lento e com decisões
contrárias aos direitos constitucionais dos povos indígenas. Uma das raras
exceções foi a decisão do Supremo Tribunal Federal, reconhecendo o território
dos Pataxõ-Hã-Hã-Hã. Diz se que a justiça tem uma velocidade de onça para os
ricos e de jaboti para os índios e pobres.
"Sem a energia da natureza em
nossa alma"
Oriel Benites, membro do Conselho Continental Guarani, em
pequeno manuscrito, assim expressou seu sentimento com relação à luta que vem
enfrentando, para reconquistarem seus territórios e condições de viverem o seu
teko - jeito de viver Guarani:
“Nós estamos vivendo
sem a energia da natureza na nossa alma, no nosso espírito, até no nosso mundo fisicamente
percebemos isso. Precisamos desse espaço, nossa terra sem males, onde está
derramado um pouco do nosso sangue, osso
e carne, que corrompe sempre naquela
terra que uma boa parte ainda está viva, onde queremos sentir essa força da
natureza no nosso sangue, na nossa vida. Essa necessidade que nos motivou para
lutar porque nossa força em conjunto é imbatível.
A terra onde estão plantadas soja, cana, criação de animais
ou empresas de agrotóxicos, entre outras no Mato Grosso do Sul, essa terra está repleta de sangue indígena. O dinheiro
que os grandes empresários, fazendeiros, garimpeiros, proprietários das
cerrarias e muitos outros proprietários
aqui no Brasil estão manchados de sangue Kaiowá Guarani.
Nós queremos viver de maneira que a nosso cultura, costume e
rituais permite – ar fresco, água da mina, frutas naturais. Essa é nossa santa
ceia que não temos mais por causa da superlotação nas áreas demarcadas pelo SPI
(confinamentos) e a demora da demarcação
da terra Kaiowá Guarani”
A partir do dia 10 deste mês mais uma comissão estará
visitando a situação de genocídio a que estão submetidos os Kaiowá Guarani,
especialmente nas áreas de conflito, retomadas, acampamentos à beira das
estradas e confinamentos. Está prevista uma dezena de deputados e senadores que
estão ouvindo também os não indígenas, fazendeiros, membros do agronegócio e
representantes do Estado.
Egon Heck
Povo Guarani Grande Povo, 8 de dezembro de 2012
O dia internacional do Direito à Verdade
O dia internacional do Direito à Verdade
Numa
audiência pública despretensiosa, presidida pela aguerrida deputada Luiza
Erundina, o Brasil preencheu as condições para levar à aprovação do Congresso a
instituição do "dia internacional do direito à Verdade". O Dia 24 de
março, em homenagem Dom Romero das Américas, foi instituído pela ONU, em 2010,
como a data comemorativa ao Direito à
Verdade em todo o mundo.
Os
participantes da audiência pública, insistiram na importância simbólica dessa
data, pois será um momento a mais para que o país busque fazer justiça,
recuperando a memória perigosa das vítimas da secular resistência no país e no
continente.
Em nome do
Cimi expus algumas reflexões que passo a socializar.
Desconstruir a memória colonialista.
Desconstruir
a memória do invasor, do colonizador, do capital nacional e internacional,
ontem e hoje, significa não apenas reconhecer a pluralidade de povos ,
culturas, crenças, organizações sociais e direitos consuetudinários em nosso
país, mas requer a imediata devolução de seus territórios, e as condições para
viverem em paz e com dignidade. Isso requer rever o panteão dos heróis, dentre
os quais estão vários matadores de índios, ter a coragem de fazer fogueiras com livros que
continuam veiculando mentiras sobre os povos indígenas em nossas salas de aula,
veicular a verdade com relação à realidade, lutas e valores dos povos
indígenas. Dizia ontem, nesta casa a indígena Pierangela Wapixana, de Roraima,
"é difícil os não índios nos entenderem, enxergarem além das aparências, a nossa relação com a mãe terra e
a natureza,nosso espírito, nossa alma, nossos sentimentos".
Extirpar a
impunidade, violência e injustiça
Infelizmente
continuamos sob o manto da arbitrariedade que estimula a violência, promove a impunidade e sacraliza a injustiça.
Precisamos urgentemente descolonizar não apenas a memória, mas como diz Fernando
Ortiz, em recente entrevista "A descolonização deve ser não apenas
política ( do poder) e econômica, se não também mental, cultura e
ideológica".
Portanto
temos uma árdua e imprescindível tarefa de mudanças profundas, sistêmicas e
mentais, para o qual a criação da comissão indígena da verdade e o dia
internacional da verdade poderão contribuir.
Comissão
Indígena da Verdade
Nas duas
décadas da ditadura militar (1964 a 1985) não imaginávamos que um dia fosse
criado uma Comissão da Memória, Verdade e Justiça. Menos ainda que se buscasse
um dia restaurar a verdade com relação às mortes e violências sofridas pelos
povos indígenas em decorrência da ação do Estado brasileiro. Parece que finalmente estamos saindo de um
pesadelo e massacre secular dos povos indígenas no Brasil. São passos tímidos e
difíceis não apenas para criar a Comissão, mas principalmente fazê-la
efetivamente funcionar e ir a fundo nos meandros obscuros da tortura, mortes e
violências. Porém os passos iniciais são promissores e vai agora depender de
empenho e eficiência de todos nós brasileiros e aliados dos povos indígenas e
em especial desses povos. Nos dizia com contido entusiasmo, o guerreiro
indigenista, Egydio Schwade “Estamos num momento importante da história
brasileira. Finalmente a questão indígena está sendo incluída num programa que
poderá trazer à luz fatos tenebrosos,
massacres, genocídio de povos e comunidades indígenas.” E pois a mão na massa. Produziu um texto com
mais de 200 documentos indicando a morte de mais de 2.000 índios Waimiri
Atroari, com armas pesadas e até bombardeios, nas décadas de sessenta e
setenta, por ocasião da construção da estrada BR 174. Certamente muitos outros
fatos virão à tona.
Um novo horizonte – O Bem Viver e a
Terra Sem Males
Apesar do
mar de sofrimento, violência, injustiça e opressão em que está mergulhado o
Continente e nosso país, a institucionalização do dia internacional de Direito
à Verdade, soa como um leve ruflar das asas de um beija flor em meio a um
temporal.
Porém passos
importantes estão sendo dados em países como Bolívia e Equador, que tem o Bem
Viver inscritos em suas constituições e estão caminhando para o reconhecimento
dos Direitos da Mãe Terra – Pachamama,
os Kaiowá
Guarani estão construindo importantes estratégias comuns nos quatro países
(Brasil, Paraguai, Argentina e Bolívia, para mutuamente se apoiarem na luta por
seus direitos, especialmente os territórios. O Conselho Continental da Nação
Guarani é uma experiência esperançosa no contexto de luta e reconhecimento de
direitos, para além das fronteiras dos
países.
Na busca da
Terra Sem Males somos todos caminhantes guiados e precedidos por nossos irmãos
Kaiowá Guarani. Que o dia 24 de março se torne não apenas mais um dia
comemorativo, mas que seja o dia de mudanças em nossas mentes, corações e
estruturas na perspectiva da convivência respeitosa e digna de todos os povos.
Egon Heck -
Cimi , 6 de dezembro de 2012
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