Ao me debruçar sobre a
memória dos acontecimentos de 2013 imediatamente emergem duas imagens fortes, a
súbita ocupação do plenário da Câmara dos Deputados, pelos povos indígenas de todo
o país, em abril, e na sequencia a massiva ocupação das ruas por milhares e
milhões de brasileiros de todas as idades e origens, neste imenso Brasil. Poderíamos nos perguntar, o que tem a ver
algumas centenas de nativos ocuparem física e simbolicamente o inviolável e
sagrado ambiente do poder legislativo? A
debandada de deputados é a melhor imagem do secular preconceito e etnocídio praticado
pelas classes dominantes encasteladas nos três poderes e dos imperadores de
aquém e além mar.
Não
demorou e o grito de insatisfação eclodiu nas ruas. Um rotundo não a tudo que aí está em termos
de modelo político, econômico e social. Do sistema de exclusão e marginalização ao capenga modelo
de democracia representativa. Questionou-se tudo. A insatisfação e indignação transbordaram
para as ruas em forma de tsunami. As ruas foram o desaguadouro. Sem um projeto pronto de sociedade, mas a
necessidade de varrer a corrupção e construir algo de novo, a partir de uma
nova consciência. Imperativo urgente de transformações profundas da insurgência
das aldeias e das ruas veio o recado
- um país sem mensalão ou mensalinho,
sem racismo, exclusão ou preconceito. Um
Brasil plural, outro caminho.
Mobilizando
a resistência e a insurgência

Jesus Guarani em Yvy Katu
Renascimento da luta
pelo território tradicional, esperança e um sonho renovado da paz distante, na
guerra presente. Nas crianças o sorriso, apesar de tudo. Nos guerreiros e
sábios a certeza da vitória na incerteza das batalhas que terão pela frente.
Nas diversas manifestações públicas às autoridades e à sociedade, não deixam
lugar para dúvidas: mais dia, menos dia a vitória da terra virá. Não virá no
sorriso forçado de algum papai Noel, mas no vermelho do sangue já derramado e
que não foi e será em vão.
Irão , se necessário for, até as últimas consequências – a
morte coletiva.
Nos barracos e acampamentos tem lugar para Jesus de Nazaré ,
de Yvy Katu, Guarani Nhandeva, mensageiro de esperança e força transformadora.
Aos que
partiram para ficar entre nós

Quero deixar minha admiração e gratidão ao exemplo
insofismável dos guerreiros Kaiowá Guarani e Terena do Mato Grosso do Sul que
tombaram sob as balas assassinas dos pistoleiros, fazendeiros e daqueles que os
deviam defender, a polícia.
Além dessas figuras maravilhosas que sempre nos inspirarão,
quero registrar a figura de um sábio guerreiro, que ajudou forjar minha
resistência e rebeldia, através de uma sólida consciência social e
insubmissão. Refiro-me ao Pe. Adair
Mario Tedesco, que nos idos dos anos cinquenta e sessenta acompanhou meus
passos, partilhou sabedoria e saberes, alegrou meus dias com canções as mais
diversas e jogou no meio de campo no
time de futebol do seminário.
Grande Tedesco, guerreiro da sabedoria e testemunho na fé,
partiste há poucos dias. Estava distante e não pude estar em sua despedida, mas
o faço agora com toda admiração que mereces, na certeza de que novamente
estamos mais próximos, na causa, no campo na luta
Que o ano de 2014, não seja apenas de belas jogadas no campo e nas urnas, mas que
faça brotar em cada um de nós um melhor lutador nas arenas da justiça e
liberdade. Vamos estar juntos nas ruas, nos campos, nas urnas.Vamos fazer
avançar a esperança e a transformação e construção de um novo projeto para o
Brasil. Não poderia deixar de encerrar mais um ano sem minha gratidão a todos os guerreiros indígenas e do
Cimi
Egon Heck e Laila Menezes
Povo Guarani Grande Povo
Cimi, Brasilia, 25 de dezembro de 2013