A seca, o sertão e
a cerca
Tive a feliz oportunidade de conhecer um pouco do sertão
nordestino nesta seca e as primeiras chuvas. Pude sentir e partilhar o milagre
da vida, com a caatinga verdejando, os barreiros e açudes sangrando, e ver a alegria voltando a galope no sertão. A reza
e a fé do sertanejo são inquebrantáveis.
"Nois até que se vira, acha uma comidinha aqui, uma
aguinha acolá, mas quem mais sofre com a seca é os animal. Coitado dos bichinho
não tem muitas vezes pra onde se socorrer. Acaba morrendo..." Essa
expressão de dor e compreensão da vida nos revela um pouco o sentimento do
sertanejo calejado pela seca e que ama os seres que o rodeiam como ama o seu
próximo.
Lago
dos Amaro, no caminho entre Exu e a serra do Araripe
Vi muita cerca renovada,
vi muitos casarões abandonados, senti a esperança brotando por entre as fendas
do solo ressequido e vi sertanejos, como seu Tuntum, retorcidos pelo tempo e
sofrimento, cheios de sabedoria e não desesperançados. Nem urubu dá conta. Doía
o coração ver os barreiros e açudes secos, os rios, como o Brigida, sem água,
apenas um leito de pedras indicando que ali era um rio.
O bode, o jumento e o
boi
A
imagem que mais choca é ver centenas de cabeças de gado apodrecendo na beira da
estrada. De Exu a Ouricori, o cenário era desolador.
Não
sendo um especialista na questão, partilho uma reflexão que o companheiro Gogo
fez, comentando a seca e o sertão. " De fato, o gado bovino tem sofrido e morrido
em quantidade nessa seca. Mas, essa é uma questão superada para o movimento
social que defende a convivência com o semiárido, isto é, essa região nunca foi
local adequado para se criar bois e vacas. Há uma comparação feita pelos
educadores populares nos cursos de formação com uma estatística bem simples: um
boi come por sete bodes, bebe por sete bodes, ocupa o espaço de sete bodes.
Quando morre um boi, morre o equivalente a sete bodes.
De fato, quando se encontrar um bode morto de fome
ou sede no sertão, é porque ali já não sobrou uma alma viva. Nessa seca os bois
estão morrendo, os bodes estão gordos. O animal é adaptado, suporta as secas,
mesmo que sua criação seja contestada por muitos técnicos como sendo um animal
daninho e ameaçador da biodiversidade. Mas isso - dizem os técnicos do
movimento social - é um problema de manejo, não de adaptação." 22/01/2013
| Roberto Malvezzi (Gogó)
Bem
ilustra esse quadro um caso que seu Welington nos contou, a propósito da seca e
desanimo de vários sertanejos dessa região da caatinga, do sertão pernambucano,
do semiárido. "Meu amigo José de Pedro, já velho, aposentado, trabalhou a
vida toda pra reuni um gadinho. Trabalhou 40 anos de sol a sol.Conseguiu mil
cabeças de gado. Veio a seca braba desse ano e o resultado foi que seiscentas
morreram. Sobrou apenas um gadinho magro e dívida no banco." Esse é um dos muitos fatos semelhantes que
ilustram a forte migração para as cidades, e a difícil sobrevivência da
economia baseada no gado.
Outro
exemplo que fomos ver é a Fazenda
Uruguai (foto). Outrora foi uma próspera propriedade onde se produzia, além de
gado, cana , cachaça e muitos alimentos. Hoje a falda casa das setenta janelas,
é alvo de assombrações e abandono.
O maior abandonado
encontrado com frequência nas beiras das estradas é o lendário jumento.
Depois de sua secular contribuição , na escravidão e na liberdade, ele agora está jogado à sua sina na beira das
estradas. Decididamente o "cavalo de ferro", a moto, e outros arautos
metais do progresso, estão levando os jumentos a figuras lendárias de um tempo
que já foi. Andando por estradas do nordeste, quando se ve um veículo dando
sinal de luz pode esperar jumentos logo adiante. E cuidado, pois quando
decidem atravessar o asfalto o fazem ser temor, de cabeça baixa. O jumento tão
decantado pelos poetas nordestinos e na voz de Luiz Gonzaga, agora parece
caminhar celeremente para a fila da aposentadoria compulsória.
pluviômetro
- chuva e conversa sob medida
chamou atenção foi um pequeno aparelho que em outras
partes do país nem se houve falar - é o medidor da chuva, o pluviômetro.
Cuidadosamente instalado da maioria dos terrenos e casas, ele é o puxador do
assunto mais importante no sertão, pois mede e presenteia o sertanejo com o que
há de mais sagrado: a água.
-Compadre, aqui choveu só dois milímetros, e aí no pé da
serra?
-Aqui foram três, mas
a gente espera mais, pelo jeito das nuvens. Mas lá Deus sabe o que fais. O
feijão continua esturricado e o milho vai ter que esperá!
Olhando
pras planta tudo triste, de boca aberta, aguardando ansiosamente uns pingos
dágua, seu Gelsi, sertanejo calejado pela seca, aposentado, desfila sabedoria,
ao falar do sertão e dos tempos atuais. "Sabe que o responsável por essa
perda do feijão somos nois que antigamente sabia quando a chuva vinha e hoje
acredita da televisão. O resultado tá aí. Falou que chovia, a gente plantou e a
chuva não veio".
A
guerra do Exu, Gonzagão e revolução.
Terra de Barbara de Alencar, avó do famoso escritor, José
de Alencar. Ela liderou uma revolta republicana em 1817, sendo hoje considerada
heroína nacional.
Exu exaltada, cantada em verso e prosa por Luiz Conzaga, Gonzaguinha e
inúmeros poetas, cordelistas e artistas
da terra.
Na região da Serra do Araripe, logo na divisa com o
Ceará, foi criada a primeira área de conservação do país, nos conta Antonio Alencar, grande
conhecedor, da região, raizeiro muito conhecido e procurado na região e no
país.
"Água para
todos", um programa do governo federal, distribuindo cisternas no seco sertão. Ouvi inúmeros comentários sobre o
absurdo de se trazer cisternas inadequadas, a alto custo, ao invés de continuar
as experiências de cisternas exitosas em
curso no semiárido.
Apesar dos medos e ressentimentos persistirem, existe uma
voz corrente de que "a guerra do exu acabou". Começa a predominar uma
nova mentalidade na convivência, que tenta
enterrar na seca do sertão, os fatos de violência e vingança que se
davam entre famílias dominantes na região.
A sinfonia
dos sapos em intermináveis amplexos
Só alegria. Os
amplexos dos sapos em ritual de acasalamento, se dava em meio à felicidade que
povoa cada coração sertanejo. Nunca vi tanto sapo reunido numa pequena porção d'água.
Era sapo de tudo que é tamanho, desde os gigantes sapo cururu, até uns sapinhos
minúsculos. De um dia para outro a água estava qualhada de ovinhos. E num
repente já estavam aí os girinos.Pareciam que tinham pressa. Talvez também os
afetasse o fantasma de nova seca. Passamos noites a meditar sob o olhar atento
da lua e a sinfonia do coachar dos sapos.
Curiosidades
e lições
A diferença de 1 (um voto) nas últimas eleições para
prefeito. Vitória dos "boca negra", derrota dos "boca
branca". Denominação corrente na cidade de Exu, que vem da década de 60,
com a divisão entre os dois partidos UDN e PSD.
Apesar de hoje não ter uma base em partidos políticos ou
mesmo base de famílias, a denominação continua muito presente nas rodas de
conversa.
A cidade de Exu e região ainda respirava Gonzagão
Depois da rodar por mais de cinco mil quilômetros de
estrada do centro (Brasília) ao nordeste do país, em seis estados, impressiona o grande fluxo de veículos) a
sensação de que de fato estamos construindo o caos. Até quando continuaremos
enchendo ainda mais as estradas de veículos de todo tipo, colocando o Brasil
sobre rodas, no círculo vicioso de que não poderemos correr o risco de
desacelerar a indústria automobilística, o Brasil sobre rodas?
Mas a impressão mais forte é com relação à água. Da cultura
do desperdício na maior parte do país, á secura do sertão, onde a água pode
salvar ou matar vidas. Cada gota vale ouro. A cisterna é um espaço sagrado a
ser olhado e cuidado como preciosidade. O semiárido nordestino de hoje talvez
seja o planeta terra de amanhã, caso não forem tomadas providencias urgentes,
desde os hábitos pessoais, até as políticas públicas nacionais com relação à
água.
.Egon e
Laila
Brasília,
fevereiro de 2013