Vem correndo um moleque feliz. Descontraído, sente-se livre. Enquanto os demais estão amarrados a uma TV ou estádio, ele, com outros seus iguais, conquistou um pedaço da rua deserta. Estrada que vira campo de futebol não é novidade. Causa espanto quando isso acontece em pleno dia da semana, em rua movimentada. Só sucede num país eletrizado pela Copa do Mundo. A criançada da periferia agradece.
Do outro lado da
rua, a cachorrada anda em fila indiana, atrás
do prazer, sem saber como esconder o profundo mal estar que lhe proporcionava
aquele barulho infernal, dos rojões.
Chegaram a expressar a intenção de se esconder em algum local a prova de barulho. Mas aonde se
esconder, se os estouros eram tantos que não lhes deixavam nenhuma alternativa. O jeito era suportar a dor nos tímpanos
buscando se divertir ou protestar, com umas orquestradas latidas e uivadas.
Enquanto isso, em
várias regiões do país, silenciosamente, cidadãos desse país, se preparam para
mais uma jornada da “Caminhada Troca de Saberes”. Atividade de interação, troca
de saberes e solidariedade. Momentos ímpares de encontro consigo mesmo, com as
populações, com a natureza. Cada passo é uma partilha. Cada abraço é a
valorização e respeito ao diferente. O caminho vai sendo feito em harmonia com
a mãe terra e a natureza acolhedora, com sua beleza e a sabedoria profunda de
seus habitantes primeiros. Salve os Javaé, Karaajá e Avá Canoeiro,
sobreviventes. Salve a Ilha do Bananal em sua rica sócio e biodiversidade, que
será o berço de nossos sonhos e ações nas próximas semanas.
Ilha do Bananal – Malvado Tory (branco) – turismo,
prostituição e cachaça

O velho cacique Arutana
desabafa “ todas as doenças foram trazidas por ‘tory’. O que estragou a gente
foi doença e bebida” Em depoimento registrado pela jornalista Memélia Moreira publicada em FSP, 25/04/1977 com as manchetes
“Carajás um povo ameaçado de extinção” e “Turismo pode acabar com índios que moram
na Ilha do Bananal”. Era o momento em que se estava começando a implantação um
grande projeto de turismo que tinha como ícone e famoso Hotel John Kennedy. O
Hotel na ilha, com suíte presidencial fora construído por Juscelino Kubistchek,
num dos mais belos lugares do país. Serviria para refúgio e turismo dos altos
escalões dos governos. Acabou na decadência total e só voltou ao cenário
econômico quando a Superintendência de
Desenvolvimento do Centro Oeste-Sudeco, entregou à Goiastur o lendário hotel,
nas margens do Rio Araguaia. Era dia do índio de 1977. Mais um golpe para a
população indígena da ilha.
Transaraguaia –“estrada assassina”
Assim D. Pedro Casaldáliga
classificou esse empreendimento do governo militar (Folha de São Paulo
19-10-1983). Em seu depoimento na Comissão do Índio da Câmara, disse que a
estrada é “absolutamente inviável, pois atinge áreas que são leito do rio
Araguaia e sua construção exigirá a realização de obras de aterro num percurso
igual a 80 km.”...e prosseguiu “se o
governo quisesse de fato beneficiar a população da região bastaria que com
apenas 20 por cento dos recursos previstos para a construção da Transaraguaia,
realizasse obras de correção e pavimentação da estrada do Calcário, que serve hoje à população do
Araguaia”
A pressão para
abrir estradas na ilha continuam. No ano
passado foi relizado um rally
atravessando a ilha do Bananal para
entregar um documento ao governador pedindo a construção de uma estrada
asfaltada cortando a ilha do Bananal.
Nos próximos 20
dias estaremos caminhando nesse chão de forma respeitosa e solidários na defesa
da natureza e dos povos indígenas.
Caminhantes, pé na
estrada, com muita dignidade, pois o chão que vamos pisar é sagrado, é a mãe
terra dos povos Javaé, Krajá e Avá Canoeiro.
Para entender melhor
Caminhada troca de saberes
São vinte dias de
intensa interação e conhecimento da sociobiodiversidade. Embalados pelo lema:
verdade, simplicidade e amor, cada caminhante sente-se comprometido com a vida
existente na mãe terra.Para maiores informações assista o vídeo em que Antonio
Alencar, um dos idealizadores e esteio dessa iniciativa, fala um pouco do
histórico e objetivos da caminhada troca de saberes.
http://www.youtube.com/watch?v=2-JmYrWcQQs
O Parque Nacional
do Araguaia – criado em 1950 com 562 mil hectares.
A construção da
estrada seria para atender um polo de produção de álcool e açúcar na região
leste do MT e beneficiar 150 empresas agropecuárias.
População originária-indígena
Foram caçados como
mão de obra pelos bandeirantes no século XVIII
O avanço da frente
agropecuária se intensificou a partir da “Marcha para o Oeste, na década de 50. Com a
expansão da pecuária, o meio ambiente e
as terras indígenas e seus habitantes foram drástica e violentamente atingidos.
Destruição da natureza e proliferação de doenças e epidemias.
Simultaneamente foi
estimulado o turismo na região da ilha.
Egon Heck
Luziania GO 28/06/14