ATL 2017

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domingo, 23 de agosto de 2015

Nhanderu Marangatu: A volta à terra tradicional



A ansiedade e disposição eram grandes.  Os guerreiros, rezadores e famílias estavam esperando, agoniados, os ponteiros juntos apontarem para as estrelas. Esse era o horário que os deuses, através dos nhanderu (líderes religiosos) haviam marcado para o retorno ao território tradicional. Resolutos marcham para a terra sagrada. Com a proteção divina e a certeza de que esse gesto extremo era a única alternativa que lhes restava. Contavam com a solidariedade de amigos e aliados do mundo inteiro.

O sonho de Marçal e Dorvalino



Na noite de 25 de novembro de 1983, na aldeia de Campestre, munícipio de Antônio João, Marçal Tupã’i foi covardemente assassinado. Seu sonho era ver a terra de seu povo e de outras aldeias terem seus tekoha (terras tradicionais) demarcadas. Dezenas de crianças e adultos foram mortos por atropelamentos, fome, e toda sorte de violência.

A Aty Guasu já se manifestou: “Nosso tekoha finalmente acordou e se revestiu mais uma vez do sonho de Marçal. Alimentados por esse sonho, quase 300 indígenas já retornaram a terra, no momento na Fazenda Primavera”. As vozes de Nhanderu Marangatu, que por motivos de segurança não querem ser identificadas denunciam: “As mãos que nos alimentavam e eram amigas enquanto estávamos sem a terra são as mesmas que apertam os gatilhos e ordenam nossa morte quando queremos nossa terra de volta”.

 Em nome de Hamilton Lopes que faleceu em 2012, de Marçal de Souza, assassinado em 1983, Dorvalino, assassinado em dezembro de 2005, de Dom Quitito, que morreu em abril de 2000 e de todos os heróis guerreiros e inocentes crianças que morreram e a todos os que deram sua vida para que o sonho da terra, paz e dignidade se tornassem realidade.

Dez anos após a homologação da terra e do despejo, dez dias após o encontro com o ministro da Justiça e visita a gabinetes do STF, e uma semana após ruralistas da região afirmarem que não existiam conflitos na região.
“Pisaram em cima de nós
Mas ainda temos raiz,
Vamos brotar, crescer
E dar frutos”
(Hamilton Lopes, 15 de dezembro de 2005)

 

Por volta das 9 horas chega um contingente policial para expulsar os índios de seu tekoha. Algumas dezenas de indígenas e aliados haviam feito uma vigília a noite toda.  Haviam se concentrado ao lado da rodovia, na aldeia de Campestre. Várias viaturas foram chegando e trancando a rodovia. Fortemente armados, com cachorros e um helicóptero sobrevoando o local. Os rasantes de um helicóptero amedrontaram, principalmente as crianças, que em pratos, escondiam seus rostos a cada investida da aeronave.
Veja vídeo


Os policiais foram ao encontro dos indígenas. As lideranças tentaram demovê-los do despejo. Uma professora indígena suplicava que não os expulsassem, eles também eram gente e apenas estavam defendendo o que tinham de mais sagrado, sua terra.
Suas súplicas não foram atendidas: “Estamos aqui cumprindo ordem”.

Sequer haviam se cumprido as formalidades da expulsão, com a presença do Ministério Público, através do procurador Charles Pessoa, e os fazendeiros e seus capangas foram colocando fogo nos barracos dos indígenas, tendo alguns sido queimados com os documentos e todos os pertences dentro.

“O que pensam que somos,
Esses que fazem isso conosco,
Que somos animais ou traficantes,
Para virem tirar nós daqui
Com fortes armas?
Não precisavam” (Hamilton)

 História da violência e resistência




Quando a expulsão ocorreu era manhã. A comunidade, atônita, não queria acreditar que tinham sido expulsos de sua terra. Mas o inacreditável aconteceu. Mais de 500 índios foram despejados para a beira da estrada, naquele fatídico dia 15 de dezembro. Começava então um longo caminho de sofrimento, luta e resistência. Dez dias depois, véspera de Natal, um segurança de uma milícia armada, contratada pelos fazendeiros, assassinou, próximo ao acampamento e dentro da terra indígena, a liderança Dorvalino.

Dois dias depois do despejo uma delegação indígena foi até Brasília para denunciar mais essa violência. Na capital federal era tempo de não trabalhar, tempo de recesso. Porém, conseguiram em alguns gabinetes do Supremo Tribunal Federal a promessa de que na volta aos trabalhos, a ação seria julgada com urgência. No INCRA a comissão recebeu a promessa de que os 50 não indígenas que estavam na localidade Campestre, dentro da terra indígena, seriam reassentados, a partir de janeiro de 2006. Passaram-se dez anos e absolutamente nada aconteceu.

Em junho de 2005 o presidente Lula havia homologado a demarcação da terra indígena Nhanderu Marangatu, de 9.300 hectares. Em seguida, o então presidente do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, anulou, liminarmente, a homologação. A partir daquele momento a população Kaiowá Guarani desta terra passou por uma década de sofrimentos e mortes, confinados em 126 hectares.

As comunidades declaram assim: “hoje depois de esperar mais de 18 anos de posse de tekoha reocupamos definitivamente, aqui reocupamos nossa terra e não vamos mais sair de nossa terra Marangatu. Nós estamos aqui ameaçados de morte, cercado de pistoleiros armados, mas não vamos recuar. Decidimos lutar e morrer pela nossa terra. “Informamos a todas as autoridades federais que reocupamos a nossa terra tekoha Nhanderu Marangatu, daqui não saímos nem vivos e nem mortos". (site Aty Guasu, 22 de agosto de 2015)

Egon Heck

Cimi Secretariado Nacional


Brasília 22 de agosto de 2005.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Povo Kanela Apanyekra do Maranhão: falando ao coração



Um convite, uma missão, uma luta. Uma delegação do povo Kanela deixa a tranquilidade da grande aldeia de Porquinhos, com mais de 800 habitantes, rumo a Brasília. Não vieram dizer apenas que existem, mostrando seus rostos cansados, mas sorridentes e confiantes, de um povo guerreiro, do tronco linguístico macro-jê, da nação Timbira. Vieram exigir direitos, falando ao coração de ministros, senadores e deputados.

Apesar de um século e meio de contato com a sociedade, envolvente, invasora, vivem conforme sua cultura e costumes. Mal conseguem se expressar em português. As mulheres praticamente só se comunicam em sua própria língua.

Terra é nossa luta

Vieram tratar de uma questão muito especial e preocupante: a demarcação e garantia de seu território. No dia 30 de setembro do ano passado, a 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal anulou a portaria 3.058 de 21/10/2009 do Ministério da Justiça. Definidos os limites da terra, foi iniciado o processo de demarcação física, conforme previsto no Decreto 1775/96. Porém, o trabalho foi paralisado por pressão dos interesses políticos e econômicos da região. A comunidade indígena ficou então em total insegurança, sem saber ao certo porque os organismos dos “Kupen” (não índios) estavam impedindo a demarcação de seu território tradicional. Decidiram então vir a Brasília para saber ao certo do que se tratava e conversar diretamente ao coração dos responsáveis, falando da necessidade da demarcação daquelas terras e narrando a história de massacres, invasões e violências a que os “Mehin” (indígenas) foram submetidos nessas últimas décadas.

“Não viemos com arco e flecha brigar pelos nossos direitos. Viemos armados com a memória do nosso sofrimento para levar ao coração dos ministros que decidem sobre nossas terras e nossas vidas. Queremos mostrar a eles nossos rostos de mulheres, crianças, anciãos e guerreiros. Pedimos a eles que façam justiça, reconheçam nossas terras, que precisamos para viver em paz, com alegria e a sabedoria do nosso povo”.  Dessa forma, Elias Apanyekra externou o desejo de sua gente, que não quer ser destruída.

Visitas, falas e apoios



Os Apanyekra tiveram um dia diferente do que quando estão na mata, no roçado ou no rio, na aldeia. Enfrentaram as longas caminhadas dos corredores no emaranhado de gabinetes de parlamentares e ministros. Em quase todos os lugares foram recebidos com simpatia e com a promessa de apoio a seus direitos. Foram econômicos nas palavras, mas eficazes o suficiente para dar o seu recado. A simples presença nos corredores e gabinetes com seu jeito Timbira de ser propiciou várias manifestações de solidariedade e reconhecimento. “Esses são os primeiros brasileiros”. “É muito importante vocês estarem aqui”. “Contem com o nosso apoio às reivindicações”. “Tragam o registro de todos esses massacres do vosso povo para podermos ajudar melhor”.

Vários parlamentares pediram para tirar fotos para colocar no facebook. O deputado Tiririca, com seus cabelos brancos e jeito brincalhão, chamou a atenção no corredor do quinto andar do anexo IV.

Hoje estarão visitando senadores e mostrando seus rostos aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), marcando presença no plenário, mostrando que existem e que são atingidos por suas decisões.
“Viemos falar do nosso sofrimento. Fomos massacrados, invadidos e agora vemos com muita dor as nossas terras tradicionais sendo ocupadas pelos fazendeiros, com plantação de eucalipto e soja. Os caçadores entram em nossas terras e estão acabando com os animais. Mas quando vão demarcar nossa terra, vamos fazer festa. Os macacos bugios vão ficar alegres, podem também viver em paz”. Dessa forma, Manoel Apaneykrá externou sua confiança de verem suas terras demarcadas e livres de invasões.

Egon Heck
Cimi Secretariado Nacional

Brasília, 20 de agosto de 2015.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

AGENDA genocida BRASIL


Quando se pensava que os abomináveis decretos de morte contra os povos indígenas estariam superados e finalmente a justiça abriria suas asas sobre um milhão de nativos originários deste país, é anunciado um novo plano genocida e etnocida. Desta vez a iniciativa vem do presidente do Senado, com o aval complacente do governo.  É a agenda mata índio Brasil.
O que os povos indígenas poderão esperar do casamento do modelo ultra neoliberal, com o sistema desenvolvimentista ora em curso?
Pela primeira vez, desde o “milagre brasileiro” no início da década de 1970, os povos indígenas são explicitamente intimados a uma agenda de entrega de seus territórios e recursos minerais à sanha dos interesses econômicos e políticos no poder. São acusados de serem obstáculos para a superação da crise por que passa o país. É a versão atualizada do Projeto de “Emancipação” do ministro do Interior, General Rangel Reis. É a tentativa de impor o projeto da “aculturação”, que Bernardo Cabral tentou impor aos povos indígenas com seu substitutivo na Constituinte em 1.988. É a proposta de criação das colônias Indígenas, com lotes de terra por família indígena, que o Projeto Calha Norte tentou impor, a partir de 1986. Enfim, é o resumo de todas essas propostas antiindígenas que voltam com essa Agenda proposta por Renan Calheiros, presidente do Senado.
As terras indígenas são consideradas entraves para a recuperação da atual crise por que passa o país.  Como sábia medida redentora propõe-se a revisão dos marcos jurídicos que possibilitem acelerar as obras de infraestrutura. A proposta tem o claro objetivo de transformar essas terras em locais de atividades produtivas, torná-las rentáveis, ou seja, disponibilizá-las à agenda do agronegócio.
“Não se leva em conta, como de costume, os povos tradicionais que ali habitam, suas culturas e hábitos, e muito menos os serviços prestados por estes territórios preservados, como a regulação climática, a produção de chuvas e a manutenção da biodiversidade, entre outros. A proposta também quer incentivar a mineração a partir da implementação de um novo marco jurídico para o setor. Isso vai gerar uma corrida, sem regra conhecida e com potencial dramático de destruição, às riquezas que hoje pertencem à União” (Greenpeace, 11/08/15).
Diante de mais essa ameaça, os povos indígenas mobilizados em Brasília manifestaram sua repulsa a mais esse plano de morte, e reafirmaram sua disposição de retornar aos territórios tradicionais dos quais foram expulsos, e realizarem aos autodemarcações de suas terras.
A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB também condenou veementemente mais essa ameaça de morte: “Nós somos filhos da terra, alimentados pela força espiritual dos nossos ancestrais, e é por ela e por toda a Natureza e todo Ser que soltamos o nosso canto e clamor, e erguemos os nossos maracás, nossos punhos e arcos para lutar em defesa da vida e dos direitos, das nossas atuais e futuras gerações” (Manifesto dos Participantes do II Encontro Nacional de Culturas Indígenas e APIB- São Paulo 15/08/15).

Resistência indígena vence ministro

Na semana passada, a delegação dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, permaneceu por mais de dez horas no auditório do Ministério da Justiça, com a firme determinação de que de lá não sairiam sem ter um encontro com o ministro José Eduardo Cardozo.
Na carta entregue ao ministro da Justiça e a representantes de outros ministérios, os índios foram categóricos: “Assim como os senhores, que representam o Executivo brasileiro estão hoje articulados com os poderes Legislativo e Judiciário, empenhados na defesa do ruralismo, promovendo a paralisação política das demarcações de nossas terras tradicionais e o extermínio de nossos direitos previstos na Constituição de 1988, nós povos indígenas queremos dizer que também estamos articulados para retomar nossos territórios e garantir na prática a vida e a cultura de nossos povos, mesmo que isso signifique nossa morte, morte que o Governo e o Estado brasileiros decretam quando nos condenam a viver na beira das rodovias em condições sub-humanas de vida”.
Recado sem rodeios

“Nós, povos indígenas a muito deixamos de sermos tutelados, e dizemos aos senhores que temos plena capacidade de analisar a conjuntura política e compreender as relações que se estabelecem para diminuir e atacar nossos direitos. Exigimos respeito e repudiamos os discursos demagógicos que os senhores fazem para enrolar nosso povo. Voltamos a insistir senhores. Não queremos discursos. Fomos claros e objetivos, queremos respostas claras e objetivas para nossas exigências” (Documento entregue a ministros e seus representantes).

Egon Heck
Cimi Secretariado Nacional
Brasília, 17 de agosto de 2015.



quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Povos originários: que os ministros nos ouçam

Povos originários: que os ministros nos ouçam

Mais um dia agitado. Brasília é o palco móvel em que se mobilizam setores do governo, da sociedade e dos povos originários. Tudo deve ser minuciosamente avaliado para não transpor águas de um para outro rio. Nesse jogo de xadrez, de interesses e poder é preciso pressa, astúcia, habilidade e sabedoria. E muita espiritualidade, rituais e rezas.





De um lado florescem margaridas e ostentam sua resistência e vida, no seco e árido planalto central. Do outro lado maquinações maquiavélicas induzem a caminhos floridos para além das pedras e espinhos. Para os povos de cinco séculos de opressão só resta a opção de lutar, enfrentar todos os dragões com as armas do futuro, da construção coletiva da sociedade plural, de novos projetos de sociedade.

A educação e escola aguerrida

Neste dia 11 as delegações indígenas do sul do país e do Mato Grosso do Sul tiveram uma agende importante e gratificante no Ministério da Educação.  Sem nenhuma ilusão ou expectativa salvacionista, foram dizer a responsáveis pela Educação Escolar Indígena, suas angústias sonhos e lutas por uma efetiva educação diferenciada, combativa e de qualidade.

Puderam expor detalhadamente o sofrimento, a miséria e a fome que passam inúmeras crianças indígenas, nos acampamentos, nas retomadas, nas áreas de conflito e nos confinamentos. Centenas delas estão fora do sistema escolar por negligência dos poderes responsáveis, nos estados e municípios. Os professores e lideranças Kaiowá Guarani denunciaram os inúmeros casos em que os municípios se negam a construir escolas nas áreas de retomadas e acampamentos indígenas.  Dos representantes da Secadi (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, diversidade e Inclusão) receberam a informação de que não existe nenhum empecilho legal nesse sentido. Pelo contrário, a Constituição e outras normas obrigam os poderes públicos locais a garantir escolas para as crianças indígenas, estejam onde estiverem.

Da delegação de mais de 40 participantes do debate, mais de 30 eram professores indígenas. Mostrando clareza política de seus direitos, que são os direitos de seus povos, denunciaram os inúmeros descumprimentos das leis, da inviabilização, na prática, de escolas verdadeiramente indígenas, relataram inúmeros fatos de violência e omissão do governo especialmente na garantia de seus territórios.

Os representantes do ministério ouviram atentamente os relatos, as denúncias e as cobranças, e reafirmaram o compromisso de se empenhar na solução de várias questões práticas relacionadas à Educação Escolar Indígena, e parabenizaram os professores, especialmente do Mato Grosso do Sul pela sua compreensão e luta política por seus direitos.

Ficou agendada para este mês, a ida de representantes do ministério ao cone Sul do Mato Grosso do Sul, ocasião em que visitarão aldeias e acampamentos indígenas. Posteriormente, o ministro da Educação estará indo à região para contatos diretos com as realidades prementes das populações indígenas locais.

Segundo Censo de 2.014 são 3.160 escolas indígenas, com um total de 239.666 alunos, 18 mil professores indígenas e aproximadamente 13 mil indígenas nas universidades. Sem ilusões quanto às reais possibilidades de autonomia de suas escolas, exigem justiça e punição aos seus colegas Genivaldo e Rolindo Vera assassinados quando retornaram com seu povo à terra tradicional do Ypoi, no município de Paranhos. Os assassinos continuam soltos e o corpo de Rolindo até hoje não foi encontrado.

Indígenas fecham pistas de acesso ao Palácio do Planalto

Indignados com a morosidade e o descaso em cumprir a promessa de serem recebidos por ministros de Estado, a delegação indígena trancou novamente, no início da tarde de ontem, a rodovia em frente ao Palácio do Planalto. Representantes do governo federal haviam se comprometido a agendar reuniões com representantes dos ministérios da Justiça, Desenvolvimento Agrário, da Fazenda, da Casa Civil e Secretaria Geral da Presidência da República, além da Advocacia Geral da União e do Presidente da Funai. Prontamente policiais foram novamente posicionados e a polícia de choque com cães foram colocados de prontidão.

Em nova rodada de negociação ficou acertada uma conversa prévia com representantes dos ministérios e uma agenda conjunta com os ministros acima relacionados, para quinta-feira, dia 13.
No encontro com a participação de toda a delegação indígena e apoiadores, realizada no Ministério da Justiça, se percebeu que praticamente nada mudou nos discursos e posicionamentos desses órgãos públicos.

Egon Heck
Cimi Secretariado Nacional
Brasília, 11 de agosto de 2015.





quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Presidente da Funai na fronteira com o Paraguai

Não é por acaso ou fortuitamente que o novo presidente da Funai, João Pedro, do PT do Amazonas, vem ao Mato Grosso do Sul, logo no início de sua gestão. Com dois meses no cargo teve seu primeiro  embate com uma delegação indígena.  Os Pataxó, em cujo território iniciou a invasão do até então desconhecido continente, Ameríndia. Depois de mais de 500 anos de resistência, não mais acreditam em  promessas ou  falas enganosas   feitas pelos  neocolonizadores e e terminadores dos povos originários.




Mas seus representantes continuam insistindo e jurando que estão bem intencionados, mesmo repetindo as velhas mazelas de tutores com ares de superioridade.

Por que vem correndo até o  Mato Grosso do Sul? Para resolver o gravíssimo problema da demarcação das terras indígenas ou para socorrer a Biafra brasileira como é conhecida a região de pior violência e negação dos direitos indígenas.  Se nos governos Lula e Dilma tivessem demonstrado vontade política em resolver o problema, que sabidamente não é fácil, mas absolutamente factível ,  certamente os povos indígenas da região, especialmente os Kaiowá Guarani e os Terena, não continuariam vendo suas lideranças diariamente ameaçadas e assassinadas.

Mas porque então João Pedro vem à região?  Será porque as Olimpíadas vem aí  e a imagem do país mão pode estar manchada ou conspurcada por ações ao arrepio da lei e dos direitos, violando a Constituição?

Uma coisa é certa. Não é por falta de conhecimento da realidade que se está deixando de agir em favor da vida dos povos indígenas da região e do país. Pilhas de relatórios e documentos devem estar entulhando as gavetas dos  senhores dos três poderes. É obstinação em não cumprir a lei em favor dos historicamente oprimidos e rejeitados povos originários.

A boa vontade ao avesso




Será que existe boa vontade e disposição de resolver essa situação de envergonha a todos nós cidadãos desse país? Que falem  os fatos.  A Terra Indígena Buriti foi durante anos  exaltada e endeusada pelo Ministro da Justiça, como a única forma de resolver o problema através da mesa de negociação. Depois de  dois  anos os fazendeiros deram uma banana ao Ministro e um adeus  à solução por negociação e diálogo. Quando, no governo Lula houve um tímido sussurro de começar a resolver o problema das terras, sinalizando para a indenização e compra de terras, a Famasul se dispôs de fazer o levantamento das terras que estariam à disposição para serem compradas. Um número ínfimo de proprietários se dispuseram  a vender as terras.  E assim poderíamos levantar inúmeros fatos que  sinalizam claramente que o que não se quer é que a Constituição seja cumprida e as terras indígenas demarcadas. Salta à vista que o que prevalece é uma boa vontade às avessas.


CPI do Cimi

Diante do quadro desolador e vergonhoso, da violência genocida, da discriminação e racismo, é preciso achar um bode expiatório.  Repete-se a mágica de quase meio século. Realiza-se uma Comissão Parlamentar de Inquérito. Forjam-se acusações falaciosas,  mentiras são plantadas como verdades.

“Em outra vertente, a Assembleia Legislativa deve averiguar denúncias contra o CIMI (Conselho Indigenista Missionário) que, além de incitar invasões, tem orquestrado o confronto armado, colocando em risco a vida de índios e não índios.” Afirmações da deputada estadual Mara Caseiro. (Ponta Porã Digital 7/08/15)

João Pedro em Guaivyri e Ypoi

O presidente da Funai   estará visitando nesta tarde duas aldeias onde foram utilizadas as mesmas estratégias de assassinar e ocultar o cadáver como forma de dificultar a elucidação dos crimes. Até hoje o corpo do professor Rolindo Vera, do Ypoi e do cacique Nizio Gomes, do Guayviri, não foram encontrados.

Ao passar pelos acampamentos certamente será impactado pela extrema pobreza e dificuldades em que sobrevivem essas populações. Diante desse quadro estarrecedor, radicalmente diferente da maioria dos povos indígenas da Amazônia que pelo menos tem seus territórios demarcados.

Certamente o presidente da Funai sairá com o coração na mão e apesar das mãos amarradas pela burocracia e os interesses políticos e econômicos certamente, se empenhará em minorar a gravidade da situação.

Aos povos indígenas resta a resistência ativa, no caminho  para seus tekohá, suas terras tradicionais. Para isso contam com a solidariedade nacional e internacional, com a força dos nhanderu e guerreiros.

Egon Heck
Secretariado Nacional do Cimi
Dourados, 8 de agosto de 2015



sexta-feira, 31 de julho de 2015

Caminhada – rumo a Terra Ronca




Quando os caminhantes da “troca de saberes” foram definindo seu roteiro, não tiveram dúvidas. Deixaram se embalar pelas energias da região conhecida por Terra Ronca, em função dos ruídos naquela caverna e também pelo Parque Estadual do mesmo nome. Seria ali que em torno de 60 pessoas iriam se encontrar e traçar os caminhos a serem percorridos. Região de muitas belezas, com mais de 60 cavernas, muitos rios e lindas cachoeiras. Era ali que iriam morar por alguns dias os sonhos caminhantes de gente de  diversas regiões do país, mais especificamente de Goiânia,  Pernambuco e Tocantins.
Após percorrer grandes distâncias, é hora de experimentar o pó da região, acampar à beira da cachoeira de São Bernardo. Delícia para quem vem da secura do sertão, curtição para quem vem das regiões de águas e rios poluídos, sem precisão.
Não foram  feitos grandes percursos a pé. Apenas o suficiente para sentir as energias da região que foi  impactada pela agropecuária, felizmente em recesso.

Alegria e calor do encontro e reencontro

Um dos aspectos importantes, durante o caminho é  sentir-se e sentir o outro. Os abraços demorados e calorosos,  são carregados da alegria e felicidade do reencontro. Também os novos caminhantes são incorporados à roda da vida com muita esperança. Como o grupo era grande e a noite já ia avançada, foi sugerido que apenas se cumprimentasse com abraço, aos novos membros.  Não houve jeito. Todos se tornaram novos e os abraços foram gerais, no pé das montanhas gerais.

Do ventre da mãe terra

Me senti no ventre da mãe terra, ao ser envolto na beleza da caverna de São Bernardo. Foi como adentrar a escuridão da noite em pleno meio dia. Sentir a cada passo a leveza da água escorrendo pelos pés, os olhos ofuscados com a suavidade da luz dos carburetos e lanternas deslumbrando  o encanto, quase em pranto, a cada nova maravilha. Quando brilhavam os estalactites e estalagnites, formando figuras, minha alma subia ao teto dos salões e se incorporava no festival de beleza.

Carona na Caravana da paz e Enca

Após percorrer caminhos  pela natureza, do cerrado restante,  instantes de partilha e reflexão. Fomos juntando nossos parcos conhecimentos com os sentimentos que foram brotando da realidade sentida, num belo festival da vida em pleno  chão esturricado pela seca.  Gratidão. Essa é talvez a melhor expressão dos nossos sentimentos.
Quando  estávamos buscando uma forma de encerrar nossa caminhada com chave de ouro, na caverna Angélica, distante mais de 30 km de Terra Ronca, eis que surge a inconfundível Wipalla, um locomóvel a serviço da Caravana da Paz, que há 30 anos iniciou no México e continua viajando e propiciando momentos de formação pelas Américas, tendo sempre como horizonte a construção de uma cultura da Paz.
Nossa caminhada estava precedendo a realização do 39º Encontro Nacional de Comunidades Alternativas – ENCA.  Esse é um dos momentos  de socialização e intensificação da  alternativas já encontradas, diante do fracasso do modelo capitalista que se pretende impor em todo o planeta. É um modelo necrófilo que só gera sofrimento e destruição.


Fica sempre um pouco de perfume

Quando a caminhada vai terminando já começa a saudade. Aquele gosto gostoso de quem deixou um pouco de si e acolheu em seu coração tantas vidas, alegrias e belezas. Caminhar é preciso. Partilhar solidariamente vida e caminho, também.
Já na despedida, em pleno caminho, recebemos e socializamos, a linda carta enviada por Samara (TO) : “A todos caminhantes sou grata a cada um que esteve comigo me proporcionou carinho, afeto e amizade... e  por me ensinar que cada dia deparamos com diversidades e me mostraram que, quando acreditamos em nós tudo deixa de ser impossível é se torna possível de acontecer dependendo de qual for objetivo. A força está dentro de nós basta deixar fluir pensamentos sinceros que o sucesso da vida é a vitória.
                Para mim foi uma caminhada sensacional, ter conhecido cada uma de vocês... como diz: Charles Chaplin cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha, é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra! Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha e não nos deixa só porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso.
                Em poucas palavras quero demonstrar meu imenso carinho e amor, mesmo que alguns de vocês eu nunca mais encontre na caminhada da vida...quero que saiba que cada um foi importante para mim. Que Deus retribui, pois nunca poderei retribuir tanta gentileza. Grata por tudo! Eu caminhei e caminhei e caminhei ... que todos fazem uma boa caminhada.
Ps; espero estar na próxima caminhada rs ...
Gratidão!  Beijos e Beijinhos com carinho de Samara Kelly)  Palmas 10/07/ 2015 Awire soré ...
Egon, Laila e Silésia
Brasília, 30 de julho de 2015


quinta-feira, 30 de julho de 2015

Tupã abençoe Francisco


Naquela noite memorável, no calor úmido da Amazônia se deu o encontro que marcaria as lutas dos povos indígenas nas próximas décadas. O Papa se encontrou com um grupo de lideranças indígenas de todo o país.  Ouviu atentamente as falas, interrompidas por longos aplausos.  Ao manifestar seu sentimento diante da dura realidade exposta, o fez reconhecendo os povos indígenas como nações. “Assim se respeitará e favorecerá a dignidade e a liberdade de cada um de vocês como pessoa humana e de todos como como um povo e uma nação”. Era 10 de julho, tempo de verão e esperança na Amazônia.

Julho de 1980 – Papa João Paulo II se encontra com os índios em Manaus

“Somos massacrados, explorados e tendo estradas que traçam em nossas terras, que prejudicam o índio por doenças e diversos problemas que não haviam antes entre nós; estamos sendo acabados por projetos, empresas e invasores que roubam nossas vidas, tomando nossa terra e  nos expulsando delas, sendo nós os donos dessa  pequena e única ponto final em nossa cultura e nossos direitos...
Santidade, olhai para esse povo que está desaparecendo, queremos os nossos direitos, somo humanos também” (Carta dos povos indígenas ao Papa).
Marçal Tupã’i Guarani ergueu a cabeça, fixou seu olhar atento na figura toda de branco e fez uma denúncia que correu o mundo, e os mais recônditos lugares do país. “Somos uma nação subjugada pelos governantes, uma nação espoliada, uma nação que está morrendo aos poucos... Nossas terras são invadidas, nossas terras são tomadas... A nossa voz é embargada por aqueles que se dizem dirigentes desse grande país”. Tentaram calar a sua voz. O assassinaram friamente três anos depois. Mas não conseguiram matar seus sonhos, embargar suas lutas. A Terra Indígena Pirakuá está lá, regularizada. A TI Nhanderu Marangatu está com a homologação embargada no Supremo Tribunal Federal. Até quando?

10 de Julho 2015 – Papa Francisco se encontra com os movimentos sociais e índios, na Bolívia

Trinta e cinco anos e um dia depois do histórico encontro em Manaus, novamente um índio Guarani-Kaiowá se encontra com o Papa, para clamar por justiça e direito à vida em paz e dignidade.
Desta vez foi Eliseu Kaiowá o escolhido para estar na mesa com o Papa, entregando-lhe uma carta em nome dos povos indígenas do Brasil.


“Amado Papa Francisco. Nós, povos indígenas do Brasil, sofremos um processo de ataque violento contra nossas comunidades, nossas lideranças e nossos direitos. Nós, Guarani-Kaiowá, vivemos no estado do Mato Grosso do Sul. Enfrentamos as piores condições de vida, sofremos a violência mais profunda e uma situação de maior vulnerabilidade social e cultural no país. Somos cerca de 45 mil pessoas e vivemos no exílio, fora de nossas terras, que se encontram invadidas por fazendeiros, que delas nos expulsaram em passado recente com o apoio do Estado brasileiro” (Carta entregue ao Papa Francisco Por Eliseu Guarani Kaiowá).
“Ele me recebeu com um sorriso, estendeu a mão e me escutou, coisa que a presidente e os governantes brasileiros, mesmo sabendo de nossa situação, nunca fizeram e se negam a fazer. Eu pedi a ele que interceda por nós, que ajude a fazer o Governo Brasileiro cumprir a Constituição e demarcar nossos territórios, que o próprio Poder Executivo paralisou. Disse que por causa disso, em todo Brasil, e em especial no Mato Grosso do Sul, vivemos em guerra, que estamos morrendo, sendo massacrados por pistoleiros armados e pelos políticos do agronegócio, que sobre nós existe um verdadeiro genocídio. Pedi pelo futuro de nossas crianças e velhos, para que possam continuar existindo” (Eliseu Kaiowá). Ameaçado por estar lutando pela terra e direitos de seu povo, vive numa das aldeias, Kurusu Ambá, onde dezenas de indígenas foram assassinados nos últimos anos, após o retorno a parte do território tradicional.

A luta e a esperança Guarani crescem

Os gritos de socorro fazem coro nas selvas de pedra e nas terras devastadas pelo capital. Mais um julho marcado pelo grito, a dor e a resistência:
“Falamos com o Papa, gritamos em Paris, às consciências ainda não adormecidas. Retomamos pequenas partes de nossos tekohá, territórios tradicionais. Redigimos documentos, estivemos com autoridades, fizemos manifestações em Brasília, num supremo esforço para que haja justiça, vingue a paz e a esperança. Realizamos mais uma Grande Assembléia/Aty Guasu, e estamos realizando mais um encontro continental do nosso povo”.
Julho especial.  O clamor corre o mundo. A esperança se lança à frente.  Em Paris, representantes desse povo denunciam. Eles afirmam que estas mortes são perpetradas por milícias privadas contratadas por grandes proprietários de plantações de soja e cana.

“Estamos vivos, mas estão nos matando pouco a pouco e de várias maneiras”, afirmou o cacique Vilharva-Cáceres. “Estamos aqui para pedir socorro e ajuda, não apenas pelas florestas e pela natureza, mas também pela vida”, afirmou em coletiva de imprensa Valdelice Veron. "Nós demarcaremos nosso território com nosso próprio sangue se for preciso” (Le Monde 24/07/2015).
Grande encontro Continental Guarani acontece nesses dias na Argentina. É mais um momento importante em que esse povo tão ameaçado e massacrado nos cinco países em que vivem mais de 350 mil Guarani, trace suas estratégias para garantir seus direitos, especialmente a seus territórios.
Apesar de todo ódio e discriminação que sofrem diariamente, das ameaças constantes, das ordens de despejo, e toda sorte de violência, a esperança, resistência e a luta avançam. E nessa caminhada precisam cada vez de mais solidariedade e apoio.
Que Tupã abençoe o Papa Francisco e todos aqueles que lutam pela vida no planeta terra e em especial pelos Kaiowá Guarani. Pedir perdão é comprometer-se com a transformação.

Egon Heck
Cimi Secretariado Nacional

Brasília, 29 de julho de 2015.