ATL 2017

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domingo, 24 de março de 2019

Mais um guerreiro na casa do Pai





Thomaz partiu silencioso em sua derradeira “missão calada”. Foi mais de meio século de doação de uma vida a uma causa. Desde aquela Semana Santa de 1967, de maneira especial com seu companheiro Egydio, acenderam a chama de um novo indigenismo missionário, marcado por um compromisso radical e coerente com a causa dos povos indígenas, com respeito à vida, cultura, religião e autodeterminação desses povos.


Encarnação



Desde os primeiros contatos com os Kaingang e Guarani do Rio Grande do Sul, na década de 1960, foi construindo, em meio a dores e alegrias, dúvidas e certezas, um novo caminho missionário que veio a se concretizar na criação do Cimi – Conselho Indigenista Missionário, do qual participou de diversas formas, desde Conselheiro até vice-presidente e articulador da questão das terras indígenas. Também foi designado pela Missão Anchieta como diretor do internato de Utiarit, em Mato Grosso. Um processo lento, de dores e esperança, de coragem profética, de ousadia e fé.





Caminhos plurais e causa comum


A Missão Anchieta, na Prelazia de Diamantino, foi uma terra fértil para a afirmação de um novo indigenismo missionário de resistência e conquista de importantes direitos dos povos indígenas.
Aí também temos a fundamental contribuição de Thomaz. Sua sensibilidade aguçada, coragem e determinação, ele e Egydio tiveram a intuição de ajudar os povos indígenas no Brasil de darem um passo decisivo na luta e conquista de seus direitos, especialmente suas terras. Ao sentirem os povos originários em nosso continente se unirem e mobilizarem para enfrentar a opressão do sistema colonial, procuraram buscar um caminho solidariedade, apoio e visibilidade às lutas dos povos indígenas em nosso país.

Foi então que ajudaram os povos, especialmente as assistidas pelas missões católicas, num primeiro momento, a começarem a se visitar e reunir em grandes assembleias para debaterem sua causa, seus problemas e principalmente as formas de se apoiarem nas lutas por seus direitos.
Da aldeia ao Sínodo da Amazônia

Thomaz tornou-se semente de resistência, de novos caminhos possíveis e necessários em nosso ardor missionário e testemunho profético. Tua presença e partilha de vida com os Myky, é certamente um desses caminhos a emergir com vigor no Sínodo da Amazônia que se realizará em outubro desse ano.
Thomaz! Pagaste um preço alto pela tua ousadia e radicalidade, mas podes ter a certeza de que o sofrimento se transformará em semente e a semente em muitos frutos.

Abraço a meu melhor amigo, companheiro de luta e caminho

No dia em que encontramos Vicente Kiwxi, você Jaúka, aos prantos, bradaste por justiça: “Encontramos esse meu maior amigo... Chorei comovido, e, pensando na figura desse meu amigo, que tombava ali, insepulto até então, ignorado por todos, como ele foi durante muito tempo, por muita gente, que não dava valor ao tipo de trabalho que ele levava, que era de total respeito ao povo Enawenê Nawê” (Provocar rupturas, construir o reino, memória, martírio e missão de Vicente Cañas, Egon Heck e Paulo Suess, ed. Loyola, 2017).
Como afirmaste há poucos dias, por ocasião dos 50 anos da OPAN, teu batismo de fogo foi ajudar a sobrevivência dos Tapaiúna, que foram quase totalmente massacrados pela irresponsabilidade do Estado brasileiro, e que até hoje estão sem ter sua terra devolvida.
Thomaz, os povos indígenas são imensamente gratos, pois foste e continuas sendo um guerreiro dessa causa, agora junto a todos os que deram suas vidas por essa causa.


Egon Heck
Secretariado Nacional do Cimi
Brasília, início de outono de 2019.





quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

OPAN: meio século na luta pelos direitos indígenas




Dia de muito calor em Cuiabá, Mato Grosso.  Dia especial.  Momento de comemorar o meio século de existência da Operação Anchieta, posteriormente Operação Amazônia Nativa (desde 1987).  Além de ser a primeira entidade criada dentro do processo de surgimento de um novo indigenismo, no final da década de 1960 ela teve a mesma raiz e inspiração do Cimi, que seria criado quatro anos depois, por Egydio e Tomas, ambos jesuítas ligados à Missão Anchieta, em Diamantino, MT.
Momento histórico. Os idealizadores da entidade expuseram o contexto eclesial e social em que ousaram enfrentar conjunturas adversas para abrir um novo caminho de compromisso missionário, a partir de um novo e radical compromisso com os povos indígenas e as populações marginalizadas e oprimidas.

Essa rebelião que partiu do coração de cada um dos fundadores da OPAN, estava em sintonia e alimentada pela fé transformadora e necessidade de mudanças profundas. Como sentiam e vivenciavam essa realidade de dentro das estruturas, percebiam a necessidade de partir para outros caminhos, que não das missões tradicionais com estruturas de internatos. Os leigos seriam os que neste momento poderiam fazer a diferença, pois não tinham sobre si o peso das estruturas. Estariam mais leves e livres para um compromisso mais radical com os povos indígenas que estavam submetidos a um intenso processo de extermínio.

No dia 6 de fevereiro, a OPAN inicia a comemoração dos 50 anos de existência com a presença dos idealizadores e fundadores Egydio e Tomás e alguns dos primeiros voluntários que estavam atuando em projetos no norte do Mato Grosso e na Prelazia de Guajará-Mirim, em Rondônia.
Os fundadores da entidade expuseram os caminhos que os levaram a idealizar a entidade a partir da força e insatisfação presentes na juventude, submetida ao regime ditatorial militar e de uma Igreja que estava sendo impulsionada pelos ventos do Concílio Vaticano II, além de outros momentos fortes em nível de América Latina.

Tomas Lisboa expôs a histórica caminhada que resultou no desmonte a missão de Utiariti e o consequente deslocamento dos missionários para as aldeias. Também relatou seu batismo de fogo ao conviver por alguns meses com os Tapaiuna (beiços de pau), vítimas de mais uma ação criminosa do governo, que articulou o contato com esse povo, desencadeando a drástica redução de mais de 300 índios para uns 40 sobreviventes. E estes foram transferidos para o Parque do Xingu, onde aguardam até hoje seu retorno ao território original.

Egydio Schwade contou as peripécias enfrentadas ao procurar, em vários lugares do Brasil, voluntários que assumissem o desafio radical de conviver com os povos indígenas nas aldeias, num processo de encarnação, desde o aprender a língua do povo, até procurar ao máximo ser um deles. Foi nos seminários que ele obteve maior adesão à sua proposta. Lembrou que a OPAN no decorrer desse meio século de existência teve muitas mudanças e enfrentou muitos desafios. Porém, foi sem dúvida uma caminhada com muita dignidade e compromisso com os povos indígenas em nosso país.

OPAN e Cimi, uma mesma raiz e caminhos diversos


Houve uma sintonia e articulação muito intensa entre as duas entidades. Tanto isso é verdade que em determinados momentos, membros da OPAN passaram a trabalhar no Cimi e membros do Cimi eram também membros da OPAN. O primeiro secretário geral do Cimi foi Egydio que na ocasião era coordenador da OPAN. Nos dez primeiros anos, os missionários do Cimi faziam o curso de formação indigenista na OPAN.
O importante de toda essa história é que a causa indígena ganhou aliados de compromisso e confiança na luta por seus direitos e no enfrentamento das lutas contra seus inimigos.

Indígenas dão seu recado

A primeira mesa foi de representantes dos povos indígenas. Estes insistiram na importância de não apenas festejar, mas de aprofundar a aliança e solidariedade entre os povos originários para enfrentar com sabedoria, união e energia todas as adversidades que o atual governo pretende desencadear contra seus direitos.
As lideranças indígenas foram unânimes na avaliação da gravidade da situação com relação aos direitos dos povos indígenas. Esta situação exige uma permanente vigilância e mobilização para que não prevaleça o império da violência, da criminalização e retrocesso com relação aos direitos conquistados. Igualmente importante foi considerada a formação de quadros, de guerreiros, que façam o enfrentamento contra as forças adversas encasteladas no atual governo, com um discurso anti-indígena orquestrado pelo atual presidente.


Uma história de lutas e conquistas, solidariedade e alianças com os povos originários do Brasil.  Na abertura do evento Ivar, um dos históricos membros da entidade, fez referência às inúmeras ações que foram desenvolvidos nesses 50 anos. pela vida e direitos dos povos indígenas
Como Opanista e em seguida como membro do Cimi pude testemunhar e partilhar de inúmeras lutas, vitórias e derrotas dos povos indígenas em nosso país e outras regiões do continente americano

 
Egon Heck
Cimi Secretariado Nacional

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Os Kaiowá Guarani e as rezas sobre os nomes dos inimigos





O Brasil e o mundo estarão unidos aos Nhanderu e Nhandesi Kaiowá Guarani na luta pela vida e pela terra de Guyraroka e demais territórios indígenas ainda por demarcar. 




A enorme força espiritual dos Kaiowá Guarani se manifesta de várias maneiras, desde as rezas fortes dos Nhanderu, para que o sol se apague até as rezas que lhes permite penetrar no coração das pessoas para demovê-las de ações que atinjam ou neguem os seus direitos de viver em seus tekoha, territórios tradicional, originários, com paz os seus projetos de Bem Viver.

Os mais de 50 Kaiowá e Guarani que estiveram em Brasília para lutar pelos seus direitos, fizeram um dos rituais de reza sobre o nome de várias pessoas, especialmente as que estão fazendo e aprovando leis que vão contra a Constituição do país, no que diz respeito  aos direitos dos Povos Indígenas.

Simultaneamente uma tarefa da Polícia Federal agia no Mato Grosso do Sul. Prenderam o filho do governador Reinaldo Azambuja, PSDB, e o deputado Zé Teixeira, DEM, que reivindica como sua a terra do tekoha Guyraroka. Foram fazer companhia ao ex-governador André Pucinelli, que já está preso. Ele tem insistentemente se manifestado contra o direito dos índios a seus territórios. Dentre afirmações por ele feitas, uma diz que “é um crime dar um palmo de terra aos índios que não produzem”. Nessa mesma direção foram recentes declarações de Bolsonaro, que se eleito for, não demarcará um centímetro de terra para os índios.


Enquanto isso, os povos originários da região continuarão fazendo seus rituais e rezas, até que seus direitos seja garantidos.

Os Kaiowá Guarani continuarão rezando sobre os nomes de seus inimigos, na esperança de que terão suas terras reconhecidas e garantidas. Esse é um direito originário reconhecido na Constituição e legislação internacional da qual o Brasil é signatário.

Quem sabe, a recuperação de altas somas de recursos desviados possa ser canalizada para demarcar e garantir os territórios indígenas no Mato Grosso do Sul.
  
Durante a semana em Brasília, os indígenas também foram para a Advocacia-Geral da União (AGU), para entregar à Ministra documento pedindo imediata revogação do parecer 001, também, conhecido como parecer do genocídio.

Na quinta-feira, a delegação Kaiowá Guarani que esteve a semana em Brasília acabava de embarcar rumo às suas terras, retomadas e acampamentos. Alegria contagiante. Estavam leves, alegres, sorridentes. As vitorias e debates com vários setores da sociedade e do governo alimentaram os frágeis mas profundos e consistentes fios de esperança. Foi a expressão concreta do pacto que assumiram na recente Aty Guasu realizada na Terra Indígena Guyraroka. “Nosso povo já rezou junto e fizemos um pacto. Todos os Tekoha estão conectados e estarão juntos para defender com nossos corpos e nosso sangue os territórios que forem afetados pelo Marco Temporal, Parecer 001 da AGU ou outra ferramenta genocida contra nossos povos” (Carta da Aty Guasu de Guyraroka 24-08-2018).



Chegaram à capital federal ansiosos, pois além das lutas concretas de suas comunidades sentiam o peso da responsabilidade de darem continuidade às lutas  dos povos indígenas do Brasil, tendo como objetivo principal a não aprovação do Marco temporal, pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

A presença mais importante foi com os Ministros do STF, através de conversas e entrega de documentos nos gabinetes, solicitando a reversão da anulação da Terra Indígena Guyraroka e a participação dos índios nesse processo e em todos aqueles que tratam da questão indígena, conforme reza a Constituição. Fizeram muitos rituais antes e depois da retirada da plenária virtual do STF.

Estiveram também na Funai, Ministério da Saúde, Ministério da Educação (MEC) e Procuradoria Geral da República.


O Brasil e o mundo estarão unidos aos Nhanderu e Nhandesi Kaiowá Guarani na luta pela vida e pela terra de Guyraroka e demais territórios indígenas ainda por demarcar e garantir para os povos originários deste país e de América Abya Yala.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Semana de luta Guarani em Brasília



As rezas e os rezadores Nhanderu e Nhandessi


Na semana passada, Brasília tornou-se uma grande casa de reza (Oga Guasu). Por onde passou, a delegação de 45 Guarani Kaiowá e Nhandeva realizou seus rituais, rezas e danças. Impreterivelmente tinham que encerrar seu momento de espiritualidade, fazendo os gestos de expulsão dos maus espíritos. Só não podiam realizar as rezas mais fortes, com medo que Brasília poderia se esvaziar muito. Se todas as contas no exterior fossem revelas a debandada seria grande.

Conquistando aliados: a greve de fome e a demarcação da terra

Um dos momentos emocionantes, nessa semana de luta da delegação Guarani Kaiowá em Brasília, foi o encontro que tiveram com o grupo de lutadores sociais em greve de fome. Depois de inúmeros rituais falaram sobre o significado desse seu gesto de solidariedade. Os Nhanderu abençoaram e desejaram força nesse gesto supremo de por em risco suas vidas por uma causa tão magnânima e generosa.

Na carta que entregaram aos amigos em greve de fome, externaram as razões de sua esperança, nessa permanente guerra e luta que enfrenam: “Somos gratos pelo ato de sacrifício de vocês para que o povo brasileiro possa se alimentar de pão, mas também de justiça. Iremos rezar com toda nossa força para que fiquem bem e temos certeza que com nossa reza e com atos de coragem como o de vocês este país poderá ser melhor, mais democrático e mais justo com todos nós, em especial com os povos indígenas que são seus filhos primeiros. Todos estamos juntos e sabemos que a fome que passamos também conduz nossos pés para o mundo onde ninguém precisará passar fome. Deixamos aqui, junto com a benção de nossos rezadores, nosso abraço, nosso obrigado e nossa amizade enquanto Guarani e Kaiowá”.
Frei Sérgio, emocionado pela forte expressão dos rituais e palavras dos indígenas, disse: “Nós da esquerda, em especial do PT, temos muito que aprender com os povos indígenas”. E concluiu: “Enquanto não forem respeitados os direitos dos povos indígenas, não haverá verdadeira justiça em nosso país”.

O Estado brasileiro na contramão da história


No Dia Mundial dos Povos Indígenas, 9 de de agosto, a delegação Kaiowá Guarani participou com seus rituais e falas, de um memorável ato de protesto e debate sobre a situação dos povos indígenas no Brasil e no mundo.
Durante ato realizado no Memorial dos Povos Indígenas, em Brasília, organizações indígenas e aliados, destacaram avanços importantes registrados nas últimas décadas. Ao mesmo tempo denunciaram o lamentável processo de regressão verificado em vários países, dentre os quais se destaca o Brasil, que “é certamente um dos países que hoje mais violenta os direitos indígenas”.

Na Funai, a choradeira foi geral

Meteram a mão no orçamento, deixando-a pele e osso. Não liberaram grana. Deixaram-na agonizante. Mas seu presidente atual disse não se intimidar. Afirmou trabalhar incessantemente. E para ancorar suas afirmações, prometeu que com seus assessores deixaria pronto um minucioso documento com todas as informações da realidade de todas as terras indígenas Kaiowá Guarani, no Mato Grosso do Sul. Os índios até retardaram sua viagem de volta, mas não levaram o documento com as informações.

Entenda a AGU, quem puder


A Portaria 01 de 2017 é a anti-porta do genocídio dos povos indígenas. Além de impedir e inviabilizar a demarcação das terras indígenas, propõe a possibilidade de anular processos administrativos já em andamento ou mesmo conclusos. Porém, a ministra da AGU, Grace Mendonça, em sua retórica falaciosa continua afirmando que a portaria é para dar segurança jurídica para a demarcação das terras indígenas e mesmo agilizar os processos de demarcação. Será que a ministra plagiou a iniciativa do ministro Jobim que na década de 1990 também editou portaria introduzindo o contraditório nos processos de demarcação das terras indígenas e justificou sua iniciativa afirmando ter estabelecido prazos para cada etapa para agilizar as demarcações? Na prática, além dos prazos terem sido sistematicamente descumpridos, acabou inviabilizando as demarcações, pela forte pressão dos ruralistas e de interesses políticos. Parece que o Estado brasileiro e seus prepostos, apenas buscam justificativas burocráticas para descumprir a Constituição e a legislação internacional, assinados pelo Estado brasileiro, como a Convenção 169 da OIT, a Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas, pela ONU, e a declaração da OEA (Organização dos Estados Americanos).
A delegação Guarani-Kaiowá reforçou o pedido de revogação urgente desse instrumento de genocídio que os interesses antiindígenas estão utilizando na sua incansável investida contra os direitos dos mais de 300 povos originários deste país.

Marco Temporal: enredo supremo para o próximo carnaval




No campo de futebol, nas rodas de pilhéria, o marco temporal servia para fazer chacotas ou piadas.
Quem sabe até o próximo carnaval o dito marco temporal já esteja na cova e sirva apenas para a memória sórdida de um instrumento e decreto de morte para os povos indígenas.
É lamentável que frequentemente os supremos ministros tenham que ser lembrados que a Constituição foi construída para ser cumprida. Quase semanalmente delegações indígenas estão se fazendo presentes no Supremo Tribunal Federal, não apenas para lembrar de que ainda estão vivos, mas que pretendem chegar ao coração dos ministros e demonstrar a eles quanto sofrimento e mortes estão provocando interpretações contra os povos indígenas, como é o caso do marco do temporal.
Egon Heck
Fotos Laila/Cimi
Secretariado Nacional
Brasília, 17 de agosto de 2018

terça-feira, 17 de julho de 2018

Paralisação das demarcações e o racismo institucional que impede entrada de maracás na “casa do povo”



Em audiência na Comissão de Direitos Humanos do Senado, indígenas Krahô-Kanela denunciam projetos que afetam vida do povo. Comunidade não foi consultada.




O racismo institucional, assegurado pelos regimentos da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, se faz mostrar em todas as agendas com participação dos povos indígenas, em Brasília (DF). Na capital federal, a intolerância religiosa contra as espiritualidades indígenas demonstra para quem são feitas as políticas do poder legislativo. Além de paralisar as demarcações, impedem as manifestações espirituais dos povos na “casa do povo”.

“Quando essa casa viola o direito de nós entrarmos com nosso maracá e coloca o rótulo como sendo uma arma perigosa, ela está, na verdade, discriminando toda a cultura dos povos indígenas”, lamenta Babau Tupinambá, liderança indígena da Bahia. “Isto é a mais alta forma de nos indígenas invocarmos nosso criador, aquele que nos protege e  nos dá forma de lutar e continuar lutando pelos nossos direitos. Isso acontece há 518 anos. Por favor presidente desta casa, revogue essa regra”, pediu o cacique Tupinambá a presidência do Senado após um grupo de indígenas ser barrado na portaria da casa por estarem com seus maracás.

 



O fato ocorre recorrentemente. A última vez foi na semana passada, quando uma delegação de indígenas Krahô-Kanela esteve em Brasília para trazer denúncias sobre os impactos ambientais das atividades criminosas que afetam os territórios tradicionais em Tocantins. Os atos feitos por grupos econômicos do agronegócio espalham consequências de extrema gravidade para a região, atingindo os povos indígenas e seu território. A situação foi relatada na Comissão de Direitos Humanos do Senado.

Estão matando nossos rios, envenenando nossas águas

O grupo de indígena denunciou a retirada  ilegal de água dos rios Formoso, Javaé e Noroti por ruralistas no município de Lagoa da Confusão (TO). Outra triste realidade trazida pelas lideranças foi o uso indiscriminado de agrotóxico com graves consequências para o meio ambiente e a população da região.  Só existe ainda mata na terra indígena.


“O Governo não demarca nossa terra por decisão política. Vivemos uma total paralisação da demarcação das terras”, lamenta Wagner Kraho Kanela. Além de não contarem com seu território tradicional demarcado, no momento apenas regularizado, o povo Krahô-Kanela afirmara que dos 16 grandes projetos que estão sendo instalados nessa região, nenhum deles tem relatório de impacto ambiental. Na audiência no Senado, descreveram a forma desrespeitosa como os fazendeiros chegam na região e instalam seus “empreendimentos”, sem nenhum consulta aos povos indígenas.

Agronegócio retira água de rio dentro da Terra Indígena. Nenhuma liderança é consultada. Foto: Divulgação


As consequência desses projetos desrespeitosos com a vida dos povos já são sentidas na região. No período da chuva, de janeiro a maio, a área tradicional fica alagada em mais de 90%, obrigando a saída de famílias indígena.  Nas enchentes passadas, os Krahô-Kanela perderam toda a produção do povo. “Tudo isso acontece em total desrespeito a nossos direitos garantidos na Constituição e a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho da ONU. Ela garante às populações indígenas atingidas por empreendimentos a Consulta prévia, informada e consentida”, lamenta liderança Krahô-Kanela.

Uma delegação dos índios Tupinambá e Pataxó Hã-Hã-Hai, do sul da Bahia também participaram da audiência denunciando a situação de extrema violência que sofrem esses povos, com indígenas assassinados e os processos de regularização das terras totalmente paralisados.


16 grandes projetos que estão sendo instalados na região, nenhum deles tem relatório de impacto ambiental. Foto: Divulgação

Encaminhamento

Como encaminhamento da audiência, a Comissão de Direitos Humanos do Senado enviará ofícios ao presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) e ao Ministro da Justiça (MJ) exigindo urgência na conclusão do processo de demarcação da Terra Indígena Mata Alagada, do povo Krahô-Kanela. Ainda, assumir rever regimento interno do Senado que impede entrada de maracás e instrumentos espirituais dos indígenas.

POR EGON HECK, DO SECRETARIADO NACIONAL CIMI
FOTOS: Laila Menezes e Wagner Krahô Kanela





quarta-feira, 4 de julho de 2018

Torcer pelo Brasil ou pelos brasileiros








O veneno na mesa já está garantido. O pré sal virou pré salada  abocanhado pelas grandes companhias multinacionais. A natureza virou presa fácil da esperteza e sanha dos grandes interesses.  Depois de  estacionadas nas portas das terras indígenas por 30 anos,  partir da Constituinte de 1988, as grandes mineradoras estão sedentas, para aproveitar a euforia da Copa do Mundo, ou o trilho das eleições, para saciar a ganância abrindo a porteira das terras indígenas através da aprovação da “lei Jucá”, PL 1016 ou outros expedientes menos sutis.




Na surdina barulhenta da euforia da bola, tudo pode acontecer. Ou seja, o país anestesiado é prato cheio para os inescrupulosos vendilhões da pátria consumarem a rapina e dilapidação dos nossos recursos naturais e os sagrados direitos dos povos originários a seus territórios e vida digna. A PEC 215 e os inúmeros projetos anti indígenas na manga da camisa para serem colocados em votação a qualquer momento. Os povos indígenas continuam mobilizados, com um olho na bola e outro pé na estada rumo a Brasília. 

A vitória do Brasil pode significar a derrota dos brasileiros (empobrecidos e oprimidos) que são a grande maioria da população. Lembro-me muito bem de 1970, auge da ditadura militar civil, quando o Brasil conquistou o tricampeonato e se afundou na violência do AI5 e aprofundou o regime autoritário por mais uma década e meia.

Os tempos são outros e esperamos ter aprendido com a história. Os inimigos encastelados em seus privilégios e acumulação de capital continuam alimentando o  agronegócio e o neocapitalismo. Que atrás de cada grito de gol venha abaixo o golpe. Que com cada gole de cerveja sintamos também o gostinho amargo da falta de segurança, de saúde e educação de qualidade.

Demarcação já!
Egon Heck
Cimi –Secretariado


























segunda-feira, 25 de junho de 2018


Estudantes universitários indígenas e quilombolas na luta

Aprendendo e construindo a união


Enquanto em torno de 300 estudantes universitários, indígenas e quilombolas deixam o Centro de Formação Vicente Cañas, animados pela histórica semana de mobilização e luta pelos seus direitos, em Brasília, ficam as lições, certezas e desafios. A luta continua na certeza de que o passo dado nesta semana será muito importante, não apenas para terem condições objetivas de continuarem sua formação nas universidades, mas principalmente para que seus povos não percam direitos constitucionais, mas que tenham conquistas, unidos com os quilombolas e outras populações tradicionais. O momento é de somar, construir juntos a união necessária para conquistar a tão sonhada autonomia em seus territórios, na pluralidade de povos e culturas.

Na avaliação, no final da semana de mobilização e incidências políticas em vários órgãos do Estado brasileiro, emoção, lágrimas e compromisso. Dos mais de 300 estudantes indígenas e quilombolas de universidades de todas as regiões do país, foi destacada a importância da união promissora que vem se consolidando entre os povos indígenas e quilombolas. “Ajudamos a construir mais uma página bonita e importante na luta pelos direitos dos povos indígenas em nosso país. O que parecia apenas mais um sonho, aos poucos vai se tornando  realidade. Nós temos que continuar a luta dos nossos antepassados. Eles nos deixaram um testemunho de resistência, coragem e determinação. Se hoje estamos aqui é porque foi derramado muito sangue e sofrimento em nossas aldeias”, ressaltou um dos estudantes.
Era difícil imaginar, quando há quatro décadas se iniciou, através das assembleias indígenas, um novo movimento indígena no Brasil, momentos como os que estão sendo protagonizados pelos estudantes indígenas e quilombolas, como acabamos de ver nessa semana em Brasília. Foi um momento revelador da vitalidade e potencialidade das lutas dos povos indígenas e quilombolas para não apenas evitar retrocessos como pretendem as elites no poder, mas para contribuir com a sabedoria milenar na construção de sistemas de Bem Viver para todos os brasileiros.
A experiência de passar horas em ritual na estrada, na entrada do Palácio do Planalto, na Advocacia Geral da União, perceber o descaso e desdém com que os representantes do Estado tratam os povos indígenas, quilombolas e populações marginalizadas desse país, é uma experiência que cala fundo na alma e não se aprende nas universidades.


A descolonização necessária

Precisam não apenas chegar às universidades, mas nelas poder permanecer e contribuir com a sabedoria de seus povos, lutar pela descolonização desse espaço de saber e sabedoria. Os estudantes indígenas têm consciência de que essa é uma tarefa difícil pois o ranço colonial está impregnado nas estruturas das universidades onde ainda precisam enfrentar muitos preconceitos, desprezo e racismo.
O colonialismo interno e o neocolonialismo impregnam as relações de saber, poder e ser.  Mudanças profundas dessas estruturas só serão possíveis através de lutas de transformação dos sistemas dominantes. A presença de indígenas e quilombolas nas universidades poderá ser um desses espaços de transformação e superação do sistema colonial.


“Diante a conjuntura de golpes nas políticas de inclusão, dos ataques aos direitos indígenas e quilombolas arquitetados nos três poderes do Estado brasileiro, permaneceremos vigilantes contra toda política que tende a governar para os que são privilegiados há 518 anos e contra toda política social”. (Nota Pública – Permanência já! Movimento Nacional dos Estudantes Universitários Indígenas e Quilombolas).





Apesar dos mitos e grandes desafios que os povos indígenas e quilombolas tem pela frente, a manifestação foi de felicidade pela contribuição na luta. “Temos orgulho de estar na luta.
Ficaram sementes que farão crescer a nossa luta e nossa união”.

A luta vai continuar, com maior união, com a força dos encantados e dos que tombaram na resistência e luta pelos direitos.

Egon Heck          
fotos Laila/Cimi
Cimi Secretariado
Brasília 25 de junho 2018