ATL 2017

ATL 2017

segunda-feira, 11 de março de 2013

Kurusu Ambá : amor, ódio e omissão


Relembro com muito carinho e extrema preocupação, o doloroso caminho dessa comunidade indígena Kaiowá Guarani, na fronteira com o Paraguai, no município de Coronel Sapucaia, campeão brasileiro no ranking de violências.
Já completaram seis anos desde o momento resoluto e crucial da volta à sua terra natal, no tekohá Kurusu Ambá. Depois de décadas de luta e reivindicação de sua terra, a única opção que lhes restou, para exigir do Estado brasileiro o cumprimento  da Constituição demarcando suas terras, foi  voltarem para onde as cruzes sagradas de seus antepassados estavam plantadas.  Quando no dia 9 de janeiro de 2007, assassinas armas de fazendeiros e pistoleiros tiraram a vida da Nhandesi Xurete Lopes, iniciou-se a “via crucis” mais dolorosa de uma comunidade Kaiowá Guarani, nas últimas décadas.  Já foram cinco vidas ceifadas, vários feridos e um rosário de sofrimento sem fim.
A fome e a incerteza marcaram esses seis anos gerando momentos belíssimos de amor, de solidariedade e de luta destemida pelos seus direitos. A omissão do governo em avançar com urgência, na identificação e demarcação da terra e da justiça em punir os criminosos,  fez com que se gerassem tensões  na comunidade. E agora, quando  buscam um pequeno espaço, dentro do acordo feito na justiça, para oxigenar a esperança e sarar feridas, são novamente ameaçados pelo latifúndio e agronegócio.
A alegria, mesmo em momentos mais difíceis, sempre esteve estampada no face e coração dessa gente sofrida, principalmente das crianças.

Voltam a ser ameaçados, odiados e criminalizados, numa das mais sórdidas violências e ataques à vida e direitos de uma comunidade indígena  no país.
O cinismo do Estado chega ao ponto de levar ao banco dos réus vários membros da  comunidade, numa nítida armação, quando sequer  foram concluídos os  inquérito dos assassinos de Xurete, Ortiz e demais lideranças. A impunidade estimula violência, a omissão gera  tensões,  a morosidade é criminosa quando põem em risco a comunidade.

Egon Heck
Cimi, secretariado nacional
Povo Guarani Grande Povo, quaresma de 2013

quinta-feira, 7 de março de 2013

Direitos Humanos não se negocia, se defende!


Um densa nuvem se formou sobre Brasília no início da tarde desse dia 6 de março.  Parecia sinal de algo pesado no ar. No Congresso Nacional, na sala da Comissão de Direitos Humanos, uma disputa acirrada. A presidência da Comissão, de grande importância para a Casa (e nem tanto para a lideranças de partidos que tradicionalmente estiveram na presidência desse espaço das aspirações de amplas camadas do povo brasileiro e aguerridas minorias).

Sala apinhada de manifestantes de combativos setores e povos, que não admitiam ver a presidência cair em mãos de parlamentar publicamente defensor de teses racistas, fascista  e homofóbicas. O deputado pastor  Feliciano do PSC, era o indicado pelo partido para assumir a presidência. A urna sobre a mesa demonstrava em torno do que estava havendo disputa. Após algumas manifestações dos parlamentares, a favor da suspensão da sessão, em função de infringir  artigos do regimento interno, e outros, evangélicos, com pressa de que se consumasse o fato, o presidente da mesa,  deputado José Domingos Dutra, suspendeu a sessão.

Manifestações dentro e fora do plenário da Comissão de Direitos Humanos exigiam respeito a esse espaço do povo, rejeitando  o racismo, evitando retrocesso. Parlamentares pouco afeitos à democracia, chegaram a expressar seu desejo de que não mais houvesse a presença de representantes da sociedade organizada, que com apitos e gritos tentaram impedir a consumação do retrocesso.  Importantes manifestações como de Nilmário Miranda, primeiro presidente dessa Comissão, bem como de Ivan Valente,  Jean  e Erika Kokai, tiveram influencia decisiva na suspensão da sessão, transferindo a votação para hoje.

sábado, 2 de março de 2013

Eu matei Denilson Kaiowá Guarani



Ao  declarar-se autor do disparo que matou o jovem Denilson no tekohá Pindo Roky, município de Caarapó no dia 17 de fevereiro, o fazendeiro  Orlandino, inaugura uma nova estratégia.  Estaria ele apostando abertamente na impunidade?  Se for essa uma nova estratégia do agronegócio porque não se apresentam os assassinos dos professores Genivaldo e Rolindo Vera?  e declaram onde esconderam o corpo Rolindo? Porque não se apresentam os matadores do cacique Nisio Gomes e revelam onde ocultaram seu corpo? Porque não se apresentam os matadores de  Julite, de Ortiz e dezenas de Kaiowá Guarani nas últimas décadas? Será essa uma forma de despolitizar os crimes na luta pela terra?
O Deputado  Ze Teixeira, que tem fazenda incidindo na terra indígena Guyraroká, declarou". “Ora, o senhor Orlandino já se apresentou à Polícia Civil e confessou que foi o autor do disparo que acabou tirando a vida do adolescente, então que ele responda pelos atos sem que isso sirva como justificativa para invadir a propriedade dele. .... Não existe necessidade de proteger testemunha porque o crime já está esclarecido, o produtor se apresentou espontaneamente e está à disposição da Justiça” ( O progresso, 28-02-13)

Solidariedade nacional e internacional
Antes que fevereiro findasse e o papa deixasse definitivamente o Vaticano, uma  delegação de mais de uma dezena de entidades nacionais e internacionais foram ao tekohá Pindo Roky para se inteirar pessoalmente dos fatos e prestar sua total e irrestrita solidariedade ao povo Kaiowá Guarani.
" A comitiva é composta pela Anistia Internacional, Justiça Global, Plataforma Dhesca Brasil, FIAN Brasil, Sesi, Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e Comissão Pastoral da Terra (CPT) que foi acompanhada de lideranças indígenas Kadiwéu, do Conselho Terena, do Conselho Continental da Nação Guarani e da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB)... O documento irá denunciar, em nível internacional, a execução do jovem Kaiowá pelo proprietário da fazenda no último dia 17, convocando governo e sociedade civil a defenderem de maneira intransigente o "direito à vida, à integridade física e mental, da liberdade e da segurança dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul". Para as entidades, o crime e a realidade em que vivem os indígenas do estado representa uma situação de permanente violação dos direitos humanos, e de flagrante descumprimento da Constituição Federal e dos tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário" (Midiamax,  27-02-13)
No manifesto Em defesa da Vida declaram "Diante da vergonhosa situação imposta a esses seres humanos é necessário  declarar que as entidades baixo subscrevem apoiam incondicionalmente a defesa da posse das terras  tradicionais pelos povos indígenas, bem como apoiam a demarcação das terras indígenas e do amplo acesso desses povos aos recursos nelas existentes, única forma de colocar fim às violações de direitos e à violência contra que vem sendo imposta a esses povos, sendo urgente que o Estado brasileiro, através do governo federal assuma as obrigações constitucionais de respeitar, proteger e garantir a vida e os direitos humanos dos

povos indígenas". Omanifesto é assinado pela Associação Juízes para a Democracia – AJD, Anistia Internacional no Brasi, Conselho Indigenista Missionário – Cimi, Conselho Federal de Psicologia - CFP,Coordenadoria Ecumênica de Serviços - Cese, Comissão Pastoral da Terra - CPT, Comissão Regional de Justiça e Paz - CRJP, Justiça Global - JG, Plataforma Dhesca Brasil,Rede de Informação e Ação pelo Direito a se Alimentar - Fian Brasil, Survival International,Comitê Nacional de Defesa dos Povos indígenas de Mato Grosso do Sul – CONDEPI
A ousadia sem limites do agronegócio
Neste mês de fevereiro o bancada ruralista , do agronegócio deu mais uma mostra de suas insaciáveis intenções de impedir a demarcação das terras indígenas, expressa pela Katia Abreu do CNA (Confederação Nacional da Agricultura) "Kátia Abreu, reuniu-se ontem (21/02), no Palácio do Planalto, em Brasília, com a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, para pedir a suspensão dos processos de DEMARCAÇÃO DE TERRAS INDÍGENAS até que sejam julgados todos os embargos declaratórios do caso RAPOSA SERRA DO SOL."
O Parlamentar do Paraná, Nelson Padovani teve a brilhante iniciativa de propor um projeto de lei 237/2013 que torna possível a" posse indireta de até 50% das terras indígenas para produtores rurais, na forma de concessão."
Delegações de políticos, ruralistas, sindicalistas rurais da região da fronteira, vieram a Brasília pedir providências, contra  o que qualificam de invasões de paraguaios que se dizem índios e vem usufruir dos benefícios da cesta básica,  e das  ongs de interesses escusos.  Trata-se de iniciativas que visam dificultar o reconhecimento das terras e territórios dos povos indígenas no Mato  Grosso do Sul.
Egon Heck
Povo Guarani Grande Povo, Cimi 1 de maço de 2013

sexta-feira, 1 de março de 2013

Povos Tradicionais: união nas lutas


Quando no início da década de 70 os povos indígenas do Brasil começaram romper a grande cerca do isolamento e silêncio a que estavam confinados, não podiam imaginar que quatro décadas depois essa união estaria se estendendo aos povos e comunidades tradicionais de todo o país.
Para Ninawá Hunikui, do Acre, esse é um momento histórico, pois "o mundo está doente, precisa de cura". E os povos indígenas vem enfrentando e denunciando esse sistema há décadas, numa resistência secular e sabedoria milenar. E agora estão aí com os quilombolas, pescadores artesanais,  ribeirinhos, quebradeiras de coco, dentre outros, partilhando lutas e esperanças, construindo a união indispensável para enfrentar os poderes que os oprimem e insistem  em negar seus direitos. "A senzala não acabou. A escravidão continua", denunciam os participantes.
Na medida em que as realidades doídas, lutas sofridas, violências e resistências foram sendo partilhadas  ia ficando claro que só tem um caminho para reconquistar a liberdade e Bem Viver: lutar unidos pelos territórios livres.
Quando foi relatado e mostrado a violência que a marinha está cometendo há 40 anos contra a comunidade quilombola de Rio dos Macacos, na Bahia, uma grande indignação e revolta tomou conta do auditório. Foi aprovado uma moção de repudio ao que qualificaram de ações e políticas nefastas e genocidas.
Diante das narrativas de agressões, invasões, destruições e mortes em decorrência do insaciável avanço dos interesses do agro e hidronegócio, do grande capital, não basta botar a boca no trombone, denunciar, é preciso união para agir e pressionar os três poderes do Estado, que se colocam a serviço desse projeto de morte e opressão.
Na manhã do dia 28 uma delegação dos participantes do Seminário "Os territórios das Comunidades Tradicionais e o Estado Brasileiro Tiveram  encontro com o presidente da Câmara dos Deputados e o líder do PT, entregando documento com  suas  apreensões sobre os projetos que pretendem  desconstruir direitos dos povos e comunidades tradicionais, impedindo o reconhecimento dos territórios e promovendo a invasão e saque dos recursos naturais nas terras já reconhecidas.
Dentre as  principais deliberações ficou a ampliação da solidariedade entre os povos a partir das situações mais dramáticas, a formação política, ampliação das alianças e mobilizações desde nível nacional até internacional.
Segue a carta, na íntegra


CARTA DOS POVOS E COMUNIDADES TRADICIONAIS
“O mundo está doente; precisa de cura” (Ninawa, Hunikui, Acre)
No âmbito dos eventos da V Semana Social Brasileira e do Encontro Unitário dos Povos do Campo, das Águas e da Floresta, nós, povos indígenas, quilombolas, pescadores artesanais, seringueiros, vazanteiros, quebradeiras de coco, litorâneos e ribeirinhos, comunidades de fundo e fecho de pasto e posseiros de todo o Brasil, mulheres e homens de luta, nos encontramos em Luziânia GO, nos dias de 25 a 28 de fevereiro, para partilhar cruzes e esperanças e repensar as nossas lutas frente ao avanço cada vez mais acelerado e violento do capital e do Estado sobre os nossos direitos.
Vivemos o encontro como um momento histórico, que confirma a realidade indiscutível de uma articulação e aliança entre povos indígenas, quilombolas, pescadores artesanais e camponeses. O diálogo entre povos e comunidades que expressam culturas e tradições diferentes, frequentemente marcadas por preconceitos e rejeição, volta-se para a defesa e reconquista dos nossos territórios.  Este é o processo que unifica sonhos e estratégias na construção de um País diferente que se opõe à doença capitalista do agro e hidronegócio, mineração, hidroelétricas, incentivada e financiada pelo Estado, em nome do chamado desenvolvimento e crescimento do Brasil.
Não nos deixaremos curvar pelo avanço insaciável do capitalismo com o seu cortejo de políticas governamentais nefastas e genocidas. Território não se negocia não se vende não se troca. É o espaço sagrado onde fazemos crescer a vida, nossa cultura e jeito de viver, nos organizar, ser livres e felizes. “Territórios livres, já!!!”.

“A senzala não acabou. Ficamos livres das correntes e dos grilhões, mas continuamos presos ao cativeiro do sistema”. (Rosemeire, Quilombo dos Rios dos Macacos, Bahia)

Constatamos, mais uma vez, com dor e angústia, o retrocesso armado pelos três poderes do Estado para desconstruir, com leis, portarias, como a 303, PEC 215, ADIN 3239, e decretos de exceção, a Constituição, que garante, em tese, os nossos direitos territoriais e culturais. É revoltoso e doído o que estamos passando nas nossas aldeias, quilombos e comunidades: nossos territórios invadidos, a natureza sendo destruída, nossa diversidade cultural desrespeitada e a sujeição política via migalhas compensatórias. Querem nos encurralar! Sofremos humilhações, violências, morte e assassinatos, o que nos leva a tomar uma atitude.
O primeiro passo para uma verdadeira libertação do cativeiro a que estamos submetidos, é continuar o diálogo intercultural, para conhecermos melhor nossas diversidades, riquezas e lutas. Segundo passo é encontrarmos estratégias de unificação de nossas pautas para a construção de uma frente unificada, que possa se contrapor, com eficácia, ao capital e ao Estado, a partir de mobilizações regionais dos povos indígenas e das populações do campo, das águas e da floresta.

Estamos de olho nas ações dos três poderes do Estado brasileiro, para nos defendermos do arbítrio da desconstrução dos direitos e da violência institucional e privada.
Diante da total paralisia do Governo Dilma em cumprir a Constituição e na contramão da legislação internacional (OIT 169) que decretam o reconhecimento dos direitos dos povos indígenas e das populações tradicionais, exigimos a imediata demarcação e titulação dos nossos territórios.

Acreditamos que a nossa luta, na construção de projetos de Bem Viver, é sagrada, abençoada e acompanhada pelo único Deus dos muitos nomes e pela presença animadora dos nossos mártires e encantados.

Luziânia, 28 de fevereiro de 2013

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Vida e morte Guarani-Kaiowá: Denilson, Marçal e o Papa


Tiros na cabeça. O corpo estendido no chão é colocado em um carro e jogado longe do local da execução. Pistoleiros e seguranças da fazenda, cumprem a sina de matadores dos Kaiowá Guarani, na deflagrada guerra contra esse povo. Denilson Barbosa, de 15 anos, da aldeia de Tey’Ikuê, município de Caarapó, terra indígena do mesmo nome, é mais uma das centenas de vítimas do genocídio a que estão submetidos os Kaiowá Guarani no Mato Grosso do Sul.

O assassinato se dá num contexto de vários ataques e violências contra as aldeias e acampamentos desse povo no início de 2013. Denilson foi executado por ter ido pescar, no entorno da terra indígena.

A não demarcação das terras pelo Governo Federal é a principal causa do assassinato. Os confinamentos, como o de Caarapó, tornam as famílias desse povo cada vez mais dependentes da cesta básica, com uma alimentação deficiente e inadequada, aprofundando ainda mais a cultura da dependência e a infame realidade de menos de meio hectare de terra por habitante, poderá agravar ainda mais a situação de violência e morte.

Recentemente representantes dos interesses políticos e econômicos da região entregaram documento à presidente Dilma, reafirmando sua decisão contra o reconhecimento das terras indígenas.  Os mesmos objetivos manifestaram em reunião com o ministro da Justiça.

Enquanto a notícia da execução do jovem Kaiowá começava a ser divulgada, já na tarde do dia 18 de fevereiro, em Brasília, nas dependências da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, se instalava a Comissão Especial Guarani-Kaiowá, com o intuito de somar esforços na garantia dos direitos desse povo e evitar mais violências, hostilidades e negação dos direitos.  Infelizmente os Kaiowá Guarani não foram integrados à comissão, mas certamente o serão para a próxima reunião. Comissão com o mesmo escopo foi criada em nível da Secretaria Geral da Presidência da República, uma vez que a situação desse povo é prioridade neste ministério.

O Papa e os índios

Denilson Kaiowá poderia ser um dos jovens a se encontrar com o Papa na programada jornada Mundial da Juventude que em julho se realizará no Rio de Janeiro. O Papa renunciou e Denilson foi assassinado, após ser espancado, no Mato Grosso do Sul. Num início de noite no centro de Manaus, no Amazonas, em julho de 1980, o Guarani Marçal Tupã’y se dirigia com veemência ao Papa João Paulo II, denunciando a história de massacre de seu povo, e as violências contra os povos indígenas no Brasil. Três anos depois ele seria brutalmente assassinado, em Campestre, na terra indígena Nhanderu Marangatu, no município de Antonio João, onde morava e trabalhava como enfermeiro.

Foto: Paulo Suess

Chicão Xukuru, também externou ao Papa as preocupações dos povos indígenas no Brasil, quando de encontro com João Paulo II, em Cuiabá, no mês de outubro de 1991. Falou das ameaças que sofrem as lideranças indígenas que lutam pelos direitos de seus povos, especialmente a demarcação e garantia de suas terras e territórios. Pouco tempo depois foi assassinado.


Em 2007 os povos indígenas no Brasil expuseram ao Papa Bento XVI suas preocupações com a grave situação de negação de direitos e violências cometidas contra os povos indígenas em nosso país.


No momento da renúncia do Papa, dos assassinatos das lideranças indígenas e não garantia de seus territórios e recursos naturais, das contínuas invasões, pressões e destruição das terras indígenas, com perplexidade fica a indagação: quando haverá efetivamente respeito aos direitos desses povos e cessarão as violências e genocídios dos povos primeiros desse continente Abya Yala, América, Ameríndia?

Reza e resistência

As informações da região Kaiowá Guarani no Mato Grosso do Sul, dão conta do importante momento em que muitas comunidades estão fortalecendo sua resistência e luta, construindo casas de reza – oga pisy, e realizando os rituais, jerosy pucu. Uma demonstração de que a secular resistência e a afirmação de seus projetos de vida na busca da terra sem males, se fortalecem e lhes dá a garantia da vida e da vitória



domingo, 10 de fevereiro de 2013


A seca, o sertão  e a cerca

Tive a feliz oportunidade de conhecer um pouco do sertão nordestino nesta seca e as primeiras chuvas. Pude sentir e partilhar o milagre da vida, com a caatinga verdejando, os barreiros e açudes sangrando, e ver  a alegria voltando a galope no sertão. A reza e a fé do sertanejo são inquebrantáveis.

"Nois até que se vira, acha uma comidinha aqui, uma aguinha acolá, mas quem mais sofre com a seca é os animal. Coitado dos bichinho não tem muitas vezes pra onde se socorrer. Acaba morrendo..." Essa expressão de dor e compreensão da vida nos revela um pouco o sentimento do sertanejo calejado pela seca e que ama os seres que o rodeiam como ama o seu próximo.

Lago dos Amaro, no caminho entre Exu e a serra do Araripe

Vi muita cerca renovada, vi muitos casarões abandonados, senti a esperança brotando por entre as fendas do solo ressequido e vi sertanejos, como seu Tuntum, retorcidos pelo tempo e sofrimento, cheios de sabedoria e não desesperançados. Nem urubu dá conta. Doía o coração ver os barreiros e açudes secos, os rios, como o Brigida, sem água, apenas um leito de pedras indicando que ali era um rio.

 
O bode, o jumento e o boi

A imagem que mais choca é ver centenas de cabeças de gado apodrecendo na beira da estrada. De Exu a Ouricori, o cenário era desolador.

Não sendo um especialista na questão, partilho uma reflexão que o companheiro Gogo fez, comentando a seca e o sertão. " De fato, o gado bovino tem sofrido e morrido em quantidade nessa seca. Mas, essa é uma questão superada para o movimento social que defende a convivência com o semiárido, isto é, essa região nunca foi local adequado para se criar bois e vacas. Há uma comparação feita pelos educadores populares nos cursos de formação com uma estatística bem simples: um boi come por sete bodes, bebe por sete bodes, ocupa o espaço de sete bodes. Quando morre um boi, morre o equivalente a sete bodes.

De fato, quando se encontrar um bode morto de fome ou sede no sertão, é porque ali já não sobrou uma alma viva. Nessa seca os bois estão morrendo, os bodes estão gordos. O animal é adaptado, suporta as secas, mesmo que sua criação seja contestada por muitos técnicos como sendo um animal daninho e ameaçador da biodiversidade. Mas isso - dizem os técnicos do movimento social - é um problema de manejo, não de adaptação." 22/01/2013 | Roberto Malvezzi (Gogó)

Bem ilustra esse quadro um caso que seu Welington nos contou, a propósito da seca e desanimo de vários sertanejos dessa região da caatinga, do sertão pernambucano, do semiárido. "Meu amigo José de Pedro, já velho, aposentado, trabalhou a vida toda pra reuni um gadinho. Trabalhou 40 anos de sol a sol.Conseguiu mil cabeças de gado. Veio a seca braba desse ano e o resultado foi que seiscentas morreram. Sobrou apenas um gadinho magro e dívida no banco."  Esse é um dos muitos fatos semelhantes que ilustram a forte migração para as cidades, e a difícil sobrevivência da economia baseada no gado.

Outro exemplo que fomos ver é  a Fazenda Uruguai (foto). Outrora foi uma próspera propriedade onde se produzia, além de gado, cana , cachaça e muitos alimentos. Hoje a falda casa das setenta janelas, é alvo de assombrações e abandono.

O maior abandonado  encontrado com frequência nas beiras das estradas é o lendário jumento. Depois de sua secular contribuição , na escravidão e na liberdade,  ele agora está jogado à sua sina na beira das estradas. Decididamente o "cavalo de ferro", a moto, e outros arautos metais do progresso, estão levando os jumentos a figuras lendárias de um tempo que já foi. Andando por estradas do nordeste, quando se ve um veículo dando sinal de luz pode  esperar  jumentos logo adiante. E cuidado, pois quando decidem atravessar o asfalto o fazem ser temor, de cabeça baixa. O jumento tão decantado pelos poetas nordestinos e na voz de Luiz Gonzaga, agora parece caminhar celeremente para a fila da aposentadoria compulsória.

pluviômetro - chuva e conversa sob medida

chamou atenção foi um pequeno aparelho que em outras partes do país nem se houve falar - é o medidor da chuva, o pluviômetro. Cuidadosamente instalado da maioria dos terrenos e casas, ele é o puxador do assunto mais importante no sertão, pois mede e presenteia o sertanejo com o que há de mais sagrado: a água.

-Compadre, aqui choveu só dois milímetros, e aí no pé da serra?

-Aqui foram três, mas a gente espera mais, pelo jeito das nuvens. Mas lá Deus sabe o que fais. O feijão continua esturricado e o milho vai ter que esperá!

 

Olhando pras planta tudo triste, de boca aberta, aguardando ansiosamente uns pingos dágua, seu Gelsi, sertanejo calejado pela seca, aposentado, desfila sabedoria, ao falar do sertão e dos tempos atuais. "Sabe que o responsável por essa perda do feijão somos nois que antigamente sabia quando a chuva vinha e hoje acredita da televisão. O resultado tá aí. Falou que chovia, a gente plantou e a chuva não veio".

A guerra do Exu, Gonzagão e revolução.

Terra de Barbara de Alencar, avó do famoso escritor, José de Alencar. Ela liderou uma revolta republicana em 1817, sendo hoje considerada heroína nacional.

Exu exaltada, cantada em verso e  prosa por Luiz Conzaga, Gonzaguinha e inúmeros  poetas, cordelistas e artistas da terra.

Na região da Serra do Araripe, logo na divisa com o Ceará, foi criada a primeira área de conservação  do país, nos conta Antonio Alencar, grande conhecedor, da região, raizeiro muito conhecido e procurado na região e no país.

"Água para todos", um programa do governo federal, distribuindo cisternas no  seco sertão. Ouvi inúmeros comentários sobre o absurdo de se trazer cisternas inadequadas, a alto custo, ao invés de continuar as experiências de cisternas  exitosas em curso no semiárido.  

Apesar dos medos e ressentimentos persistirem, existe uma voz corrente de que "a guerra do exu acabou". Começa a predominar uma nova mentalidade na convivência, que tenta  enterrar na seca do sertão, os fatos de violência e vingança que se davam entre famílias dominantes na região.

A sinfonia dos sapos em intermináveis amplexos

Só alegria. Os amplexos dos sapos em ritual de acasalamento, se dava em meio à felicidade que povoa cada coração sertanejo. Nunca vi tanto sapo reunido numa pequena porção d'água. Era sapo de tudo que é tamanho, desde os gigantes sapo cururu, até uns sapinhos minúsculos. De um dia para outro a água estava qualhada de ovinhos. E num repente já estavam aí os girinos.Pareciam que tinham pressa. Talvez também os afetasse o fantasma de nova seca. Passamos noites a meditar sob o olhar atento da lua e a sinfonia do coachar dos sapos.

 

Curiosidades e lições

A diferença de 1 (um voto) nas últimas eleições para prefeito. Vitória dos "boca negra", derrota dos "boca branca". Denominação corrente na cidade de Exu, que vem da década de 60, com a divisão entre os dois partidos UDN e PSD.

Apesar de hoje não ter uma base em partidos políticos ou mesmo base de famílias, a denominação continua muito presente nas rodas de conversa.

A cidade de Exu e região ainda respirava  Gonzagão


Depois da rodar por mais de cinco mil quilômetros de estrada do centro (Brasília) ao nordeste do país, em seis estados,  impressiona o grande fluxo de veículos) a sensação de que de fato estamos construindo o caos. Até quando continuaremos enchendo ainda mais as estradas de veículos de todo tipo, colocando o Brasil sobre rodas, no círculo vicioso de que não poderemos correr o risco de desacelerar a indústria automobilística, o Brasil sobre rodas?

 
Mas a impressão mais forte é com relação à água. Da cultura do desperdício na maior parte do país, á secura do sertão, onde a água pode salvar ou matar vidas. Cada gota vale ouro. A cisterna é um espaço sagrado a ser olhado e cuidado como preciosidade. O semiárido nordestino de hoje talvez seja o planeta terra de amanhã, caso não forem tomadas providencias urgentes, desde os hábitos pessoais, até as políticas públicas nacionais com relação à água.

.Egon e Laila

Brasília, fevereiro de 2013



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

De Cabral, a Cabral a Cabral


 

Quando os povos indígenas do Brasil imaginavam estar livres dos “Cabrais”, do início da invasão, até o da Constituinte de 1988, quando o então Bernardo Cabral tentou eliminar os povos indígenas através de seu substitutivo, eis que ressurge outro Cabral, o governador do Rio de Janeiro, para negar direitos indígenas. Sempre com nobres intenções: "civilizar, desenvolver, aculturar, “turismar”, até fazer estacionamento...". E nesse jogo pra inglês ver, conforme Romário, vale tudo. Até comunicados oficiais dizendo ser uma ofensa às aldeias indígenas, atribuir tal nome aos "indígenas invasores do prédio do ex-museu do índio".

 

É jogo duro. Os povos indígenas que o digam. A Copa do Mundo e as Olimpíadas estão aí no horizonte próximo. E aí vale tudo, ou quase tudo. Não é apenas um pequeno grupo de indígenas que estão ameaçados de remoção. Conforme matéria do The New York Times, em março do ano passado, "170 mil pessoas serão despejadas até Copa do Mundo e Olimpíadas" (FSP, 2/02/13).

 

O jogo duro do agronegócio

 

A capitã, Kátia Abreu, já está com o time em campo há tempo. Promete erradicar as "inseguranças jurídicas", o quanto antes. Afinal de contas eles são os donos do campo e da bola. Os Guarani-Kaiowá, Terena... que se cuidem. O jogo promete ser pesado. A treinadora espera contar com o apoio do Legislativo, Executivo e Judiciário.  Se não ganharem no campo, no tapetão será certo. E não tem tempo para esperar. Essa semana mesmo já terá um encontro de alto nível, conforme podemos constatar:

 

"Lideranças rurais dos estados do Paraná e do Mato Grosso do Sul, acompanhados pela presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), senadora Kátia Abreu, entregaram à presidente Dilma Rousseff um documento relatando a insustentável situação de insegurança jurídica vivida pelos produtores que tiveram suas propriedades invadidas por grupos indígenas e cidadãos paraguaios na fronteira do Mato Grosso do Sul e do Paraná, nos municípios de Iguatemi, Douradina, Itaporã, Paranhos, Tacuru, Coronel Sapucaia e Ambaí, além de Guaíra e Terra Roxa, respectivamente. A presidente da República determinou ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e à ministra chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, que recebam uma representação de produtores e a presidente da CNA, no próximo dia 7 de fevereiro, em Brasília, para tratar do assunto (publicado em 04/02/2013).

 

A solução conforme Kátia (Cabral) Abreu

 

"Para a presidente da CNA, é fundamental que o STF confirme o efeito vinculante das condicionantes do julgamento da Raposa Serra do Sul, ao julgar os embargos declaratórios impetrados junto ao tribunal. Somente assim, a AGU (Advocacia Geral da União) poderá reeditar a Portaria 303, convertendo as orientações do STF em ato normativo. Dessa forma, acredita que será possível restabelecer a segurança jurídica nas áreas rurais invadidas ou em conflito por ameaças de invasão. A senadora Kátia Abreu informou que visitará o STF na próxima semana, quando pretende “manifestar a sua preocupação com a questão" (publicado em 04/02/2013).

 

Os povos indígenas terão um jogo duro pela frente. Demarcar, garantir as terras e implementar políticas públicas condizentes, será muito difícil, pois os estádios de futebol estão atrasados, os sistemas viários para o bom fluxo dos turistas, estão devagar quase parando e alguns até já suspensos... E ainda vem os índios exigindo recursos para suas terras, saúde, educação, produção... Assim não vai ter gol. Mas a Secretaria Especial da presidência da República já assumiu a questão Kaiowá Guarani, como prioridade das prioridades. A questão agora é entrar em campo e fazer o gol.

 

Egon Heck

Povo Guarani Grande Povo, início de fevereiro, véspera de carnaval de 2013

 

 

 

Quando os povos indígenas do Brasil imaginavam estar livres dos “Cabrais”, do início da invasão, até o da Constituinte de 1988, quando o então Bernardo Cabral tentou eliminar os povos indígenas através de seu substitutivo, eis que ressurge outro Cabral, o governador do Rio de Janeiro, para negar direitos indígenas. Sempre com nobres intenções: "civilizar, desenvolver, aculturar, “turismar”, até fazer estacionamento...". E nesse jogo pra inglês ver, conforme Romário, vale tudo. Até comunicados oficiais dizendo ser uma ofensa às aldeias indígenas, atribuir tal nome aos "indígenas invasores do prédio do ex-museu do índio".

 

É jogo duro. Os povos indígenas que o digam. A Copa do Mundo e as Olimpíadas estão aí no horizonte próximo. E aí vale tudo, ou quase tudo. Não é apenas um pequeno grupo de indígenas que estão ameaçados de remoção. Conforme matéria do The New York Times, em março do ano passado, "170 mil pessoas serão despejadas até Copa do Mundo e Olimpíadas" (FSP, 2/02/13).

 

O jogo duro do agronegócio

 

A capitã, Kátia Abreu, já está com o time em campo há tempo. Promete erradicar as "inseguranças jurídicas", o quanto antes. Afinal de contas eles são os donos do campo e da bola. Os Guarani-Kaiowá, Terena... que se cuidem. O jogo promete ser pesado. A treinadora espera contar com o apoio do Legislativo, Executivo e Judiciário.  Se não ganharem no campo, no tapetão será certo. E não tem tempo para esperar. Essa semana mesmo já terá um encontro de alto nível, conforme podemos constatar:

 

"Lideranças rurais dos estados do Paraná e do Mato Grosso do Sul, acompanhados pela presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), senadora Kátia Abreu, entregaram à presidente Dilma Rousseff um documento relatando a insustentável situação de insegurança jurídica vivida pelos produtores que tiveram suas propriedades invadidas por grupos indígenas e cidadãos paraguaios na fronteira do Mato Grosso do Sul e do Paraná, nos municípios de Iguatemi, Douradina, Itaporã, Paranhos, Tacuru, Coronel Sapucaia e Ambaí, além de Guaíra e Terra Roxa, respectivamente. A presidente da República determinou ao ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e à ministra chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, que recebam uma representação de produtores e a presidente da CNA, no próximo dia 7 de fevereiro, em Brasília, para tratar do assunto (publicado em 04/02/2013).

 

A solução conforme Kátia (Cabral) Abreu

 

"Para a presidente da CNA, é fundamental que o STF confirme o efeito vinculante das condicionantes do julgamento da Raposa Serra do Sul, ao julgar os embargos declaratórios impetrados junto ao tribunal. Somente assim, a AGU (Advocacia Geral da União) poderá reeditar a Portaria 303, convertendo as orientações do STF em ato normativo. Dessa forma, acredita que será possível restabelecer a segurança jurídica nas áreas rurais invadidas ou em conflito por ameaças de invasão. A senadora Kátia Abreu informou que visitará o STF na próxima semana, quando pretende “manifestar a sua preocupação com a questão" (publicado em 04/02/2013).

 

Os povos indígenas terão um jogo duro pela frente. Demarcar, garantir as terras e implementar políticas públicas condizentes, será muito difícil, pois os estádios de futebol estão atrasados, os sistemas viários para o bom fluxo dos turistas, estão devagar quase parando e alguns até já suspensos... E ainda vem os índios exigindo recursos para suas terras, saúde, educação, produção... Assim não vai ter gol. Mas a Secretaria Especial da presidência da República já assumiu a questão Kaiowá Guarani, como prioridade das prioridades. A questão agora é entrar em campo e fazer o gol.

 

Egon Heck

Povo Guarani Grande Povo, início de fevereiro, véspera de carnaval de 2013