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terça-feira, 25 de dezembro de 2012
sábado, 15 de dezembro de 2012
Avante Xavante de Marãwatsédé
Argumentos falazes
Há poucos dias vi estampado na mídia manchetes raivosas e mentirosas dizendo que mais de 7 mil pessoas seriam jogadas na miséria com a sua retirada da terra indígena Xavante de Marãwatsédé.
“Aproximadamente 700 índios xavantes poderão ser donos de um latifúndio já ocupado e beneficiado por cerca de 7.000 pessoas...Até o dia 6 de dezembro, aproximadamente 7.000 pessoas terão que desocupar a gleba Suiá-Missú, localizada entre os municípios de Alto da Boa vista, Bom Jesus do Araguaia e São Félix do Araguaia “Rui Prado – Justiça Injusta)
Os números são mentirosos. Conforme levantamento do IBGE. são apenas um pouco mais de 2 mil pessoas que vivem nessa área.
Ao afirmar que índios e não “índios viviam em harmonia” e que os “ índios são entraves econômicos”, a mídia repete os mesmos jargões mentirosos como nos tempos da ditadura militar, quando os índios Kaingang e Guarani do sul do país, começaram a expulsar os milhares de invasores de seus territórios. Certamente havia harmonia entre os grandes invasores e aqueles que estavam sendo iludidos com a promessa de legalização das terras que estavam sendo invadidas. E quem sabe existia a harmonia de cemitérios, entre os índios assassinados e os deportados para centenas de quilômetros de seu território originário. Lembro-me bem que o discurso dos invasores na década de 70 era de que se tirassem os “brancos” das terras indígenas, estes morreriam de fome e abandonariam suas terras para acompanhar os que estavam sendo retirados. Mais de 30 anos depois, vemos os povos indígenas do sul em suas terras em grande parte recuperadas, construindo, com dificuldade, com dignidade seus projetos de autonomia bem viver.
A volta da vida
“Os animais não podem sofrer mais com tanta destruição da natureza. Quando a terra for devolvida para nosso povo, a floresta vai viver novamente. Vão voltar animais e plantas. Nossa mãe vai ficar muito forte e bonita como sempre foi. É assim que vai ser.” (Cacique Damião Paridzane – dezembro de 2012)
As palavras carregadas de sabedoria e profecia, são a certeza de que algo de novo e melhor acontecerá para todos, Xavantes e a natureza. Porém as ameaças e os riscos continuam a rondar as terras indígenas e seus projetos de vida e autonomia. Será preciso solidariamente lutar por transformações profundas em nosso modelo de sociedade para dar concretude aos sonhos do cacique Damião
D. Pedro, a amigo dos Xavantes ,dos posseiros e pobres

Representantes dos Xavante e Borora, foram levar seu apoio às comunidades Kaingang e Guarani do sul do país, em 1976. Hoje esses povos prestam seu apoio e solidariedade aos Xavante de Marãwatsédé, na luta pela retirada de todos os invasores de seu território.
Egon Heck
Povo Guarani Grande Povo
sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Kaiowá
Guarani – não agüentamos mais
“Diga ao povo que avance. Avançaremos nas retomadas”. Com
essa determinação os Kaiowá Guarani no
Congresso Nacional em Brasília, deixaram claro sua decisão de não mais ficar
eternamente por decisões e ações que nunca vem.

A Campanha "Eu apoio a Causa
Indígena
A Associação de Juízes pela Democracia, juntamente com o
Cimi, efetuaram, no decorrer deste ano, uma importante campanha de cartas de
apoio aos povos indígenas, conseguindo mais de 20.000 assinaturas. Dentre as
adesões figuram ilustres nomes da luta
dos direitos humanos no país e no mundo.
Uma delegação fez a entrega no gabinete do presidente do STF,
Joaquim Barbosa. Foi manifestado o interesse de dar urgência ao julgamento das
ações que envolvem os direitos dos povos indígenas.
Os três poderes se esmeraram em suas ações sutis ou virulentas
contra os povos indígenas neste ano de 2012. A bancada ruralista e seus aliados
das empreiteiras e mineradoras, depois da vitória no Código Florestal,
investiram todas as suas forças em impedir a demarcação das terras indígenas -
PEC 218 e 038, além de abrir as terras indígenas para a saque dos recursos
naturais, principalmente madeira e minérios - PL 1610.
O Judiciário, especialmente nas instância locais, tem se
mostrado zeloso em julgar com rapidez as
reintegrações de posse contra os índios, e extremamente lento e com decisões
contrárias aos direitos constitucionais dos povos indígenas. Uma das raras
exceções foi a decisão do Supremo Tribunal Federal, reconhecendo o território
dos Pataxõ-Hã-Hã-Hã. Diz se que a justiça tem uma velocidade de onça para os
ricos e de jaboti para os índios e pobres.
"Sem a energia da natureza em
nossa alma"
Oriel Benites, membro do Conselho Continental Guarani, em
pequeno manuscrito, assim expressou seu sentimento com relação à luta que vem
enfrentando, para reconquistarem seus territórios e condições de viverem o seu
teko - jeito de viver Guarani:
“Nós estamos vivendo
sem a energia da natureza na nossa alma, no nosso espírito, até no nosso mundo fisicamente
percebemos isso. Precisamos desse espaço, nossa terra sem males, onde está
derramado um pouco do nosso sangue, osso
e carne, que corrompe sempre naquela
terra que uma boa parte ainda está viva, onde queremos sentir essa força da
natureza no nosso sangue, na nossa vida. Essa necessidade que nos motivou para
lutar porque nossa força em conjunto é imbatível.
A terra onde estão plantadas soja, cana, criação de animais
ou empresas de agrotóxicos, entre outras no Mato Grosso do Sul, essa terra está repleta de sangue indígena. O dinheiro
que os grandes empresários, fazendeiros, garimpeiros, proprietários das
cerrarias e muitos outros proprietários
aqui no Brasil estão manchados de sangue Kaiowá Guarani.
Nós queremos viver de maneira que a nosso cultura, costume e
rituais permite – ar fresco, água da mina, frutas naturais. Essa é nossa santa
ceia que não temos mais por causa da superlotação nas áreas demarcadas pelo SPI
(confinamentos) e a demora da demarcação
da terra Kaiowá Guarani”
A partir do dia 10 deste mês mais uma comissão estará
visitando a situação de genocídio a que estão submetidos os Kaiowá Guarani,
especialmente nas áreas de conflito, retomadas, acampamentos à beira das
estradas e confinamentos. Está prevista uma dezena de deputados e senadores que
estão ouvindo também os não indígenas, fazendeiros, membros do agronegócio e
representantes do Estado.
Egon Heck
Povo Guarani Grande Povo, 8 de dezembro de 2012
O dia internacional do Direito à Verdade
O dia internacional do Direito à Verdade
Numa
audiência pública despretensiosa, presidida pela aguerrida deputada Luiza
Erundina, o Brasil preencheu as condições para levar à aprovação do Congresso a
instituição do "dia internacional do direito à Verdade". O Dia 24 de
março, em homenagem Dom Romero das Américas, foi instituído pela ONU, em 2010,
como a data comemorativa ao Direito à
Verdade em todo o mundo.
Os
participantes da audiência pública, insistiram na importância simbólica dessa
data, pois será um momento a mais para que o país busque fazer justiça,
recuperando a memória perigosa das vítimas da secular resistência no país e no
continente.
Em nome do
Cimi expus algumas reflexões que passo a socializar.
Desconstruir a memória colonialista.
Desconstruir
a memória do invasor, do colonizador, do capital nacional e internacional,
ontem e hoje, significa não apenas reconhecer a pluralidade de povos ,
culturas, crenças, organizações sociais e direitos consuetudinários em nosso
país, mas requer a imediata devolução de seus territórios, e as condições para
viverem em paz e com dignidade. Isso requer rever o panteão dos heróis, dentre
os quais estão vários matadores de índios, ter a coragem de fazer fogueiras com livros que
continuam veiculando mentiras sobre os povos indígenas em nossas salas de aula,
veicular a verdade com relação à realidade, lutas e valores dos povos
indígenas. Dizia ontem, nesta casa a indígena Pierangela Wapixana, de Roraima,
"é difícil os não índios nos entenderem, enxergarem além das aparências, a nossa relação com a mãe terra e
a natureza,nosso espírito, nossa alma, nossos sentimentos".
Extirpar a
impunidade, violência e injustiça
Infelizmente
continuamos sob o manto da arbitrariedade que estimula a violência, promove a impunidade e sacraliza a injustiça.
Precisamos urgentemente descolonizar não apenas a memória, mas como diz Fernando
Ortiz, em recente entrevista "A descolonização deve ser não apenas
política ( do poder) e econômica, se não também mental, cultura e
ideológica".
Portanto
temos uma árdua e imprescindível tarefa de mudanças profundas, sistêmicas e
mentais, para o qual a criação da comissão indígena da verdade e o dia
internacional da verdade poderão contribuir.
Comissão
Indígena da Verdade
Nas duas
décadas da ditadura militar (1964 a 1985) não imaginávamos que um dia fosse
criado uma Comissão da Memória, Verdade e Justiça. Menos ainda que se buscasse
um dia restaurar a verdade com relação às mortes e violências sofridas pelos
povos indígenas em decorrência da ação do Estado brasileiro. Parece que finalmente estamos saindo de um
pesadelo e massacre secular dos povos indígenas no Brasil. São passos tímidos e
difíceis não apenas para criar a Comissão, mas principalmente fazê-la
efetivamente funcionar e ir a fundo nos meandros obscuros da tortura, mortes e
violências. Porém os passos iniciais são promissores e vai agora depender de
empenho e eficiência de todos nós brasileiros e aliados dos povos indígenas e
em especial desses povos. Nos dizia com contido entusiasmo, o guerreiro
indigenista, Egydio Schwade “Estamos num momento importante da história
brasileira. Finalmente a questão indígena está sendo incluída num programa que
poderá trazer à luz fatos tenebrosos,
massacres, genocídio de povos e comunidades indígenas.” E pois a mão na massa. Produziu um texto com
mais de 200 documentos indicando a morte de mais de 2.000 índios Waimiri
Atroari, com armas pesadas e até bombardeios, nas décadas de sessenta e
setenta, por ocasião da construção da estrada BR 174. Certamente muitos outros
fatos virão à tona.
Um novo horizonte – O Bem Viver e a
Terra Sem Males
Apesar do
mar de sofrimento, violência, injustiça e opressão em que está mergulhado o
Continente e nosso país, a institucionalização do dia internacional de Direito
à Verdade, soa como um leve ruflar das asas de um beija flor em meio a um
temporal.
Porém passos
importantes estão sendo dados em países como Bolívia e Equador, que tem o Bem
Viver inscritos em suas constituições e estão caminhando para o reconhecimento
dos Direitos da Mãe Terra – Pachamama,
os Kaiowá
Guarani estão construindo importantes estratégias comuns nos quatro países
(Brasil, Paraguai, Argentina e Bolívia, para mutuamente se apoiarem na luta por
seus direitos, especialmente os territórios. O Conselho Continental da Nação
Guarani é uma experiência esperançosa no contexto de luta e reconhecimento de
direitos, para além das fronteiras dos
países.
Na busca da
Terra Sem Males somos todos caminhantes guiados e precedidos por nossos irmãos
Kaiowá Guarani. Que o dia 24 de março se torne não apenas mais um dia
comemorativo, mas que seja o dia de mudanças em nossas mentes, corações e
estruturas na perspectiva da convivência respeitosa e digna de todos os povos.
Egon Heck -
Cimi , 6 de dezembro de 2012
sexta-feira, 16 de novembro de 2012
Nos rugidos
do monstro
A mineração
é uma grande preocupação. Especialmente para os povos indígenas, quilombolas e
comunidades tradicionais, em cujo subsolo existem minerais. Poderão ter em breve seus territórios
removidos e transformados em infinitas crateras. Em vista disso movimentos sociais e aliados
das populações que historicamente continuam sendo vítimas de modelos de
desenvolvimento que os impactam e destroem a natureza, promovem encontros e
reflexões para traçar suas estratégias diante da voracidade da exploração
mineral.
Durante três
dias, participantes de diversas regiões do país, onde existem projetos de
exploração mineral em curso, ou que já são impactados por séculos de mineração,
como em Minas Gerais ,
Goiás. CPT e Cimi socializaram as realidades vivenciadas pelas comunidades e
povos indígenas afetados.
Foi um
primeiro passo para aprofundar e entender uma realidade tão complexa, que faz
parte do atual modelo de desenvolvimentismo do país, dentro da lógica do
mercado globalizado.

O
preocupante é que o novo Marco Regulatório da Mineração, está sendo tratado de
forma fechada pelo governo, estando enclausurado na Casa Civil, prestes a ser
colocado à aprovação, sem nenhum debate e participação da sociedade civil. Ao que tudo indica, ele terá a característica
de aceleração da exploração dos recursos minerais, com a modernização legal,
através de uma Agência Nacional reguladora, como tem acontecido em outras áreas
econômicas. Às comunidades certamente serão oferecidos fundos de migalhas da
mitigação dos impactos.
Como se
trata de uma estratégia arquitetada pelo governo dentro do modelo de aceleração
agroextrativista para exportação, é possível entender as pressões para liberar
a mineração em terras indígenas, quilombolas e remover todos os obstáculos para
incorporar todas as áreas disponíveis nesse processo de exploração.
Diante desse
quadro de ameaças e incertezas, os participantes do encontro, e diante dos
desafios levantados, viram a importância de ampliar a discussão e reflexão nas
comunidades, trocar experiências, realizar intercâmbios, sistematizar
informações e articular os diversos segmentos que serão afetados pela
aceleração dessa atividade extrativa.
Antonio
Brand na casa da ONU
Num ritual
singelo e breve, os representantes da ONU no Brasil, o ministro das Relações Exteriores
e algumas dezenas de autoridades, juntamente com os representantes dos
homenageados, realizaram o ato de inauguração oficial da casa da ONU no Brasil
ou seja, o complexo Servio Vieira de Melo.
A relação
dos homenageados representa um panteão de brasileiros ilustres e lutadores
deste país, declarou o ministro de Relações Exteriores. Dentre eles estão João
Candido, Vinícius de Moraes, Zumbi dos Palmares, Chico Mendes, Maria da Penha,
Antonio Brand, dentre outros.
Antonio
Brand se destacou como aguerrido batalhador da causa dos povos indígenas no
Brasil, atuado por 13 anos no Cimi, sendo secretário da entidade por oito, no período
da Constituinte. Iniciou sua inserção na causa indígena através da OPAN -
Operação Amazônia Nativa, da qual foi coordenar. Enquanto fazia o mestrado e
doutorado sobre o povo Kaiowá Guarani desenvolveu trabalhos em benefício de
comunidades deste povo, estando ligado à Universidade Católica Dom Bosco de
Campo Grande, MS.
Cimi em
clima de Congresso
Nesse clima
de animação contagiante vão chegando os primeiros participantes. Na verdade são
os voluntários da harmonia do ambiente com o espírito da festa, reflexão e
luta.
Do dia 20 a 23 mais de duas centenas
de missionários, lideranças indígenas e aliados da causa do Brasil e do
continente estarão realizando um grande momento de celebração dos 40 anos da
entidade e refletindo sobre o momento atual e as perspectivas da construção de
um outro mundo possível, do Bem Viver para todos.
Egon Heck - Cimi
40 anos, Brasília 16 de novembro de 2012.
quinta-feira, 8 de novembro de 2012
P ovos Indígenas do Maranhão, em Brasília

queremos nossa terra,
demarcada, respeitada,
livre de invasões,
sem madeireiras ou fazendeiros,sem mineradoras ou garimpeiros!
livres dos males civilizados,
queremos justiça e paz.
Da
aldeia aos três poderes
Aos poucos foram chegando,
das diversas regiões do Estado do Maranhão, para uma longa viagem de quase mil
e quinhentos quilômetros. Corpos pintados, cocares, bordunas pesados, flechas
certeiras. O destino é chegar aos que decidem, aos detentores do poder, para
lhes dizer: queimem a portaria 303, revoguem aos leis que ferem nossos direitos,
respeitem os povos indígenas do Maranhão e de todo país.
Em frente ao Congresso as fotos e filmagens diante de casas tão
estranhas. Forte sensação de quem só conhecia essa paisagem por alguma foto ou
notícia de radio.
Portas
fechadas, corações indignados

No auditório da Funai, tiveram encontro com a presidente do órgão,
Marta Azevedo e sua equipe. Puderam rapidamente expor os graves problemas que
muitas comunidades enfrentam, especialmente aos invasões de fazendeiros ,
madeiros, garimpeiros e grandes projetos do governo. Diante disso exigiram
ações mais eficazes da Funai e mais agilidade e datas para os processos de
regularização de seus territórios. Apesar da descrença pela histórica omissão
do governo, puderam expressão sua indignação e expor suas exigências.

Os povos indígenas do Maranhão
reafirmam o posicionamento já publicado pelas organizações e delegações
indígenas das outras regiões que desde final de julho, após a edição dessa
Portaria, manifestam-se veementemente por sua revogação integral e imediata.
Reforçamos aqui a
nossa insatisfação com a conjuntura política atual que demonstra claramente os
acordos do governo com os grupos econômicos desse país, cujos interesses são a
exploração das riquezas naturais, construção de hidrelétricas, refinarias,
plantios de monocultivos, ferrovias, hidrovias e rodovias, que facilitam a
exportação e mercantilização dos territórios indígenas.
Portanto, nós
povos indígenas do Maranhão, juntamente com os demais povos do Brasil, só
cessaremos a luta quando os nossos direitos forem respeitados e a Portaria
definitivamente revogada. " Brasília, 05 de Novembro de 2012.

Povo Guarani Grande Povo
Cimi 40 anos, Brasília 8 de novembro de 2012
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
domingo, 4 de novembro de 2012
Vergonha Nacional

Um minuto de silêncio. Senadores, deputados, lideranças Kaiowá Guarani, repórteres, representantes de órgãos do governo e do Ministério Público, aliados da causa, em pé, homenageiam a memória dos professores Genivaldo e Rolindo, que há exatos três anos foram cruelmente assassinados quando retornaram à sua terra, tekoha Ypo'i, município de Paranhos, no Mato Grosso do Sul. Até hoje o corpo de Rolindo não foi localizado e nenhum dos assassinos punidos. Aplausos. Os lutadores indígenas tem sua memória reverenciada, apesar de sua luta pela terra continuar emperrada, na malvadeza e burocracias do poder.
Na parede fria de um dos auditórios do Senado, onde se realizava uma audiência pública sobre a questão Kaiowá Guarani, estavam projetadas as imagens do corpo do professor Genivaldo Vera, boiando nas águas do rio ypo'i, o "sorriso matado", do cacique Nisio Gomes, a líder Damiana junto a seus barracos queimados, à beira da estrada, lembrando seu marido e três filhos mortos por atropelamento, ...outro membro da comunidade de Apika'y espancado por ocasião da expulsão de sua terra...Um quadro tétrico, retrato da "barbárie civilizada"! ou genocídio do século XXI como muitos tem visto a violência contra os Guarani Kaiowa.
No décimo andar de um belo edifício em Brasília, um anúncio eufórico de uma "vitória". Os índios de Pyelito Kuê não serão despejados. A liminar acaba de ser caçada na 3ª Vara da Justiça Federal , em São Paulo. O ministro da Justiça José Eduardo Martins Cardoso leu pausadamente a decisão. "por tudo quanto foi exposto, a melhor solução é circunscrever a permanência dos índios num espaço de 1 (um) hectare, ou seja, 10 mil metros quadrados, até o término do procedimento administrativo de delimitação e demarcação das terras na região" e a sabia e douta decisão continua "os índios devem ficar exatamente onde estão agrupados, com a ressalva de que não podem estender o espaço a eles reservado em nenhuma hipótese". O cantador popular concluiria "é a parte que lhes cabe neste latifúndio!!!". Dia 30 outubro de 2012. Século 21. A justiça decide reeditar os "confinamentos" ou "campos de concentração", conforme manifestação de lideranças indígenas, parlamentares e representantes dos movimentos sociais. A deputada Érica Kokai afirmou que "Confinamento é genocídio" e que é esse o processo em curso no Mato Grosso do Sul. A deputada Janete Capibaribe afirmou que a realidade dos Kaiowá Guarani envergonha a sociedade e nação brasileira. Nesse mesmo tom o Deputado Pe. Tom, presidente da Frente Parlamentar Indígena, afirma que o que acontece com os Kaiowá Guarani se assemelha ao que se passou com os judeus no tempo do nazismo.
As lideranças Guarani, dentre os quais o cacique Lide Lopes de Pyelito Kuê, Otoniel Ricarte, Eliseu Lopes, dentre outros, manifestaram em diversas oportunidades, nesta semana, sua contrariedade com a decisão judicial. "Ficamos meio felizes, porque a comunidade não vai ser expulsa, mas ficamos por inteiro envergonhados, porque nos fecharam dentro de um hectare". Lindomar Terena disse considerar um absurdo deixar os índios dentre de um "chiqueirinho".
Até o linguajar "mantença e silvícolas", nos remete a séculos passados. Não serão necessários grandes esforços para imaginar o drama de sobrevivência dessa comunidade, até que o governo conclua o trabalho de identificação e demarcação das terras na região. Quantos anos de tortura e sofrimento estarão contidos nessa decisão? Quantos meses, anos ou décadas ainda se arrastarão os infindáveis processos de regularização das terras indígenas na região?
Semana Kaiowá Guarani em Brasília
No Ministério Público Federal, ouviram das Procuradoras Débora Duprat e Raquel Dodge a promessa de atitudes enérgicas de cobrança, inclusive judicial, das responsabilidades do governo federal com relação ao não cumprimento do Termo de Ajustamento de Conduta-TAC, no qual todos os relatórios de identificação das terras Kaiowá Guarani deveria ter sido publicados até 30 de junho de 2009.
Do ministro da Justiça ouviram os encaminhamentos do governo, para evitar a expulsão da comunidade de Pyelito Kue, aumento da força nacional e polícia federal na região e de que dentro de 30 dias estaria sendo publicado o relatório circunstanciado dessa terra indígena, pela Funai. Disse ainda que "a presidente Dilma quer que se cumpra a Constituição".

O secretário do Cimi, Cleber Buzatto, em vários momentos chamou atenção para a morosidade e omissão do governo, enquanto nos três poderes avançam iniciativas que visam tirar direitos constitucionais dos povos indígenas e agravar ainda mais a situação de violência. Falou da importância das iniciativas de ampla divulgação, especialmente nas redes sociais, da realidade indígena, para que desse processo de comoção nacional emergem ações e pressão pelo respeito aos direitos dos povos indígenas e a imediata regularização das terras indígenas.
Tiveram reuniões de definição de ações estratégicas na Articulação dos Povos Indígenas do Brasil-APIB, na Funai e outros órgãos e entidades. Levam em suas bagagens de retorno às aldeias a certeza de que a luta por seus direitos avançou, mas que devem se intensificar as alianças e solidariedade em nível mundial e as lutas de retorno às suas terras tradicionais, como afirmou Eliseu Lopes "Estamos cansados de bonitos discursos e promessas. Vamos continuar nossas ações de retomar nossas terras".
Egon Heck e Laila Menezes
Povo Guarani Grande Povo , Cimi 40 anos, 2 de novembro de 2012
“As reservas são confinamentos de índios”, acusa Egon Heck
Um dos fundadores do CIMI, Egon Heck trabalha há mais de 40 anos junto a comunidades indígenas | Foto: Valter Campanato/ABr
Samir Oliveira
O indigenista e cientista político Egon Heck trabalha há mais de 40 anos ao lado de comunidades indígenas em todo o país. Militante do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Egon é ex-padre e um dos fundadores dessa entidade. Formado em Teologia e em Filosofia, com pós-graduação em Ciência Política, ele sempre acompanhou de perto a situação dos índios Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul.
Atualmente, a luta dessa tribo pelo retorno ao seu território original ganhou repercussão após um manifesto em que, diante do frequente descaso em relação às suas reivindicações, pediam que fosse decretada sua “extinção coletiva” pelo governo federal e pela Justiça. Nesta entrevista ao Sul21, Egon Heck faz um resgate histórico da situação dos Guarani-Kaiwoá na região e conta como são as condições de vida desse povo.
“Na área de Dourados, existe em torno de 15 mil indígenas confinados em 3,5 mil hectares. Foram levados para lá de 40 regiões diferentes. É uma área totalmente sem mata, sem condições propícias para a reprodução física e cultural dos Guarani-Kaiowá. É impossível, nessas condições, perpetuar a economia e a visão cosmológica de mundo deles”, comenta.
Para o especialista, as reservas indígenas se configuram, na prática, como prisões – pois não representam territórios sagrados para os índios e misturam diferentes tribos num espaço muitas vezes pequeno. “Os índios se locomoviam por toda uma região e acabaram confinados em pequenas áreas. As reservas são, na verdade, confinamentos de índios. São depósitos onde eles são colocados para serem disponibilizados como mão-de-obra agrícola”, acusa.
“Mais de 90% das famílias Guarani-Kaiowá depende diretamente da cesta básica. Isso gera um problema psicológico e cria uma cultura de dependência”
Para indigenista, Guarani-Kaiowá do MS vivem uma das piores situações de povos indígenas em todo o mundo | Foto: campanhaguarani.org
Sul21 – Como vivem os Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul?
Egon Heck – A realidade vivida pelos Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul é de uma gravidade que eu nunca havia visto nos 40 anos em que trabalho com povos indígenas. A violência que eles sofrem é decorrente da falta de terra, que é decorrente de um processo histórico e atual de preconceito e discriminação. Essa conjunção de fatores faz com que eles se encontrem hoje numa das piores situações no Brasil e no mundo. Os números são alarmantes, seja em termos de mortes por conflitos violentos na luta da terra, seja por mortes decorrentes da falta de condições de vida. Isso faz com que praticamente não seja mais possível se reproduzir o tecido social dos Guarani-Kaiowá. Nessas condições, a cultura deles não tem como enfrentar as diversas situações de confronto, que são agravadas pela fome, pelo alcoolismo e por outros elementos que vão se introjetando nas comunidades indígenas. Temos um quadro de extrema gravidade e o que mais preocupa é que não há decisões políticas para que se enfrente positivamente essa situação. É preciso remover esses obstáculos: a falta de terra e a falta de condições de sobrevivência.
Egon Heck – A realidade vivida pelos Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul é de uma gravidade que eu nunca havia visto nos 40 anos em que trabalho com povos indígenas. A violência que eles sofrem é decorrente da falta de terra, que é decorrente de um processo histórico e atual de preconceito e discriminação. Essa conjunção de fatores faz com que eles se encontrem hoje numa das piores situações no Brasil e no mundo. Os números são alarmantes, seja em termos de mortes por conflitos violentos na luta da terra, seja por mortes decorrentes da falta de condições de vida. Isso faz com que praticamente não seja mais possível se reproduzir o tecido social dos Guarani-Kaiowá. Nessas condições, a cultura deles não tem como enfrentar as diversas situações de confronto, que são agravadas pela fome, pelo alcoolismo e por outros elementos que vão se introjetando nas comunidades indígenas. Temos um quadro de extrema gravidade e o que mais preocupa é que não há decisões políticas para que se enfrente positivamente essa situação. É preciso remover esses obstáculos: a falta de terra e a falta de condições de sobrevivência.
Sul21 – Sem terras e condições de vida adequadas, como eles se sustentam?
Egon - Hoje, mais de 90% das famílias Guarani-Kaiowá depende diretamente da cesta básica. Isso gera um problema psicológico muito forte e cria uma cultura de dependência e desestímulo ao próprio trabalho de produção dos alimentos. Eles praticamente não conseguem encontrar trabalho. Os empregos fora da aldeia eram nos fundos de fazendas e deixaram de existir com a mecanização da agricultura. Hoje, cerca de 10 mil índios trabalham nas usinas de cana de açúcar. Podemos imaginar que a situação tende a se agravar, ao invés de melhorar. Isso só reforça um processo de genocídio.
Egon - Hoje, mais de 90% das famílias Guarani-Kaiowá depende diretamente da cesta básica. Isso gera um problema psicológico muito forte e cria uma cultura de dependência e desestímulo ao próprio trabalho de produção dos alimentos. Eles praticamente não conseguem encontrar trabalho. Os empregos fora da aldeia eram nos fundos de fazendas e deixaram de existir com a mecanização da agricultura. Hoje, cerca de 10 mil índios trabalham nas usinas de cana de açúcar. Podemos imaginar que a situação tende a se agravar, ao invés de melhorar. Isso só reforça um processo de genocídio.
“A revolta no espírito e no coração dos Guarani-Kaiowá é tanta que eles preferem a morte a esse tipo de dor e sofrimento. Eles não temem a morte” | Foto: campanhaguarani.org
Sul21 – Como se originou o processo de expulsão desses índios das suas terras?
Egon - Os índios já participaram na Guerra do Paraguai, no século XIX, e tiveram vários mortos. Mas eles conseguiram se manter na floresta, porque aquela região foi mantida com a atividade econômica do plantio de erva mate, que não afetava profundamente o meio-ambiente. Os Guarani-Kaiowá conseguiram se manter nas florestas, complementando sua sobrevivência com o trabalho na colheita de erva mate. De 1915 a 1928, o Serviço de Proteção ao Índio (SIP) demarcou oito pequenas áreas indígenas, sendo quatro delas com uma dimensão de 3,5 mil hectares e as outras com 2,4 mil hectares. Com isso, foi acontecendo um processo de implantação lenta da pecuária e de derrubada da mata para plantações de capim. Os índios foram, inclusive, utilizados nesse trabalho de desmatamento. Mas, ainda nesse período, continuavam vivendo nos fundos das fazendas, no pequeno pedaço de mato que sobrava. Durante todo o século passado até 1943, puderam viver relativamente bem. Com o plano do governo de Getúlio Vargas de ocupação da fronteira Oeste através da colonização e da implantação massiva da agricultura, estabeleceu-se a colônia agrícola de Dourados, com mil famílias em mil lotes de 30 hectares. Isso afetou profundamente os índios, que tinham locomoção por toda a região e acabaram confinados em pequenas áreas. As reservas são, na verdade, confinamentos de índios. São depósitos onde eles são colocados para serem disponibilizados como mão-de-obra agrícola.
Egon - Os índios já participaram na Guerra do Paraguai, no século XIX, e tiveram vários mortos. Mas eles conseguiram se manter na floresta, porque aquela região foi mantida com a atividade econômica do plantio de erva mate, que não afetava profundamente o meio-ambiente. Os Guarani-Kaiowá conseguiram se manter nas florestas, complementando sua sobrevivência com o trabalho na colheita de erva mate. De 1915 a 1928, o Serviço de Proteção ao Índio (SIP) demarcou oito pequenas áreas indígenas, sendo quatro delas com uma dimensão de 3,5 mil hectares e as outras com 2,4 mil hectares. Com isso, foi acontecendo um processo de implantação lenta da pecuária e de derrubada da mata para plantações de capim. Os índios foram, inclusive, utilizados nesse trabalho de desmatamento. Mas, ainda nesse período, continuavam vivendo nos fundos das fazendas, no pequeno pedaço de mato que sobrava. Durante todo o século passado até 1943, puderam viver relativamente bem. Com o plano do governo de Getúlio Vargas de ocupação da fronteira Oeste através da colonização e da implantação massiva da agricultura, estabeleceu-se a colônia agrícola de Dourados, com mil famílias em mil lotes de 30 hectares. Isso afetou profundamente os índios, que tinham locomoção por toda a região e acabaram confinados em pequenas áreas. As reservas são, na verdade, confinamentos de índios. São depósitos onde eles são colocados para serem disponibilizados como mão-de-obra agrícola.
Sul21 – A partir de que momento os índios começaram a despertar para a reivindicação dos seus territórios originais?
Egon - A partir do inicio dos anos 1980, os índios iniciam um processo de retomada de suas terras tradicionais. A primeira delas foi o Rancho Jacaré, na antiga Fazenda Campanário, que era uma fazenda sede na produção da erva mate na região. Os índios desse território haviam sido colocados num caminhão pela FUNAI e levados ao Paraguai. Depois eles retornaram para lá e foram novamente levados para longe. Eles então caminharam mais de 100 quilômetros e voltaram ao seu espaço tradicional. Foi nesse momento que começaram a ter apoio do CIMI e de outras entidades da sociedade civil. A partir daí, até o início dos anos 1990, houve mais de 10 marchas indígenas de retorno aos seus territórios. Essas terras são inerentes à cultura dos Guarani-Kaiwoá, lá estão os seus antepassados. Além disso, eles têm o direito constitucional de viver lá. Só que, ao retornarem às suas terras, os índios são recebidos por jagunços e pistoleiros fortemente armados, que os colocam para fora. Por isso eles ficam acampados nas beiras das estradas. Existe mais de 30 acampamentos no Mato Grosso do Sul.
Egon - A partir do inicio dos anos 1980, os índios iniciam um processo de retomada de suas terras tradicionais. A primeira delas foi o Rancho Jacaré, na antiga Fazenda Campanário, que era uma fazenda sede na produção da erva mate na região. Os índios desse território haviam sido colocados num caminhão pela FUNAI e levados ao Paraguai. Depois eles retornaram para lá e foram novamente levados para longe. Eles então caminharam mais de 100 quilômetros e voltaram ao seu espaço tradicional. Foi nesse momento que começaram a ter apoio do CIMI e de outras entidades da sociedade civil. A partir daí, até o início dos anos 1990, houve mais de 10 marchas indígenas de retorno aos seus territórios. Essas terras são inerentes à cultura dos Guarani-Kaiwoá, lá estão os seus antepassados. Além disso, eles têm o direito constitucional de viver lá. Só que, ao retornarem às suas terras, os índios são recebidos por jagunços e pistoleiros fortemente armados, que os colocam para fora. Por isso eles ficam acampados nas beiras das estradas. Existe mais de 30 acampamentos no Mato Grosso do Sul.
“Ao exigirem direito de constituir grupos familiares menores em seus espaços tradicionais, os Guarani-Kaiowá enfrentam uma situação desesperadora de violência e discriminação”
Sul21 – Como são as condições de vida dos índios nas reservas do Mato Grosso do Sul?
Egon - Na área de Dourados existe em torno de 15 mil indígenas confinados em 3,5 mil hectares. Foram levados para lá de 40 regiões diferentes. É uma área totalmente sem mata, sem condições propícias para a reprodução física e cultural dos Guarani-Kaiowá. É impossível, nessas condições, perpetuar a economia e a visão cosmológica de mundo deles. Imagine o tensionamento que isso não produz. Quando, tradicionalmente, havia tensões entre um mesmo grupo indígena, os responsáveis pelo conflito migravam para outro lugar. Agora isso é impossível. Os 40 grupos dessa reserva não têm para onde sair. Há uma situação absolutamente insustentável, os índios têm medo de sair de casa à noite. E isso se repete em outras reservas. A única alternativa que eles encontram é o retorno à constituição de grupos familiares menores em seus espaços tradicionais. Isso é, por direito, o que os Guarani-Kaiwoá desejam. Mas, ao exigirem esse direito, enfrentam uma situação desesperadora de violência e de discriminação.
Egon - Na área de Dourados existe em torno de 15 mil indígenas confinados em 3,5 mil hectares. Foram levados para lá de 40 regiões diferentes. É uma área totalmente sem mata, sem condições propícias para a reprodução física e cultural dos Guarani-Kaiowá. É impossível, nessas condições, perpetuar a economia e a visão cosmológica de mundo deles. Imagine o tensionamento que isso não produz. Quando, tradicionalmente, havia tensões entre um mesmo grupo indígena, os responsáveis pelo conflito migravam para outro lugar. Agora isso é impossível. Os 40 grupos dessa reserva não têm para onde sair. Há uma situação absolutamente insustentável, os índios têm medo de sair de casa à noite. E isso se repete em outras reservas. A única alternativa que eles encontram é o retorno à constituição de grupos familiares menores em seus espaços tradicionais. Isso é, por direito, o que os Guarani-Kaiwoá desejam. Mas, ao exigirem esse direito, enfrentam uma situação desesperadora de violência e de discriminação.
Agronegócio e forças do Estado agem como negadores dos direitos indígenas, argumenta Egon Heck | Foto: Antonio Cruz/ABr
Sul21 – Os fazendeiros contratam pistoleiros para expulsar os índios de suas terras. E o Estado disponibiliza contingentes armados para executar ordens de despejo. É possível dizer que os índios enfrentam dois inimigos: os grandes proprietários de terra e o próprio Estado?
Egon - Na verdade, de formas diferentes, os condutores do agronegócio e o Estado são negadores dos direitos dos índios. Os fazendeiros não reconhecem o direito dos índios e agem com a violência que é inerente a um processo que sequer espera pela Justiça. Um dia depois do retorno dos índios ao território, os pistoleiros já estão no local. O segundo fator é a Justiça local, que, em geral, tem se posicionado rapidamente em favor dos fazendeiros, com ordens de reintegração de posse. Esse posicionamento contrário e imediato por parte da Justiça ao direito dos índios simula o que o Estado acaba efetuando em seguida, que é a disponibilização de suas forças de repressão para a remoção das comunidades. São procedimentos distintos, mas têm as mesmas consequências.
Egon - Na verdade, de formas diferentes, os condutores do agronegócio e o Estado são negadores dos direitos dos índios. Os fazendeiros não reconhecem o direito dos índios e agem com a violência que é inerente a um processo que sequer espera pela Justiça. Um dia depois do retorno dos índios ao território, os pistoleiros já estão no local. O segundo fator é a Justiça local, que, em geral, tem se posicionado rapidamente em favor dos fazendeiros, com ordens de reintegração de posse. Esse posicionamento contrário e imediato por parte da Justiça ao direito dos índios simula o que o Estado acaba efetuando em seguida, que é a disponibilização de suas forças de repressão para a remoção das comunidades. São procedimentos distintos, mas têm as mesmas consequências.
Sul21 – Como o senhor avalia esse manifesto dos Guarani-Kaiowá, no qual afirmam que preferem morrer a sair de suas terras?
Egon - É difícil termos ideia do tamanho do desespero que eles vivem para que tenham chegado ao ponto de fazer essa declaração. Eu tenho acompanhado de perto esse grupo por vários anos. São 16 anos de reiteradas violências e negações. Eles são espancados, sofrem, têm familiares desaparecidos, passam fome, mas continuam lá no seu canto. Chega um momento em que eles perdem a esperança. Todo sofrimento já impingido durante essa década os leva a uma descrença total em uma possibilidade de continuarem vivendo com um mínimo de liberdade e dignidade em sua terra tradicional. A revolta no espírito e no coração é tanta que eles preferem a morte a esse tipo de dor e sofrimento. Eles não temem a morte. A morte passa a ser um subterfúgio para superar o sentimento maior que eles sentem nessa situação.
Egon - É difícil termos ideia do tamanho do desespero que eles vivem para que tenham chegado ao ponto de fazer essa declaração. Eu tenho acompanhado de perto esse grupo por vários anos. São 16 anos de reiteradas violências e negações. Eles são espancados, sofrem, têm familiares desaparecidos, passam fome, mas continuam lá no seu canto. Chega um momento em que eles perdem a esperança. Todo sofrimento já impingido durante essa década os leva a uma descrença total em uma possibilidade de continuarem vivendo com um mínimo de liberdade e dignidade em sua terra tradicional. A revolta no espírito e no coração é tanta que eles preferem a morte a esse tipo de dor e sofrimento. Eles não temem a morte. A morte passa a ser um subterfúgio para superar o sentimento maior que eles sentem nessa situação.
“Somos participantes e, de certa forma, responsáveis por um sistema que nega a vida a esses povos. Precisamos mostrar ao mundo que não somos coniventes com o genocídio indígena”
Sul21 – Que tipo de reação positiva pode surgir na sociedade a partir desse desabafo dos Guarani-Kaiowá?
Egon - Precisamos dosar a consequência dessa conclamação, que nos leva a uma possível situação de genocídio. Se isso acontecer, seremos cobrados pela História. Somos participantes e, de certa forma, responsáveis por um sistema que nega a vida a esses povos. Precisamos mostrar ao mundo, de uma vez por todas, que não somos mais coniventes com o genocídio indígena. Essa carta precisa mobilizar a consciência nacional para que se exija atitudes positivas dos poderes responsáveis.
Egon - Precisamos dosar a consequência dessa conclamação, que nos leva a uma possível situação de genocídio. Se isso acontecer, seremos cobrados pela História. Somos participantes e, de certa forma, responsáveis por um sistema que nega a vida a esses povos. Precisamos mostrar ao mundo, de uma vez por todas, que não somos mais coniventes com o genocídio indígena. Essa carta precisa mobilizar a consciência nacional para que se exija atitudes positivas dos poderes responsáveis.
“A prática do governo federal é contrária aos direitos constitucionais e aos tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário. Essa carta dos Guarani-Kaiowá traz à tona uma realidade gravíssima” | Foto: Wilson Dias/ABr
Sul21 – Há, por parte do governo federal e boa parte da sociedade, a visão de que os índios representam um entrave ao desenvolvimento do país.
Egon - Os índios não têm nenhuma pretensão de inviabilizar nada. Querem apenas continuar vivendo com seus valores tradicionais e seu sistema de vida. Infelizmente, esse pensamento persiste nas opções políticas do governo federal, que prioriza, em todos os aspectos, um sistema de favorecimento do capital em detrimento dos direitos e da vida de populações indígenas. As obras do PAC afetam mais de 500 áreas indígenas. Infelizmente, a prática do governo federal continua sendo contrária aos direitos constitucionais e aos tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário. Essa carta dos Guarani-Kaiowá traz à tona uma realidade gravíssima. Continuamos com estruturas de Estado e opções políticas que não dão espaço a convivência com esses diferentes povos indígenas. É preciso haver mudanças profundas na relação do estado brasileiro com as minorias.
Egon - Os índios não têm nenhuma pretensão de inviabilizar nada. Querem apenas continuar vivendo com seus valores tradicionais e seu sistema de vida. Infelizmente, esse pensamento persiste nas opções políticas do governo federal, que prioriza, em todos os aspectos, um sistema de favorecimento do capital em detrimento dos direitos e da vida de populações indígenas. As obras do PAC afetam mais de 500 áreas indígenas. Infelizmente, a prática do governo federal continua sendo contrária aos direitos constitucionais e aos tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário. Essa carta dos Guarani-Kaiowá traz à tona uma realidade gravíssima. Continuamos com estruturas de Estado e opções políticas que não dão espaço a convivência com esses diferentes povos indígenas. É preciso haver mudanças profundas na relação do estado brasileiro com as minorias.
Sul21 – Qual o papel da FUNAI no atendimento das demandas indígenas?
Egon - Faz cinco anos, em novembro de 2007, que foi assinado um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público Federal para que a FUNAI dê a titulação de 36 terras indígenas. Em junho de 2009 deveriam estar entregues os trabalhos de identificação das terras originais dos Guarani-Kaiowá. Passaram-se cinco anos e infelizmente nenhum relatório foi publicado. A maioria sequer foi concluída. É uma demonstração absoluta da ineficácia – quando não da omissão – do governo em relação a esse problema. A FUNAI acaba, em ultima instância, sendo obrigada a adotar uma política de acomodação de interesses que faz com que ela, sucateada, tenha apenas o mínimo de possibilidade de dar alguma resposta a esses problemas. A FUNAI não consegue fazer as coisas avançarem e, em alguns casos, até promove retrocessos. Infelizmente, a FUNAI, assim como foi o SPI, acaba sendo um mecanismo de acomodação em função dos interesses prioritários para o governo.
Egon - Faz cinco anos, em novembro de 2007, que foi assinado um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público Federal para que a FUNAI dê a titulação de 36 terras indígenas. Em junho de 2009 deveriam estar entregues os trabalhos de identificação das terras originais dos Guarani-Kaiowá. Passaram-se cinco anos e infelizmente nenhum relatório foi publicado. A maioria sequer foi concluída. É uma demonstração absoluta da ineficácia – quando não da omissão – do governo em relação a esse problema. A FUNAI acaba, em ultima instância, sendo obrigada a adotar uma política de acomodação de interesses que faz com que ela, sucateada, tenha apenas o mínimo de possibilidade de dar alguma resposta a esses problemas. A FUNAI não consegue fazer as coisas avançarem e, em alguns casos, até promove retrocessos. Infelizmente, a FUNAI, assim como foi o SPI, acaba sendo um mecanismo de acomodação em função dos interesses prioritários para o governo.
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