Mobilização JMI

Mobilização JMI

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Francamente, saudade
Dom Franco: dez anos do martírio, testemunho e memória
Disposição, doação e sabedoria




Permanente alegria estampada no rosto.  Coração grande e generoso. Lucidez e sabedoria na defesa corajosa e radical dos povos indígenas e dos pobres.

Juventude acumulada, mesmo aos 65 anos. Ainda jogava um futebolzinho e não deixava de fazer suas caminhadas diárias. Admirável sua disposição para o trabalho na causa dos mais pobres, especialmente os povos originários. Na medida em que foi conhecendo suas culturas e lutas, com maior paixão e garra foi assumindo essa causa.

Nos seis anos na presidência do Cimi teve momentos marcantes na caminhada e lutas dos povos indígenas, como a Marcha e Conferência 2.000, organizada pelo Movimento de Resistência Indígena, Negra e Popular. Foi o movimento de resistência indígena mais expressivo das últimas décadas. A repressão do Estado brasileiro à Marcha que se dirigia a Porto Seguro foi a demonstração mais cabal dos 500 anos de violência. Dom Franco estava lá participando e sofrendo a violência com que a Marcha foi reprimida.

Em 2002, a Campanha da Fraternidade foi sobre a questão indígena: Por uma Terra Sem Males. Foi um momento forte de tomada de consciência dos cristãos sobre as vidas e lutas dos povos indígenas no Brasil. Intensas atividades de informação, reflexão e solidariedade com os povos originários do nosso país. Dom Franco, como presidente do Cimi, teve intensas agendas em nível da Igreja e sociedade. Foi também o ano de muita reflexão e autocritica interna do Cimi, por ocasião de seus 30 anos de existência.



A centralidade da questão missionária

Dom Franco teve importante contribuição na dimensão missionária. Foi um grande conhecedor e defensor da dimensão missionária, tendo conhecido e participado de inúmeras experiências e trabalhos missionários, especialmente na África e América Latina. Trouxe esse vigor missionário para as atividades e agendas do Cimi. Contribuiu de forma fundamental na elaboração do Plano Pastoral da entidade. Empenhou-se para a construção da simpática capela no Centro de Formação Vicente Cañas.

Foi um missionário por excelência. Entendia como missão a opção radical pelos pobres e oprimidos e a doação da vida por essa gente: “Se quisermos mudar esse mundo temos que gastar nossa vida em defesa dos mais pobres”.

 Como sociólogo, não deixava de assumir e ressaltar a dimensão transformadora e libertadora da missão. Sempre esteve alinhado e unido ao grupo dos bispos que tinha uma pastoral e compromisso social em sua atuação pastoral e política.

Não deixou de considerar, em sua atuação como presidente do Cimi e atuação como bispo de Balsas, no Maranhão, dimensões cruciais para os dias atuais, como a questão ambiental, o aquecimento global e a destruição brutal das condições de vida em nossa casa comum, como tantas vezes tem repetido o Papa Francisco.

Após dez anos de sua súbita partida, deixa não apenas um testemunho e um desafio para nós que lutamos ao lado dos povos indígenas na luta pela vida e seus direitos, mas para todos os brasileiros, que lutam por um Brasil plural, justo e solidário.

Dom Franco, presente.


Somos gratos e homenageamos todos os presidentes do Cimi, que deram sua valiosa contribuição e o melhor de si no serviço à causa indígena, na presidência do Cimi. Pe.  Jaime Venturelli, Pe. Vicente Cesar, Dom Tomás Balduino, Dom José Gomes, Dom Erwin Kräutler, Dom Aparecido José Dias, Dom Franco Masserdotti, Dom Roque Paloschi. E nesta homenagem de reconhecimento e gratidão queremos nos unir aos nossos mártires e todos os missionários e agentes de pastoral indigenista, que se doaram à causa indígena nesses 44 anos do Cimi.




 
Foi um testemunho de diálogo e esperança: “Importante é saber valorizar o outro, acreditar no pluralismo da experiência cristã e na inculturação do Evangelho, promover a escuta e a colaboração entre as igrejas e as religiões, assumindo em conjunto as grandes causas que caracterizam hoje o Reino de Deus na história: a justiça, a paz, a ecologia, os direitos humanos, a reforma agrária, os refugiados, os migrantes... A visão crítica do passado convida a superar toda atitude de arrogância, mas não admite medo, fatalismo, pessimismo. Requer confiança, esperança” (Porantim nº 223 – março 2000).

“A verdadeira morte acontece quando colocamos a nossa esperança e o sentido de nossa vida na posse, no poder, no prazer desregrado, quando fechamos o nosso coração ao próximo e nos deixamos levar pelo egoísmo. A verdadeira morte é quando temos medo de perder nossa vida por causa de Jesus e do Evangelho (cf Mt 8,35)” (Em Memória de Dom Luciano, 30/08/2006).




Brasília, 16 de setembro de 2016.
Egon Dionísio Heck     fotos arquivo Cimi

Cimi Secretariado Nacional

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Unir para lutar e unificar para vencer









Com essa proclamação os estudantes indígenas  concluíram seu encontro nacional parra dar continuidade em suas aldeias e comunidades ao compromisso assumido.
 pois “Nós somos jovens guerreiros e por nossas terras vamos lutar,
 espalhar nossas sementes, nossa aldeia germinar.
 “Tentaram nos enterrar, mas se esqueceram que somos sementes” ,
 e “Quem nasceu para viver lutando, não vai morrer de braços cruzados”.
Por isso reafirmamos que “Em cima do medo, CORAGEM!”

“Estou ansioso” afirmava uma das lideranças presentes ao Seminário Nacional da juventude indígena. Com razão, diante do complexo e iníquo cenário em que se pretende a todo custo suprimir direitos indígenas, resta-lhes a árdua luta da resistência e afirmação de seus direitos e projetos do Bem  Viver.

Enquanto jovens e vários deles professores em suas aldeias, não poderiam deixar de debater a precariedade das escolas indígenas, estando a maior parte delas submetidas a ditames que contrariam a própria constituição e outras leis que lhes garante um escola com currículo diferenciado e de qualidade. Essa é uma das lutas que eles vem sustentando a décadas e certamente continuarão tendo que forjar o processo a partir das realidades de cada aldeia.  No Início de outubro se realizará  o 2º Fórum de Educação Escolar Indígena, que é um espaço de luta que está sendo construído pelos professores indígenas de todo o país. A grande maioria desses professores são jovens e com certeza estarão mutuamente construindo as bandeiras de luta do movimento.

Nesse eixo de formação política que deverá ser um dos eixos transversais de toda a luta, também discutiram a importância de trabalharem a memória de seus povos, como uma ferramenta, uma arma, um “Porantim”. Ao invés de esperar que historiadores, antropólogos e outros cientistas venham registrar a história dos povos, é importante que os próprios jovens o façam e se capacitem em todas essas áreas do conhecimento e da sabedoria dos anciões.




O Território, enquanto espaço integrador e fonte de vida para os povos, devem ser legalizados e garantidos,   numa luta contínua   contra todas as investidas feitas pelo agronegócio e outros setores. Terra/território é sagrado, é mãe é vida, e Apesar de todas as ameaças lutaremos pelas nossas terras, pois somos filhos delas. Dançaremos, cantaremos, rezaremos pois nossa luta é uma luta pela nossa cultura, pela nossa tradição e modo de ser originário. Somarem-nos com nossas lideranças e fortalecidos pela união entre os diferentes povos, principalmente com os mais velhos, estamos aqui reafirmando nosso compromisso e responsabilidade de dar continuidade as nossas lutas já iniciadas por nossos ancestrais.”( Carta do Seminário)link

Alguns temos que apesar de preocupantes, ficaram para ser debatidos e aprofundados nas comunidades, dentre eles ficaram destacados a questão da política partidária e eleições. Esse é um desafio histórico que precisa ser enfrentado, não apenas pelos jovens mas pelas comunidades e movimento indígena. Apesar dos imensos danos que normalmente são causados pelos políticos em suas incursões nos períodos eleitorais, não se vê, no final do túnel, uma saída conjunta e articulada.




Outro tema que merece maior debate e  análise são as presenças de inúmeras igrejas dentro das aldeias, sendo várias fundamentalistas, com grandes interferências na cultura e lutas dos povos indígenas por seus direitos. Ficou como sugestão ir fortalecendo as religiões e cultura próprias dos povos.

Quanto ao processo organizativo interno dos jovens indígenas e suas alianças com outros movimentos de jovens em luta, particularmente no movimento popular e populações e povos tradicionais. Isso supõem um trabalho dentro do próprio povo e uma necessária articulação com as comunidades e participação  nas lutas de cada comunidade.

Durante o encontro fórum muitos e expressivos os momentos de rituais dos diversos povos participantes. Voltaram para suas comunidades com a certeza de que deram um passo importante na luta pelos direitos dos povos originários indígenas no Brasil

Egon Heck
Cimi Secretariado nacional
Brasilia, agosto de 2016


domingo, 28 de agosto de 2016

Juventude Indígena na luta





Não dá para titubear. O momento é delicado e complexo. Exige clareza política e ousadia na luta. É com essa determinação que os jovens indígenas vem se engajando cada vez mais na luta pelos direitos de seus povos, particularmente na reconquista e garantia de seus territórios e autodeterminação a partir de seus projetos de Bem Viver.

Quem acompanhou as lutas dos povos indígenas, mormente nas últimas quatro décadas,  certamente ficou impressionado com os processos de envolvimento crescente  da juventude indígena nesses processos complexos de resistência e afirmação de suas identidades enquanto povos originários desse país. Eles tem  defendido com determinação e galhardia seu espaço na luta e vida das aldeias e comunidades, apesar dos enormes desafios que enfrentam no dia a dia.
Nailton Pataxó Hã Hã Hai, tem insistentemente ressaltado o papel fundamental que os jovens de seu povo desempenharam, na reconquista de seu território. E e por essa razão que não se cansa de desafiar e convocar a juventude indígena a não apenas continuar participando, mas ampliar  e qualificar essa presença nas lutas.  Em função desses desafios que ele e inúmeras lideranças tem insistido na importância da formação politica dos jovens indígenas.   Estes, por sua vez vem forjando processos importantes na perspectiva de troca de experiências e articulação  em nível mais amplo, nacional e internacionalmente.

Lembro que a liderança Kaingang, Nelson Xangrê, que liderou com muita sabedoria, ousadia e astúcia as ações de expulsão mais de dez mil invasores e colonos assentados pelo governo  Estadual  da Terra Indígena Nonoai no Rio Grande do Sul. Após esse memorável feito Xangrê manifestou sua preocupação e desejo “Agora que reconquistamos nossa terra está reconquistada, precisamos  urgentemente dar formação a nossos jovens para reconstruir nossa subsistência e economia, bem como iniciar imediatamente um processo de recuperação da terra e reflorestamento”. Infelizmente nesse aspecto ele não teve o mesmo sucesso do que na desocupação.

Juventude indígena: ampliando as lutas e esperança




Em apoio a essas demandas o Cimi tem, desde maio deste ano, apoiado a realização de encontros regionais e macrorregionais da juventude indígena. Em quatro Seminários regionais realizados em Pernambuco, Bahia, Mato Grosso do Sul e Manaus, teve a participação de 1.159 indígenas de 58 povos de 15 Estados. E nesses dias de 23 a 27 de agosta está se realizando o Seminário Nacional de Juventude  Indígena no Centro de Formação Vicente Cañas, em Luziânia.
As cartas e documentos elaborados nos quatro Encontros regionais dão a dimensão dos desafios enormes enfrentados hoje pela juventude indígena em nosso país. Os desafios maiores giram em torno da retomada e reconquista dos territórios dos povos originários. E não é apenas ter alguma segurança jurídica, pois constantemente são invadidos e agredidos pelos interesses do agronegócio e elites econômicas e políticas. E as maiores vítimas de todos esses processos acabam sendo os jovens que são assassinados e violentados, encontrando como saídas extremas o suicídio.

Os jovens reunidos em Manaus denunciaram as violências e injustiças quw sofre “Atualmente estamos sofrendo violências e violações de nossos direitos constitucionais.  Buscamos justiça pela vida, fortalecendo nossos costumes, crenças e tradições protegendo nossas terras e territórios. Não queremos a criminalização das nossas Lideranças, a exploração de nossas terras, rios, florestas e lagos, denunciamos o massacre dos nossos povos, e a postura colonialista do governo e do Estado. Diante dessa realidade expressam seu grito de rebeldia e vida.




“estamos aqui, estamos vivos, nós somos, vivemos nossas culturas, somos povos , nossa  existência está aqui ainda, temos nossa  força, não são vocês que vão nos derrubar, viemos para somar, pois juntos somos mais.”

Os mais de 300 jovens Kaiowá w Guarani assim afirmaram sua disposição de luta “Nascemos na luta e da luta não sairemos. Hoje sabemos como o Estado e o Governo agem contra nosso povo pois sofremos o descaso que praticam contra nossa juventude que fica abandonada na beira de estradas. Hoje sabemos o que são os ataques paramilitares pois somos nós que morremos Afinal quem foi Simião? , quem foi Clodiodi? Antes de mais nada eram jovens, cheios de sonhos e vontades de vida como cada um de nós. É por eles que lutamos e lutaremos. A memória deles segue viva na criação de nosso conselho da RAAJ (Retomada da Aty Guasu Jovem). Não admitiremos mais que nenhum de nossos jovens tombem e desde já nos colocamos  na luta pela justiça e pela punição dos assassinos.”

Os jovens do Nordeste fizeram um grande encontro com mais de 400 participantes, onde afirmaram que “O fortalecimento da organização da juventude foi apontando como uma das principais necessidades do movimento de luta indígena no Nordeste, para garantir a posse e permanência nos nossos territórios, partindo dessa realidade os jovens representantes dos povos presentes nessa assembleia criam um grupo que tem como finalidade articular a base para a criação de uma comissão de juventude a nível regional. Assim afirmamos é golpe mas não é NOCALTE. E diga ao povo que avance. AVANÇAREMOS!     
            
No Encontro da Bahia, os jovens expressam sua disposição de continuar lutando:”      Movidos pela nossa herança ancestral, que nos fortalece e nos conduz na busca de uma Terra sem Males, e nos faz reafirmar o compromisso e a responsabilidade de continuar nosso processo de luta contra o Estado brasileiro e contra todos os nossos inimigos, que, com posturas colonialistas, continuam nos roubando, nestes 516 anos, negando nossos direitos, saqueado nossas riquezas naturais, dificultando a manutenção dos nossos projetos de Bem Viver e tentando negar a construção do nosso futuro.

Depois de dois dias de debate e reflexão a partir dos posicionamentos assumidos nas regiões, os jovens indígenas se propõem a Fortalecer a organização da juventude indígena em  nível local, regional e nacional, promovendo momentos de formação política e jurídica, construindo uma agente específica e construindo a realização de uma Marcha Nacional dos jovens indígenas.
Ao concluir seu documento os jovens do encontro da Bahia se unem a tdos os jovens indígenas afirmando “Queremos honrar os nossos compromissos e fazer jus ao tema do seminário, “Herdeiros da história e guerreiros da luta”: ao som dos nossos maracás, olhando e valorizando o nosso passado e fortalecendo o presente, para construir o futuro.”

Egon Heck
Cimi Secretariado Nacional
Brasiia 26 de  agosto de 2016

                                                                                                                                                       





segunda-feira, 22 de agosto de 2016

E agora que as visitas foram embora!



 Voltam para casa os atletas olímpicos e entra novamente em campo a retrógrada e malfadada agenda ruralista e do governo: PEC 215, PL 1610, Nova CPI contra os índios, Projetos do governo para exploração mineral, Marco Temporal, dentre outras.
Muitas águas represadas vão rolar. O impeachment da presidente Dilma com gosto de medalha com a disputa, em prorrogação.


CPI da Funai e Incra termina sem relatório e sem sentido




Essa CPI foi encerrada à meia noite do dia 17 de agosto, sem relatório aprovado. Após oito meses de funcionamento, foi encerrada, mas os ruralistas querem a sua prorrogação. Segundo o presidente da CPI, Alceu Moreira (PMDB-RS), Rodrigo Maia teria assumido compromisso com os ruralistas de prorrogar. Moreira sustenta que é importante estender os trabalhos porque só recentemente chegaram à comissão documentos das quebras de sigilo fiscal de várias entidades e organizações não-governamentais.

“É uma disputa do agronegócio mais atrasado contra os índios, os quilombolas e os sem-terra. As denúncias já foram enviadas ao Ministério Público, quem investiga e pede indiciamentos”, afirmou o deputado federal, e membro crítico da CPI, Marcon (PT-RS)


CPIs e interesses espúrio
(A Critica-Manaus 13/09/1995

É importante lembrar o fato de que na história recente do nosso país, todas as vezes que se quis impedir o avanço ou violar os direitos dos povos originários criaram-se CPIs, com diferentes conotações e interesses espúrios. Isso aconteceu com a CPMI do Cimi em 1987, por ocasião do processo Constituinte. O mesmo se tentou em 1993, quando se encerrava o prazo estabelecido pela Constituição de 1988 para que todas as terras indígenas fossem demarcadas pelo Estado brasileiro.  Ao invés de demarcar as terras o que se propôs foi um processo de revisão constitucional, onde se tiraria os principais direitos indígenas da Constituição. Dois anos depois, em 1995 novamente ressurge na Assembleia
Jogos Mundiais Indígena, outubro 2015 – Palmas TO


Legislativa do Estado do Amazonas (A Crítica 13,09/95) a proposta de constituir uma CPI “Para Investigar o Cimi e ONGs. Naquela ocasião o deputado Joaquim Corado, justificava a instalação de semelhante CPI alegando haver “falta de critérios racionais para a demarcação das terras indígenas”, afirmava que era uma extensão grande de terras para os povos indígenas do Vale do Javari, e terras pequenas para os Ticuna e outros povos da região” (A Crítica 13/09/95)



Na verdade o que o deputado estava defendendo ao propor a CPI contra o CIMI e ONGs era justificar a exploração madeireira e mineral na região. Sob a alegação de que “a demarcação exagerada” e indiscriminada de terras para os índios inviabilizaria, no futuro a economia da região. É importante lembrar que no Vale do Javari sobrevivem em torno de dez grupos/povos indígenas em estado de isolamento. Se a terra não tivesse sido demarcada, conforme pleiteava o citado deputado (dentre outros interesses), é bem provável que alguns desses grupos teriam sido exterminados.


Olimpíada termina em festa e volta a dura batalha pela vida


Sem Temer e sem os resultados esperados, as olimpíadas terminam em festa, e dão passagem à vida e dura sobrevivência da grande maioria dos brasileiros. Para os povos indígenas, populações tradicionais, sem terra e sem teto, dentre outros. Os jovens indígenas entrarão em campo, em Brasília, com a realização do Seminário Nacional da Juventude Indígena. Será um momento de olharem para a conjuntura nacional, as principais ameaças e negação dos direitos indígenas e traçarem suas estratégias e lutas específicas junto a suas comunidades, aldeias e povos.


A juventude indígena tem se revelado cada vez mais ativa e participante nas lutas de suas comunidades pelos direitos. Depois de realizarem encontros nas diversas regiões do país, estarão debatendo suas lutas juntamente com seus povos para evitar o avanço das agendas anti indígenas nos três poderes.

Egon Heck fotos Laila/Cimi
Cimi Secretariado Nacional
Brasília, 22 de agosto de 2016





sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A batalha do maracá contra o cassetete e a gravata






Mais uma vez se travou “simbólica e fisicamente”, a batalha dos  povos indígenas com seus maracás, pinturas e indumentárias, contra as hordas de gravatas em seus pedestais de prepotência, arrogância e ganância.

Imaginava-se que nas ondas de superação do colonialismo interno, as gravatas travariam um diálogo respeitoso com os maracás, desde a portaria até a despedida, já na noite avançada. Mas não foi desta vez. Várias lideranças indígenas fizeram alusão a mais uma decepção: “Sai presidente, entra presidente, campeia a corrupção e nenhum sinal de que um dia será diferente, de igual para igual, na casa do povo”.

No portão, de plantão os cassetetes tentaram demonstrar gentiliza e esforço no podre dorso da repressão. Tirem a placa da “casa do, para contra o povo” chegaram gritar alguns mais exaltados. Nada de novo abaixo da linha do Equador. Após espera e muito bate boca, quase duas centenas de indígenas adentraram, em ritual, nas dependências da Câmara dos Deputados.

Outros setores sociais continuaram impedidos de entrar. Houve ocupação do plenário por sindicalistas que protestaram contra a entrega do pré-sal ao capital estrangeiro. Foi um dia de correria e agito, com o impedimento de Dilma rolando num espaço, e projetos polêmicos e golpistas cavalgando em outro.  Mais uma vez se repetia o ditado e canção popular da época da ditadura militar: “Os podres poderes tem medo de cheiro de povo”.

E assim povos indígenas de várias regiões do país comemoraram seu dia, com  denúncias e veementes manifestações  contra o golpismo ruralista em curso e a violência e criminalização. das lideranças dos movimentos sociais, povos indígenas, povos e comunidades tradicionais. No encontro  com o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, este prometeu não prorrogar a CPI da Funai e do INCRA(cujo prazo de funcionamento termina esta semana) e de que não colocaria em debate e votação em plenário, a  PEC 215.

Ontem foi a vez de entregar um documento  na  embaixada da Alemanha lembrando as principais violências contra os povos indígenas no Brasil, em consequência da política dos ruralistas, que são os mesmos que exportam suas commodities a dezenas de países, dentre os quais, a Alemanha.


Sai de baixo que vem lama e morte


Uma das notícias que tem causado grande preocupação entre os povos indígenas e seus aliados, é a de que o governo em breve enviaria ao Congresso três projetos sobre mineração. Quem viveu, como os Krenak, na lama de Mariana, a irresponsabilidade criminosa das mineradoras, irá entender facilmente o horizonte de ameaças e mortes que os povos originários têm pela frente.  As mineradoras mundiais e nacionais estão assanhadas, nas portas das terras indígenas, aguardando avidamente a abertura das terras/territórios desses povos  para o saque, deixando para traz os rastros de lama, violência e morte.
Nunca é demais lembrar a destruição e extermínio causado aos povos originários e à natureza, desde o início da invasão, há mais de cinco séculos. Várias terras indígenas, especialmente na Calha Norte do rio Amazonas, estão totalmente loteadas para prospecção e lavra de petróleo. O que será dos Yanomami, dos Waimiri Atroari, povos do Rio Negro, do Vale do Javari e da centena de grupos/povos isolados?
No momento em que no mundo inteiro se questiona e denuncia a ação nefasta e destruidora da mineração, o usurpador governo interino, de forma inescrupulosa e celeremente, avança com projetos de morte. E os povos indígenas serão as maiores vítimas dessas iniciativas do grande capital nacional e multinacional.

União, resistência e permanente mobilização

Os povos indígenas e as comunidades e povos tradicionais deram passos importantes na construção de alianças e união na luta por direitos e contra as ameaças de retrocesso e desconstrução de direitos constitucionais conquistados com muita luta e sangue derramado.



Será com a força de todos os guerreiros, com a proteção dos deuses, dos encantados e da mãe terra, com a união da grande maioria dos empobrecidos,  dos excluídos e dominados, da diversidade de povos e culturas, que irão construir um novo mundo, a partir dos projetos de Bem Viver,  com a superação do capitalismo, do colonialismo, do racismo e dos projetos de morte e destruição.



A palavras que mais foram ressaltadas, nesta semana de mobilização dos povos indígenas em Brasília, foi a necessidade  de ampliar a união e alianças para garantir uma mobilização permanente não só para evitar perda de direitos e retrocesso, mas para avançar na perspectiva de construção da sociedade do Bem Viver.

Egon Heck    fotos: Laila/Cimi
Cimi Secretariado Nacional
Brasília, 11 de agosto de 2016.



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Dia Internacional dos Povos Indígenas e o Brasil das Olimpíadas







Dia de muito ritual, reza, denúncia, clamor e protestos

“O Dia Internacional dos Povos Indígenas é uma data celebrada mundialmente no dia 09 de agosto e foi estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) no ano de 1995 para expressar o reconhecimento internacional em relação a esses povos, [...]  Segundo dados da própria ONU, a população indígena no mundo está estimada em cerca de 370 milhões de pessoas, o que representa algo em torno de 5% da população mundial. No entanto, segundo a entidade, esses povos compõem cerca de um terço da população mais pobre do mundo e são expostos a uma série de problemas, que abrangem doenças, discriminação, perseguição, baixa expectativa de vida, ameaças territoriais e poucas garantias de verem cumpridos os seus direitos humanos.” (Rodolfo Pena).

Mobilizações pela vida e direitos




Uma vez mais os povos indígenas no Brasil estarão se mobilizando na luta por seus mais elementares direitos, negados e espezinhados por uma elite econômica e política inescrupulosa e racista. Dirão ao mundo que continuarão lutando pelos seus direitos constitucionais, impedindo qualquer retrocesso, como a PEC 215, o Marco Temporal, que figuram entre as inúmeras iniciativas anti indígenas em curso nos  poderes Legislativo e Executivo.
 Em Brasília aproximadamente duas centenas de indígenas vindos de várias regiões do país, estarão participando da Audiência Pública promovida pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Nas diversas regiões do país os povos originários

estão organizando atos de protesto e mobilizações pela garantia e respeito a seus direitos, especialmente às suas terras. Estarão também denunciado as violências que vem sofrendo, com frequentes assassinatos e prisões de lideranças, com a total impunidade dos assassinos, um alto índice de suicídios, pela desesperança, preconceito e racismo imperante. Se medalhas por violência contra os povos indígenas houvesse, o Mato Grosso do Sul seria agraciado com ouro.

O país do espetáculo

O espetáculo global impera impávido, roendo o duro osso da crise. Do “impedimento” à Lava Jato, do futebol ao carnaval, das Olimpíadas aos milhões da corrupção sem fim. Mas é também o país de lutadores, de guerreiros, de gente que não abre mão do seu sonho de transformar esse país de uma minoria que acumulam privilégios em uma nação de justiça, solidariedade e paz.



Quando inicia mais um Fórum Social Mundial, em Montreal, no Canadá, nos unimos aos lutadores e sonhadores do mundo inteiro para clamar: um outro mundo e Brasil, são possíveis necessários e urgentes.

Egon Heck     Fotos: Laila/Cimi
Cimi Secretariado Nacional
Brasilia 9 de agosto de 2016


quarta-feira, 20 de julho de 2016

Guarani-Kaiowá: o grito de socorro na Romaria dos Mártires



Os quase cinco mil romeiros, participantes das celebrações da vida e da esperança – Profetas do Reino - ouviram estarrecidos e indignados a denúncia da bárbara situação de violência contra os Guarani-Kaiowá do Mato Grosso do Sul. Representantes desse povo, participantes da Romaria, narraram o rosário de violências que estão passando na incansável luta por seus direitos, por suas terras tradicionais (tekoha).
Em tom dramático, mostraram as marcas da violência. Pedro mostrou onde penetrou a bala que se encontra alojada perto de seu coração. Leila, de Yvy Katu, na fronteira com o Paraguai, expressou a dramaticidade da luta que enfrentam na reconquista de seus territórios. Clamou por socorro, por solidariedade.
Na roda de conversa sobre a defesa do cerrado, contra o uso dos agrotóxicos e transgênicos na produção de alimentos, foi aprovada uma nota de repúdio e moção de solidariedade ao povo Guarani-Kaiowá do Mato Grosso do Sul (veja íntegra da nota/moção). Foi feito um minuto de silêncio em homenagem aos que tombaram, aos que se tornaram sementes do futuro.

A doce rebeldia e a sagrada teimosia


Momento de memória, amor e compromisso. A noite foi chegando na dança dos estandartes dos mártires presentes, ao clarão da lua e o tom suave do “luar do sertão”. Melodia conectando os corações no fogo da memória perigosa dos mártires da caminhada. Chega Pedro, chega Maria, chega a multidão de lutadores e guerreiros na suave brisa da utopia.
Com os corações incendiados pelos desmandos, corrupção e opressão, foram inevitáveis os gritos incontidos de “Fora Temer”. Em sintonia profunda com os profetas e profetizas, a multidão marchou ao som de hinos de libertação e esperança, transformação, luta, fé e união.
Muito canto, muita esperança na esquina de cada abraço, de emocionados reencontros, de históricos e novos lutadores. Nas pegadas de João Bosco e Pedro, os passos da vida e dos profetas, a esperança dá o compasso da semente lançada ao chão, do “Fica Pedro” no coração grande e se expande ao infinito do novo dia de luta.








6ª Romaria dos Mártires da Caminhada
Ribeirão Cascalheira- MT – Prelazia de São Felix do Araguaia
Egon Heck
Fotos Laila/Cimi
Secretariado Nacional do Cimi

Íntegra da nota de moção


NOTA DE REPÚDIO E MOÇÃO DE SOLIDARIEDADE
Os participantes da 6ª Romaria dos Mártires, vindos de todas as regiões do Brasil e de três continentes, a Ribeirão Cascalheira-MT, queremos denunciar o genocídio contra os índios Guarani-Kaiowá no estado do Mato Grosso do Sul, proporcionado pelos jagunços do agronegócio, acobertados pelas autoridades estaduais e federais.
O mais grave é que isso acontece na total impunidade estimulando uma verdadeira guerra contra esse povo.
Exigimos a punição dos responsáveis por esse extermínio e a demarcação imediata de suas terras.
Ribeirão Cascalheira, 17 de julho de 2016.