ATL 2017

ATL 2017

terça-feira, 10 de abril de 2018

Salvos pela reza e resistência



Quando as tropas formadas por agentes da polícia federal, polícia militar do estado do Mato Grosso do Sul, corpo de bombeiros e polícia especial da fronteira – DOF já estavam a caminho da anunciada ação de despejo de duas comunidades Kaiowá Guarani, no município de Caarapó, próximo à Terra Indígena Tey  Ikuê, foram surpreendidos com a decisão da Ministra Carmen Lúcia presidente do Supremo Tribunal Federal, de suspender a reintegração de posse.

  


Era madrugada do dia 9 de abril. Muita reza e uma grande rede de solidariedade nacional e mundial. Mais um massacre estava prestes a acontecer. As rezas de dezenas de Nhanderu e Nhandesi ( líderes religiosos) e a mobilização do povo Kaiowá e Guarani, mobilizados e em resistência conseguira evitar mais um massacre eminente. A decisão da ministra Carmen Lúcia foi decisiva. Se espera que o Estado brasileiro, conivente  e responsável por essa situação permanente de tensões, violência e genocídio, de sequência imediata ao reconhecimento e demarcação das terras dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul, caso contrário continuará sendo acusado em instância internacionais por esses crimes.   

O genocídio continua no Mato Grosso do Sul


“Não aguentamos mais, voltaremos a nossas terras para delas cuidar e viver com dignidade’  Com essa afirmação no documento final da Aty Guasu, realizado na aldeia de Pirakuá, os indígenas Guarani Kaiowá expressaram sua disposição de voltarem  ao sagrado direito dos seus territórios, através da única alternativa que lhes resta: retornar a suas terras tradicionais, os tekohá..
Diante de mais uma operação de brutal violência que significa por si só  a ação de despejo, pois a Constituição federal e legislação internacional da qual o Brasil ´signatário garantem esse direito  incontestável a eminência de violência é grande.


“A comunidade decidiu resistir e está disposta, se preciso for, morrer na resistência”, conforme externaram lideranças das comunidade ameaçadas de despejo. Afirmação que veio corroborar a afirmação já expressa na Aty Guasu de Pirakuá, realizada no final do ano passado “Caso persistir  a reintegração de posso o Estado brasileiro será responsável, pois haverá morte coletiva do povo Guarani e Kaiowá, nós resistiremos até o fim”.
A atitude de total desprezo e desrespeito à Constituição e à lei 6001, Estatuto do Índio de 1973, conforme as quais o Estado Brasileiro deve demarcar todas as terras
indígenas já  a mais de 25 e 35 anos respectivamente. E concluíram “Vamos nos mobilizar para evitar esse massacre.
O povo Kaiowá Guarani pede a suspensão do despejo para que não aconteça mais um massacre, como em 2016.
 Na Aty Guasu de Pirakuá os Kaiowá Guarani externaram sua inquebrantável resistência e esperança “Resistiremos na esperança de crescermos na união, fazendo nascer do nosso chão, regado com nosso próprio sangue e com as lágrimas de nossos sentimentos veremos crescer novos guerreiros”.


Lideranças das aldeias ameaçadas de expulsão estão enviando um grito de SOCORRO. Terminam sua carta de pedido de socorro afirmando a decisão de não abandonar seus tekohá “Somo donos das terras originárias, lutaremos até a morte, nessa terra sagrada”
Conforme expressou o delegado da polícia Federal Luiz Carlos Porto, que esteve com as comunidades/aldeias  na semana passada
“O despejo não resolve o problema, só as demarcações podem resolver o problema, demarcar e demarcar.”
Quem sabe o Estado brasileiro comece, com décadas de sangue derramado, a começar a  pagar a secular dívida para com os povos originários do Brasil

Egon Heck
Cimi, Secretariado Nacional
Abril de 2018


quarta-feira, 28 de março de 2018

Aguas de março – lutas e resistência dos Povos Indígenas



 Os rios são nosso sangue,
A água é sagrada
É nossa mãe
Queremos nossa
Floresta de pé,
Nossos rios limpos!
Estão matando a natureza,
Querem exterminar  nós filhos
Da terra e das águas
Mas nós Munduruku
Não vamos deixar,
Vamos fazer alianças
Com ribeirinhos, quilombolas, pescadores
Vamos lutar juntos,
Com outros países e povos!
As hidrelétricas, ferrovias, mineradoras,
A soja não vão passar,
Nosso sangue vamos derramar
Se for preciso, para o Tapajós
E todos os rios salvar!
Nesses termos Alessandra, liderança Munduruku do rio Tapajós , denunciou com veemência o que o governo e as empresas estão fazendo no território de seu povo, no Pará.
Querem nos matar de sede, de fome, com ódio querem exterminar os povos originários dessa terra. Querem contaminar tudo, nossas terras, nossas águas, nossas vidas.  Mas nossos guerreiros, nossos encantados e deuses, não vão permitir que isso aconteça. Denunciamos esses projetos de morte e anunciamos nossa certeza de que isso não vamos permitir. Convocamos todos  para uma grande união e luta mundial pela vida, contra o grande capital e seus  projetos de morte.

Resistência e luta


Vamos organizar lutas concretas, desde nossas comunidades e aldeias para impedir a continuidade e aprofundamento da destruição e contaminação, das águas, contra a privatização galopante dos nossos aquíferos, como o Guarani. Os participantes Kaiowá Guarani externaram suas preocupações com a eminência do aquífero ser vendio às grandes corporações mundiais, enquanto seus territórios continuam sem serem demarcados e protegidos.
Senhores do poder: Se desejarem aprofundar a destruição das condições de vida em nosso planeta Terra, Gaia, contaminando nossos territórios, terra água e ar, não esqueçam de deixar vossos caixões preparados, pois terão os sete palmos de chão previstos para os crimes contra a humanidade. Disso, tenham certeza, não escaparão!  Nesse sentido se expressaram ao sentimentos d revolta e indignação.
Enquanto o capitalismo selvagem se reconstrói no mar de lama e sangue derramado pelo mundo afora, vai se gestando e construindo novos caminhos e formas de luta e resistência. Brasília está, nestes dias, sendo a capital mundial das águas para a morte (Forum  Mundial das águas, dos poderosos, grande capital e governos com sua gana de privatizações, mercantilização e altos lucros) e para a vida (Fórum Alternativo Mundial das Águas – FAMA.
São milhares de militantes de diversas partes do mundo e do Brasil, que estão em Brasília para se unir ao grito e luta pelas nossas águas e pela vida.
Também estão se somando a esse fundamental movimento delegações indígenas e de populações tradicional de todas as regiões do país.
Os povos  originários estão preparando um dossiê e uma carta denúncia elencando as principais violências a que estão submetidos a partir da destruição e negação de seus territórios. No documento, que está sendo construído coletivamente,  está sendo enfatizado a resistência secular e atual e a disposição de se unirem  aos lutadores de todo o mundo para impedir a anunciada catástrofe mundial com a continuidade desse sistema capitalista neoliberal que assola e destrói a vida no planeta.

Um mundo e um Brasil diferentes


Quase duas décadas depois da explosão de revolta e partilha das experiências de luta por mudanças e transformações profundas expressas nos Fóruns Sociais Mundiais,  que tiveram suas primeiras três edições realizadas em Porto Alegre, O Brasil é novamente palco de grandes fóruns que oxigenam e  trazem esperança de que um outro mundo e Brasil são possíveis e urgentes. E os povos originários estão presentes trazendo suas contribuições a partir de suas sabedorias, religiosidade e cosmovisões e reafirma o que expressaram em seu documento no Terceiro Fórum Social Mundial, em 2003 “Nunca mais um Brasil sem nós os povos indígenas”.


No no FAMA duas denúncias fortes fizeram: As grandes violências e ameaças dos grande projetos na Amazônia,  denuncia feita em diferentes espaços pela liderança do povo Mundurucu Alessandra.  Os Kaiowá , Guarani e Terena do Mato grosso do sul mais uma vez denunciaram a não demarcação de seus território, fato esse que desencadeia um mar de violência e mortes. Também ressaltaram  e denunciaram   as intensões e as tratativas oficiais para a privatização do Aquífero Guarani.  Denúncia esta reforçada por expositores do debate.
Representantes do Cimi nos debates das atividades desenvolvidas na UNB – Universidade Nacional de Brasília e no Parque da cidade denunciaram o genocídio anunciado sobre 120 comunidades/povos indígenas  “isolados” (em isolamento voluntário ), diante do avanço desenfreado de frentes de expansão do agronegócio, mineradoras e madeireiras, nos espaços em que sobrevivem. A qualquer momento poderão ser extintos. Com o agravante que a Funai sucateada e sem recursos tem desativado postos de vigilância, conforme o general presidente de órgão, deixando ainda mais vulneráveis. O Brasil é o país que tem maior número de povos “isolados” do mundo A sobrevivência depende de ação urgentes e solidariedade nacional e internacional

Egon Heck  fotos Laila/Cimi
Secretariado Cimi
Brasíslia, março de 2018





terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Água no céu e na terra


Chuva grossa, intermitente. Água se espalhando pelo chão formando verdadeiros rios. "Colher a água


Reter a água
"Guardar a água
Quando a chuva cai do céu.
Guardar em casa
Também no chão
E ter a água se vier a precisão.
No pé da casa você faz sua cisterna
E guarda a água que o céu lhe enviou
É dom de Deus, é água limpa, é coisa linda
Todo idoso, o menino e a menina
Podem beber que é água pura e cristalina.
(Água de chuva - Roberto Malvezzi, Gogó)



Olhar atento. Um sonho rolando no chão encharcado. A água abundante hoje, poderá faltar amanhã. No Centro de Formação Vicente Cañas, as águas rolando livremente são o anúncio de algo importante que está por acontecer. É dia 12 de janeiro. Tempo de chuva.
Acabaram de chegar quatro nordestinos. De água e cisternas eles entendem muito. Ainda mais de cisternas de placas, Implementação de Tecnologia Social. Vieram a convite do Cimi para realizar no nosso espaço de formação, uma obra já há bastante tempo sonhada, a construção de cisternas para captação de água da chuva. 
Os três jovens nordestinos chegaram com esse conhecimento técnico e projetaram o seu tempo de serviço: quatro cisternas com a capacidade de armazenamento de 51 mil litros cada. Quatro cisternas levaria quatro semanas para serem concluídas, ou seja, uma semana para cada cisterna. E assim aconteceu.  Dia 12 de fevereiro aí estavam os três jovens com orgulho de tudo que fora planejado, concluído. E mais, sorridentes, apesar da saudade dos familiares e amigos: “Nunca trabalhamos num lugar tão tranquilo e agradável”, afirmou o mais experiente e responsável pelo grupo. E nós que tivemos a felicidade de acompanhar o andar das construções estávamos igualmente satisfeitos. Serão mais de 200 mil litros de água da chuva disponíveis para os momentos de maior necessidade.

Tempos de escassez e maltrato da água


Quando um amigo nosso que trabalha com sistemas agroflorestais veio passar uns dias conosco, ficou impressionado com o Centro de Formação Vicente Cañas. Espaço agradável e aconchegante. Mas deixou uma observação pertinente. Esse não é um espaço do agronegócio. Ao contrário, é uma forma de produção de vida que busca erradicar tal modelo.

Portanto, o exemplo das práticas alternativas com relação à água, energia e produção tem que estar presentes nesse espaço. Com as cisternas esperamos estar um passo coreto.

O Centro de Formação Vicente Cañas começou a ser organizado pelo Cimi a partir de 1995, quando foi adquirido o terreno e feitas as primeiras reformas numa precária estrutura ali existente. Foi uma decisão da entidade para dar viabilidade a um as principais linhas de atuação da entidade: a formação de missionários e dos povos indígenas. Além disso, era uma prioridade disponibilizar um espaço de apoio aos povos indígenas na luta por seus direitos. Centenas de encontros e articulações se realizaram neste espaço que está prioritariamente voltado para a formação política dos indígenas e dos missionários. Desde 1996 começaram a ser realizados ali os cursos de formação dos membros do Cimi.  No início do século, o Centro serviu de espaço para a realização dos Acampamentos Terra Livre que estão se realizando desde 2004. Num desses encontros, chegaram a ficar ali acampados mais de 700 indígenas.


Graças ao apoio de amigos e entidades, conhecimentos técnicos, competência e habilidade dos nossos “artistas do nordeste”, estamos dando a nossa contribuição não apenas ao debate e alerta sobre a eminência de uma catástrofe mundial pela escassez de água potável no nosso planeta terra, planeta d’água, com gestos concretos com o cuidado com a água.
Brasília e entorno que nesses últimos anos já estiveram sob regimes de racionamento d’água estará sediando daqui umas semanas o 8º Fórum Mundial das Águas. Os sedentos de lucro do mundo e as grandes empresas virão com o intuito de garantir o seu domínio sobre as águas, pois assim dominarão mais facilmente a vida (ou morte) no planeta terra.


Em Brasília também estará se realizando o Encontro Alternativo das Águas. Será o momento de ampliarmos o grito da água, da vida.
Egon Heck
Cimi, Secretariado Nacional
Fotos Laila/Cimi e Egon


Brasília, 16 de fevereiro

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Xavante voltam ao cenário de luta pelos seus direitos



O processo de luta dos povos indígenas do Brasil, a partir da década de 70 teve como protagonistas importantes os índios Xavante, do Mato Grosso. O despertar desse povo para a luta pelos seus direitos, se deve em grande parte ao processo das Assembleias  Indígenas que começaram acontecer a partir de abril de 1974.

No bojo desse movimento indígena emergente,  surgiu uma promissora dinâmica de visitas e gestos de solidariedade entre os povos originários no Brasil. Estava o porão da casa paroquial de Xanxerê quando chegaram um indígena Bororo e um Xavante, enviados pela Assembleia Indígena, para conhecer de perto o sofrimento, violências, invasões das terras e roubo dos recursos naturais, principalmente dos povos indígenas do sul do país e do Mato Grosso do Sul. Era outubro de 1975. Estava em curso um novo momento  em que a emergência e luta pelos direitos dos povos indígenas dando visibilidade às  violências e negação de direitos dos povos originários, que estavam condenados ao extermínio, com prazos e datas marcadas pelos seus algozes, as elites genocidas deste período. E os maiores protagonistas dessa resistência e luta foram sem dúvida os Xavante.

Diante do que viram e sentiram,, os dois Xavante e um Bororo, após a visita, solicitaram que defendessem as suas terras contra qualquer tipo de invasão. E se precisassem era só mandar um recado que eles desceriam com  500 guerreiros Xavante para ajuda-los.






Lideranças Xavante como Aniceto que foi o porta Voz dos povos indígenas no momento em que foi pedido ao  então presidente Geisel que fosse rasgado o projeto da Emancipação, que  na verdade era a liberação das terras indígenas para o latifúndio, tiveram um papel de destaque nas lutas dos povos indígenas do Brasil. Também teve destaque a eleição de Mario Juruna Xavvante, pr ser o primeiro indígena eleito deputado federal.

Vejamos um relato de José Tsonopré, de São Marcos “Em 1972, uma vez fomos na casa de intruso. Mandamos retirar os materiais dele para fora de casa. Ele chegou e reuniu  os empregados dele pra atacar nós. Depois disso os índios quase não parava em casa. Todo o dia vigiando a reserva. Então eles viam o pessoal nosso reunidos em armas. Nós mesmos limpamos, engraxamos rifles e vigiamos a noite inteira até amanhecer. Com o medo que eles tem, voltaram atrás. Então fazendeiro arrumou metralhadora. Nós fomos a Cuiabá, avisamos delegado. Então a polícia cercou a fazenda e tirou tudo. Não aconteceu briga e eles  saíram. Para a defesa de nossa área devemos ser unido. Unido resolve mais fácil” ( Boletim do Cimi n. 24, outubro/dezembro 1975)

E a solidariedade do povo Xavante a outros parentes pelo Brasil afora foram se multiplicando na medida em que as situações de violência e exploração foram sendo visibilizadas.
Mario Juruna Xavante foi também visitar os índios do Mato Grosso do Sul. Ficou indignado e escreveu um relatório nos seguintes termos:
 “Eu Mario Juruna chefe da comunidade  Xavante da aldeia de Namucurá, no Norte do  Mato Grosso, vim visitar os índios que moram no sul do Mato Grosso para ver como  que eles estão vivendo, se estão sendo ajudado e que problemas eles estão passando.

No dia 27 de novembro d (1979)  visitei os índios Kaiowá liderados pelo “capitão”   Lidio, que moram  na fazenda Mate Laranjeiras, e fiquei muito triste de ver a pobreza que eles estão vivendo. Eles vivem preso que nem gado em piquete, na entrada  da fazenda o gerente colocou cadeado, assim ninguém visitar índio, nem Funai, nem pessoal da igreja, nem imprensa, assim ninguém vê  que índio tá vivendo como verdadeiro escravo...

Depois  fui visitar mais índio Kaiowá que mora na terra ocupada pela fazenda. Paraguassu. E fiquei mais triste com dor no coração de ver bastante famílias de índios vivendo pela beira das estradas nas terra da fazenda, que nem escravos vivendo com as crianças em barraquinha coberta de capim, com plástico preto, que nem mendigo favelado que eu vi em São Paulo e no Rio de Janeiro. Transcrito  do  relatório manuscrito,( 4 páginas) Dourados 29 de novembro de 1979)




Na década de 70 e 80 os Xavante protagonizaram lutas expressivas de conquista de seus direitos, especialmente seus territórios. Por diversas vezes derrubaram presidentes da Funai e funcionários indesejados. Tiveram participação importante nas lutas coletivas e no movimento pan indígena das décadas de 70 e 80. Vale lembrar o cacique Aniceto que foi o parta voz dos povos indígenas do Brasil por ocasião do não ao projeto de emancipação. Igualmente  relevante foi a contribuição nas lutas do único indígena eleito deputado federal até hoje em dia.
A recente luta de Marawatsede trouxe de volta o brio e a coragem guerreira deste povo. Agora os Xavante de Parabubure estarão novamente trazendo a luta dessa comunidade pela sua terra.
A vitória será um alento e esperança para os povos indígenas no início de mais um ano.

Secretariado Cimi
Egon Heck       Fotos: Laila/Cimi
Brasilia,  8 de fevereiro 2.018


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Agroecologia e resistência das economias indígenas

 
   
O que poderia parecer apenas mais um curso de formação a se realizar no Centro de Formação Vicente Canhas, em Luziânia acabou se tornou um momento de retomada de uma das dimensões fundamentais do Cimi nesses mais de 45 anos de existência:  a sustentabilidade e soberania alimentar dos povos indígenas em seus territórios
Partindo da constatação de que esse é um dos calcanhares de aquiles dos povos indígenas de gravíssimas consequência  nesse momento do enfrentamento e ferocidade do agronegócio. Durante 5 dias buscamos aprofundar essa realidade e traçar estratégias de apoio aos povos indígenas em sua caminhada de construção de autonomia, autodeterminação.

O avanço avassalador do agronegócio sobre os territórios indígenas e os recursos naturais neles existentes, atualiza na atual conjuntura do país a tese dos governos da ditadura civil militar há poucas décadas: um Brasil sem índios, com a total liberação dos territórios indígenas para o latifúndio e agronegócio.  Porém a resistência e união dos povos nativos conseguiu  não apenas reverter esse processo,  mas possibilitou, ao revés, um extraordinário crescimento populacional, organizativos e participante da luta dos movimentos sociais para a construção de um novo projeto para o país, com o reconhecimento de mais de 300 povos indígenas com quase um milhão de pessoas. Um país plural, socialmente justo, em que o mais importante é o bem viver de seus povos.

Resistência e  insurgência dos povos nativos, originários


Nos últimos anos os povos indígenas bem como os pobres do campo e as populações e povos tradicionais mantiveram permanente enfrentamento com o regime desenvolvimentista imposto e contrário aos direitos constitucionais dos povos indígenas. Em outubro deste ano estarão sendo celebrados os 30 anos de existência da Carta Magna do pais. Serão também 25 anos de descumprimento da Constituição, particularmente o que determina que o Estado brasileiro demarcasse todas as terras indígenas. Vergonhosamente não apenas faltam demarcar quase a metade das terras indígenas, bem como as já demarcadas estão a grande maioria invadidas e sob a pressão feroz e permanente do agronegócio, das madeireiras, das mineradoras e setores militares.

Graças à permanente  mobilização dos povos conseguiram impedir a retirada dos direitos da Constituição, mas também formaram um amplo processo de alianças, desde as realidades e lutas da aldeia até encontros com personalidades mundiais, como foi o recente encontro com o Papa Francisco, em Puerto Maldonado e a participação expressiva no Encontro Nacional das CBBs – Comunidades Eclesiais de Base) que está se realizando em Londrina.
É a insurgência contra essa política de ataque aos direitos indígenas e a exigência do cumprimento da Constituição e garantia dos direitos.
Os sistemas agroecológicos,  agroflorestais e economias indígenas são importantes armas nesse enfrentamento
No enfrentamento com os interesses anti-indígenas  será preciso muita união e sabedoria, disposição e persistência.

Experimentos e visitas

O encontro também procurou desenvolver o conhecimento através de experimentos, visitas, questionamentos, debates

José Zarate, engenheiro agrônomo que trabalha na Fundação Metropolitana, Colômbia, trouxe
 informações e exemplos práticos que muito nos ajudaram na construção de linhas de ação políticas e práticas para a implementação de sistemas agroecológicos e agroflorestais na nossa atuação  junto aos povos indígenas.
José insistiu na importância de se ter um plano de vida, individual ou comunitário, para se poder avançar em nossas intenções de consolidar e implantar sistemas agroecológicos.  Algumas sugestões ficaram evidentes, como aumentar o intercambio de sementes e experiências; que o espaço do Centro de Formação do Cimi seja um lugar para visualizar e estimular as práticas alternativas, visando a  superação do modelo de produção capitalista,   constituir um banco de sementes no CFVC


Egon Heck
Cimi,  Secretariado
Brasília, 23 janeiro 2018
Fotos Laila Menezes


sábado, 6 de janeiro de 2018

Para que o mundo não acabe

A reza e a forte emoção

Atanásio é um dos maiores rezadores Kaiowá Guarani na atualidade, no Mato Grosso do Sul.
A Aty Guasu estava animada com fortes debates, naquele início de dezembro de 2017. Repentinamente se iniciou uma movimentação em torno do Nahanderu. Assim foi registrada pela liderança Arnaldo:



“Atanásio começou a rezar uma reza forte invocando os entes sagrados para acabar com o mundo. Entrou em transe e suou muito. Por sorte seu Jorge chegou chorando e pediu que Atanásio não acabasse a reza ainda. Que tivesse fé. Atanásio estava em transe e não conseguia mais parar enquanto cada Kaiowá e Guarani sentia um aperto em seu coração e ninguém conseguia fazer nada, apenas chorar pelo fim do mundo, mas Jorge teve força e impediu Atanásio de continuar. Quase morremos todos.

Atanásio então pediu calma e ensinou uma outra reza que serve como antídoto para a reza dele para que quando os espíritos o conduzam para acabar com o mundo outros rezadores possam intervir”.

Atanásio falou também sobre o território: “ Temos reza para amenizar a dor e as feridas espirituais. O pai (pa’i kuara) e nosso grande Deus vão nos ajudar. Meu pai me ensinou para fazer o bem para os Guarani e Kaiowá. Mas os brancos não. Muitas vezes temos muita misericórdia dos brancos e os brancos nunca tiveram de nós. Para que os jovens, crianças, possam seguir os caminhos de antes, ajudar o povo e saber lutar contra o branco é preciso perguntar aos mais velhos como são as coisas em nossa cultura”.



Não poderia deixar   passar esse final de 2017 e início de 2018 sem deixar esse registro que muito realisticamente expressa a luta, a resistência e a força dos Kaiowá Guarani. É nesse contexto de profunda espiritualidade e sabedoria que passos lentos, mas seguros, vão sendo dados por esse povo, especialmente na conquista de suas terras, no retorno a seus tekohá (terras tradicionais).
No decorrer do ano que acaba, várias delegações desse povo estiveram em Brasília denunciando as violências que estavam sofrendo pelos interesses políticos e econômicos da região.

Porém, nada os demove ou intimida nessa firme determinação de continuar lutando por seus direitos, particularmente por seus territórios sagrados, fonte e base de suas vidas conforme sua cultura.
Apesar do decreto de morte e genocídio em curso, eles lentamente vão conseguindo pequenas vitórias, que oxigenam sua determinação de conquista de seus direitos. No final do ano, a decisão da Justiça Federal, 3ª Região, suspendendo a reintegração de posse do tekohá Bakurity, no município de Dourados, foi muito importante.


Uma delegação veio a Brasília exigir agilidade na demarcação das terras, dando continuidade nos processos já em andamento e constituindo Grupos de Trabalho para identificar as terras ainda sem providência, como Ceroi e Takuaju Laranjal nos municípios de Jardim e Guia Lopes da Laguna.



Nos últimos anos, vem se consolidando o processo de organização e resistência, destacando-se a Aty Guasu (Grande Assembleia) com participação ampla das aldeias/comunidades, além das Aty Guasu das mulheres e dos jovens. Além disso, os professores indígenas já têm um grande acúmulo de luta e organização.
Que os mártires dessas lutas nas últimas décadas continuem dando força e êxito às lutas desse heroico e resistente povo e a todos os povos indígenas do Brasil.

Povos indígenas 2017: sob o fogo cruzado do Estado

Os últimos anos têm sido talvez dos mais violentos, ameaçadores e genocidas desse último meio século. Talvez nunca os Três Poderes estiveram tão articulados em suas inciativas contra os direitos dos povos indígenas, do que nesses últimos quatro anos. E nada indica que seja diferente nesse novo ano que se inicia.

Se por um lado é possível prever um cenário de fogo cruzado, de muita violência, também é verdade que esse quadro aterrorizante tem gerado um promissor movimento de união e articulação dos povos indígenas e um crescimento expressivo dos apoios e novos aliados, dentro e fora do país.
Acreditamos que a força dos encantados, dos deuses e dos espíritos dos guerreiros garantirão mais um ano de vitórias da vida e do Brasil justo e plural pelo qual todos estamos lutando.


 Pode o mundo não acabar, porém só com a união e os valores e sabedoria dos povos originários do mundo será possível que a esperança de um mundo melhor para todos possa avançar. Caso contrário, a crescente destruição da natureza irá sim inviabilizar a continuidade da vida no planeta terra.


Egon Heck
Cimi, Secretariado nacional

Brasília, 1 de janeiro de 2018 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Aty Guasu: "Temos misericórdia dos brancos e os brancos nunca tiveram de nós", afirma Guarani Kaiowá
Crédito das fotos: Egon Heck/Cimi





Por Egon Heck, Secretariado Nacional do Cimi, e Adalto Guarani e Kaiowá

Final de ano se aproximando. O Conselho da Aty Guasu Kaiowá Guarani sentiu a necessidade de realizar um momento forte de muita reza e luta, especialmente para enfrentar os poderosos inimigos e avançar na reconquista de seus territórios tradicionais, os tekoha - lugar onde se é.

Foi também um momento de memória das importantes lutas, avanços e derrotas, com o assassinato de dezenas de lideranças. Foi escolhido a Terra Indígena Pirakuá, pelo seu forte simbolismo, pois em torno da recuperação desse tekoha se deu o início de uma longa caminhada de luta pela terra.

É uma das poucas terras com o processo de regularização concluído e totalmente ocupado pelos Kaiowá Guarani. Boa parte da terra ainda está coberta de mata nativa. Essa foi a segunda Aty Guasu realizada nesta aldeia, em quase 40 anos. Foram mais de 400 participantes indígenas do Brasil, Argentina e Paraguai.

Fora Fórum dos Caciques!

Um momento de tensão aconteceu quando no final do segundo dia apareceu um grupo  do Fórum dos Caciques, que é uma divisão do movimento indígena no Mato Grosso do Sul, forjado na Assembleia Legislativa por ocasião da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) contra o Conselho Indigenista Missionário (CPI) - que teve seus encaminhamentos absurdos arquivados por falta de provas das acusações absurdas feitas contra a entidade.

Depois dos 12  indígenas Terena, Kinikinau e Ofaié se apresentarem e manifestarem seu desejo de participação nos dois últimos dias da Aty Guasu, uma forte e contundente manifestação contrária a essa presença indesejável foi encabeçada pelas mulheres. Questionaram  o fato de serem subvencionados e se sentarem ao lado dos notórios inimigos dos índios. “Quem senta ao lado de criminosos é criminoso também, afirmou um das mulheres Kaiowá Guarani. Após falas contundentes, a decisão inconteste: “Vocês não vão ficar na nossa Grande Assembleia. Podem ir embora”.





Depoimentos

Atanásio Kaiowá Guarani, beirando os 90 anos, continua sendo figura central nessa Aty Guasu. Como Nhanderu é o mais procurado para abençoar os inúmeros indígenas que vão buscar a sua benção, e conduzir os rituais realizados com muita força e intensidade espiritual. O primeiro e mais importante dia da Grande Assembleia foi conduzido pelos líderes religiosos que conduziram os rituais e depoimentos dos Nhanderu e Nhandesi. Atanásio falou sobre o território: “Temos reza para amenizar a dor e as feridas espirituais".

O velho Nhanderu acrescentou: “O pai (pa’i kuara) e nosso grande deus vão nos ajudar. Meu pai me ensinou para fazer o bem para os Guarani e Kaiowá. Mas os brancos não. Muitas vezes temos muita misericórdia dos brancos e os brancos nunca tiveram de nós. Para que os jovens, crianças, possam seguir os caminhos de antes, ajudar o povo e saber lutar contra o branco é preciso perguntar aos mais velhos como são as coisas em nossa cultura.”


Para Atanásio, é preciso “viver direito e praticando sempre a nossas rezas; todas as noites, manhãs, tardes. Por exemplo, quando a mulher vai ter um filho ela procura o médico ao invés de procurar o rezador que lhe dirá como é ter e criar um filho na cultura Kaiowá e Guarani. Para que as lideranças não morram na retomada das terras, tem que consultar primeiro o rezador.”
O Nhanderu Lico Nelson Guarani e Kaiowá assim expressou seu apelo: “sim, nos rezadores somos sempre simples e humildes e somos os advogados dos advogados, os juízes dos juízes, mas somos humildes e não temos orgulho ruim. Não nos exibimos e nem nos achamos maiores que o povo".

Fala aos jovens: "Procurem os anciãos"

"Hoje falo e peço para os jovens e novas lideranças que estão à frente da Aty que acompanhem muito a luta, pois nós já estamos partindo e quem sofrerá são nossos filhos e nossos netos. Saibam que a cultura dos brancos nunca vai nos salvar: nem a terra, nem nossas vidas. Por isso todos têm que aprender o caminho da reza. Nós temos a maior das armas. A reza, o mbaraká e temos que estudar a escola da reza. Às vezes, o próprio indígena não tem fé no mbaraká deixando nossos rezadores para trás sem poder ajudar na batalha. As igrejas influenciam muito as pessoas e nunca vai entender que temos uma cultura e espiritualidade própria que pode e deve ser manifestada por nós. Acredito que nós não vamos mais permitir que a cultura dos brancos invada nosso modo de viver”, discursou Nhanderu Lico Nelson Guarani e Kaiowá  

Alda Nhandesi  explicou como foi feito a retomada do Pirakuá. Lembrou que foi uma das rezadoras que participou da retomada. “Pirakuá se chamava Puente Kyhá e eu ajudei a liderar a reza. Quem tava junto era Lico, Rosalino, Carlito, Amilton Lopes. E hoje eu vim de novo nesta comunidade, depois de 30 anos. Queria dizer para os novos que estão nessa luta para conversar mais com os rezadores e valorizarem o que deixamos para eles, nossa cultura e nosso modo de viver e a língua. Quando vamos por nosso caminho, é preciso ir rezando durante a caminhada. Eu estive muito tempo nessa resistência e em meu tempo nós valorizamos muito os rezadores, por isso conseguimos demarcar. Qualquer liderança que for retomar, favor procurar os anciões”.



Rivarolla Guarani Mbya, cuja aldeia fica na Argentina, falou da importância da união dos esforços e da lutar conjunta: “Sempre estamos pensando em unificar os quatro países para que possamos comunicar melhor e também para que os povos originários sempre possam serem vistos como uma grande nação. De hoje em diante precisamos fazer documentos que iniciem esta articulação. Penso que no futuro nossos netos e nossos filhos precisam desta memória. De que somos uma nação independente das fronteiras. E que juntos poderemos fazer uma luta mais forte".

Para o Mbya a luta não pode ser separa. "Quando ouço os Kaiowá e vejo as imagens do genocídio isso me dói. Não posso permitir que isto aconteça. Nestes tempos cada governo de cada país, juízes, polícia têm que respeitar nossa organização social. O problema Kaiowá é um problema internacional, pois me incluo na sua luta e desejo sempre uma boa vida aos irmãos do Brasil. Seguimos juntos". Eliseu Lopes Kaiowá Guarani concluiu uma de suas falas dizendo: “Não é tempo de ter medo ou dúvida, agora é hora de seguir com toda força. Temos que ter isso na cabeça. Agora temos que pensar: É enfrentar ou morrer”.

Leia na íntegra a carta final da Aty Guasu:







DOCUMENTO FINAL DA ATY GUASU - PIRAKUÁ

Nós, povo Guarani e Kaiowá reunidos na Aty Guasu, nos dias 27/11 a 01/12/2017 na Aldeia Pirakuá, semente de nossa luta e reconquista de nossa terra, razão pela Marçal Tupa’i foi assassinado enquanto lutava pelo seu povo.

Essa Aty Guasu foi marcada pela participação de nossos parentes Guarani Nhandeva, M’bya e Pa’i tavy terã da Argentina e do Paraguai, além da presença solidária de aliados, entre os quais a UNILA (Universidade Latino americana).

Para nós a Aty Guasu foi um grande momento celebrativo, memória dos que tombaram na luta pelo nosso Território tradicional realizado com muito ritual, muita emoção e lágrimas. “Nossos mortos têm voz”. A Aty Guasu foi um momento forte para fortalecer e valorizar nossos Nhanderu e Nhandeci, nossos mestres tradicionais e que estiveram presente em número significativo.

Essa Aty Guasu, depois de 40 anos, vem mostrar que esse é o único e mais eficaz caminho para conquistar nossos territórios e garantir os nossos direitos. Desde a retomada de Pirakuá em 1982 até hoje foram mais de 40 retomadas realizadas, cujo processo de regularização deveria estar sendo realizado pela FUNAI.

Em 2002 o governo através da FUNAI assumiu a demarcação das terras dos povos Guarani e Kaiowá como prioridade do órgão. Porém, nos cinco anos seguintes nada foi feito. Foi então que as nossas lideranças junto com o Ministério público decidiram ir a Brasília para pressionar a demarcação de suas terras. Nesta ocasião foi assinado o TAC (Termo de ajustamento de conduta) em que a FUNAI se comprometia a identificar todas as terras Kaiowá e Guarani nos anos seguintes. Passaram-se dezoito anos e a maior parte das terras não foi regularizada e pelo menos cinco das lideranças que assinaram o TAC já morreram.

Essa omissão do governo é a razão do quadro extremo de violência e genocídio em que passa os kaiowá e Guarani. Situação que gera muita indignação e revolta em todos nós. Nossas lideranças continuam sendo perseguidas, criminalizadas e assassinadas. Toda essa situação causa danos físicos e psicológicos nas pessoas levando em muitos casos a dependência química e ao suicídio.

Não resta às nossas comunidades outro caminho a não ser a retomada das terras tradicionais.

REPUDIAMOS:

- Repudiamos a tradição das PECs no Supremo Tribunal e no Congresso Nacional, não aceitamos a tese do Marco Temporal. Ele é um decreto de morte para nosso povo;
- Repudiamos o discurso preconceituoso e discriminatório do deputado Eduardo Bolsonaro contra os povos indígenas e comunidades tradicionais;

- Repudiamos a justiça brasileira, segunda instância de São Paulo que colocou em liberdade os cinco fazendeiros responsáveis pelo assassinato de Clodiodi no massacre de Caarapó;

- Repudiamos as ações violentas praticadas contra nosso povo, os assassinatos e ocultação dos corpos de Rolindo Vera e Nísio Gomes e que a justiça até agora não se pronunciou;

- Repudiamos o decreto baixado pelo presidente Michel Temer autorizando o porte de armas para a defesa da propriedade privada porque isso estimula a violência e os ataques aos povos indígenas e comunidades tradicionais.

DENUNCIAMOS:

- Denunciamos a destruição da natureza com o uso abusivo de agrotóxicos que poluem o ar, a terra e as águas atingindo nossas comunidades. Estamos adoecendo cada vez mais. Não aguentamos mais, voltaremos às nossas terras para dela cuidar e viver com dignidade. Continuaremos denunciando essa situação em nível nacional e internacional como um dos piores quadros vividos hoje no Brasil e no mundo;

- Denunciamos o Estado brasileiro pela omissão em relação aos nossos direitos e pela prática de violência contra nosso povo, de modo especial a agressão às nossas crianças que estão sendo retirada das nossas comunidades para colocar em abrigos encaminhadas para adoção;

- Denunciamos as práticas colonizadoras genocidas e etnocidas que continuam cooptando lideranças, provocando divisões e conflitos entre os povos indígenas;
- Denunciamos os ataques agressivos praticados pela polícia federal, militar, civil, rodoviária, DOF, bombeiro, ambulâncias e funerárias nas ações de reintegração de posse;

- Denunciamos os fazendeiros, sindicato rural, FAMASUL que além de invadir as nossas terras fomentam os ataques paramilitares e mantêm pistoleiros vigiando e dando tiros em cima de nossos tekohas;

- Repudiamos e denunciamos o poder judiciário pelas constantes ações de despejos em nossos tekohas.

NOS COMPROMETEMOS:

- Fortalecer a nossa luta através dos nossos rituais, da nossa cultura. Nós continuaremos resistindo para conquistar e defender nosso território, apenas tendo nosso corpo como escudo. Se caso persistir a reintegração de posse o Estado brasileiro será responsável, pois haverá morte coletiva do povo Guarani e Kaiowá, nós resistiremos até o fim;

- Unificar a nossa luta como nação Guarani, hoje presente em cinco países: Brasil, Argentina, Paraguai, Bolívia e Uruguai com 280 mil habitantes e 1400 comunidades.

Resistimos na esperança, crescemos na união fazendo nascer de nosso chão, regado com nosso próprio sangue e com as lágrimas dos nossos sentimentos, novos guerreiros.

Aldeia Pirakuá, 01 de dezembro de 2017

Aty Guasu - Povo Guarani, Grande Povo