Mobilização JMI

Mobilização JMI

quarta-feira, 26 de abril de 2017

A repressão e a sabedoria



 “Vamos fazer a guerra com a nossa sabedoria”, expressou uma das lideranças indígenas presentes no 14 Acampamento Terra Livre  que está se realizando em Brasília.  Contra a crueldade de mais de cinco séculos de invasão, extermínio e genocídio, só a sabedoria, forjada na resistência e guerra permanente possibilitaram a sobrevivência dos 305 povos indígenas nas terras brasiiis.



Ontem o  Estado brasileiro proporcionou mais um desses atos que envergonham o nosso país, levando aos tribunais internacionais, no banco dos réus.  Agiu contra os mais de três mil indígenas que foram manifestar diante do Congresso,  suas indignações e temores. Foram, de maneira especial dizer às autoridades, ao Brasil e ao mundo,  que não mais suportam tamanhas agressões, crueldades e violências. Foram exigir respeito e o fim das atitudes de colonialismo e repressão contra os povos primeiros dessa terra.
No seminário sobre os Direitos Originários dos povos indígenas, realizado pela Procuradoria Geral da República, o coordenador da 6ª Câmara, Dor. Luciano Maia, demonstrou como o Estado Brasileiro tem sido o maior violador dos direitos indígenas. Aí reside o maior desafio para os povos indígenas e seus aliados.

O Brasil plural se insurge – nada a temer



Enfrentamos uma das piores conjunturas para os povos indígenas, as populações tradicionais, os movimentos sociais e o  meio ambiente. Vivemos um dos piores momentos das últimas décadas, particularmente após o processo constituinte de 1988. Uma série de mortíferos PLs e PECs, Portarias e decretos estão no gatilho, espreitando o exato momento de disparar  a partir  entapetados e esterilizados ambientes do poder, da corrupção e da opressão. O Estado brasileiro que nunca admitiu e respeitou a pluralidade de povos e nações, vozes e rituais, organizações sociais e formas de Bem Viver,  mostra seus dentes carcomidos pelos séculos  de colonialidade  e crueldade contra os povos originários.

Demarcação Já – nenhum direito a menos




Uma das exigências Expressas com unanimidade pelo movimento e comunidades e povos indígenas é o imediato reconhecimento e demarcação das terras/territórios indígenas. Esse processo de paralização das demarcações já  iniciou no governo anterior, e não apenas permanece, como recrudesce em  função das prioridades de um projeto desenvolvimentista absolutamente anti indígena. Trata-se de uma cabal afronta à Constituição e legislação internacional, do qual o Brasil é signatário.


Conforme levantamentos realizados pelo Cimi ainda existem mais de 352 terras indígenas sem nenhuma providência 352, a identificar 175  e 398 registradas, de um total de 1.116 terras indígenas . Estamos, portanto diante de um gravíssimo quadro,  pairando sobre esse direito sagrado e primordial ameaçadoras nuvens de incertezas e retrocessos.


Momentos fortes da luta

Os duros e longos caminhos da autodeterminação e autonomia dos povos indígenas no Brasil e no continente vão sendo trilhados e forjados, com sabedoria e  resistência milenar. Como disse  o antropólogo Meliá “Os caminhos dos povos indígenas serão os nossos caminhos de futuro”.
É preciso mudar nossas mentes e nosso espírito eivado de colonialidade para darmos espaço para  os projetos de autodeterminação e Bem Viver dos povos indígenas. Será preciso ousadia e esperança, persistência e coragem revolucionária, sonhos e utopia. Um novo projeto de humanidade é possível, necessário e urgente. Que saibamos, com os povos indígenas, galgar essa montanha de obstáculos, repressão e negação de direitos.
Que esse Acampamento Terra Livre  Faça avançar a união na luta dos povos indígenas e a aliança sempre maior entre todos os que lutam pelas mudanças e transformações profundas em nosso país e na Ameríndia.
 Enquanto isso as vozes e rituais plurais conclamam todos os povos para consolidar a união. Unidade na diversidade, com os encantados, deuses e guerreiros, todos presentes no apoio à luta pela vida, pelos direitos, pelos territórios e pela justiça.
Muitos olhos arderam, muita respiração ficou dificultada com mais um espetáculo de bombas e sprays  covardemente lançadas pelo poder opressor contra as raízes profundas do Brasil plural.


Egon Heck – Fotos Laila Menezes
Cimi, Secretariado Nacional

Brasília, 26 de abril de 2017 

segunda-feira, 24 de abril de 2017

CIMI 45 ANOS

Sem ufanismo ou derrotismo tive o privilégio de viver esses 45 anos do Cimi, o Conselho Indigenista Missionário, junto aos povos indígenas, na luta por seus direitos. O Cimi tem definido claramente linhas de ação que têm norteado uma atuação profética, respeitosa e radical na perspectiva da vida e da autodeterminação. O testemunho de centenas de missionários, religiosos e leigos tem possibilitado um enfrentamento permanente com as forças anti-indígenas no Brasil. Tem sido de fundamental importância o apoio permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, assim como das dioceses e prelazias.

Ao fazermos uma breve memória da atuação do Cimi, principalmente nos últimos anos, o fazemos no intuito de contribuir com a caminhada histórica da entidade, feita de luzes e sombras, conflitos e esperança, martírio e vitórias.

O ataque permanente aos direitos indígenas e a incidência internacional

Nestes últimos cinco anos vimos um permanente e intenso ataque aos direitos constitucionais e originários dos povos indígenas. Esse quadro alarmante e genocida parecia ter sido superado com a aprovação do capítulo VII da Constituição de 1988. Nos artigos 231 e 232, fica superada a perspectiva integradora e assimilacionista, a superação da tutela e garantia dos direitos originários dos povos indígenas a seus territórios. O que vimos desde então foi um alinhamento crescente dos interesses anti-indígenas, no intuito não apenas de suprimir partes desses direitos, mas especialmente de garantir a eliminação deles, na lei e na prática.

Só não foi consumado esse retrocesso e o consequente genocídio dos povos indígenas no Brasil graças à permanente mobilização dos povos, comunidades e organizações dos povos indígenas, com apoio de seus aliados em nível nacional e internacional. E o apoio do Cimi tem sido permanente e incondicional.

   
O Centro de Formação Vicente Cañas tem sido um espaço de resistência e apoio à articulação e mobilização de delegações indígenas de todo o país.

Diante da Omissão, Conivência e ações contra os direitos dos povos indígenas por parte do Estado brasileiro, essas populações se viram na contingência de buscar cada vez mais as instâncias internacionais para denunciar as violências e violações dos direitos indígenas. Essa crescente incidência internacional dos povos indígenas e seus aliados tem sido vital para impedir o crescimento da violência, da impunidade e do genocídio.

O Cimi obteve, em agosto de 2016, status consultivo especial no Conselho Econômico e Social da ONU (Ecosoc). Após dois anos de análise de documentos e relatórios, o Conselho aprovou a concessão  do status, afirmando que reconhece a competência técnica e especializada e a experiência prática da entidade na temática indígena.

Os direitos indígenas continuam sob a mira dos ruralistas, do agronegócio, das mineradoras e outros setores retrógrados das elites brasileiras. De maneira especial estão ameaçadas e permanentemente pressionados as terras e territórios indígenas e os bens da natureza neles existentes.

O Cimi entende que uma das suas funções primordiais é a defesa da terra, da vida, da cultura e autodeterminação de todos os povos indígenas existentes no país.

  
Os mártires dos povos indígenas e missionários do Cimi



Tempos de fazer memória, reafirmar nossos compromissos na luta pela vida dos povos indígenas. Celebramos a memória dos que derramaram seu sangue para que os direitos dos povos indígenas fossem garantidos, na lei e no chão. E o sangue derramado tornou-se semente e alento na continuidade da luta. Acabamos de celebrar, em Cuiabá, os trinta anos do assassinato de Vicente Kiwxi.

Em Brasília, na Praça do Compromisso, lembramos o cruel assassinato de Galdino Pataxó Hã-Hã-Hae, na noite de 20 de abril.

“A memória dos mártires, o sangue dos mártires, mais do que um conselho, é compromisso que conjuntamente assumimos, ou reassumimos”, afirmou Dom Pedro Casaldáliga em sua mensagem à Romaria dos Mártires de 2011. “O que eu peço de vocês é que não esqueçam a opção pelos pobres, essencial ao Evangelho, à Igreja de Jesus. E esses pobres se concretizam nos povos indígenas, no povo negro, na mulher marginalizada, nos sem-terra, nos prisioneiros... Nos muitos filhos e filhas de Deus proibidos de viver com dignidade e com liberdade. Eu peço também para vocês que não esqueçam do sangue dos mártires”.

Nos últimos anos, o Cimi tem sido novamente alvo de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs). Desta vez, na Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul, aberta em setembro de 2015, encerrada em 2016 e definitivamente arquivada, por falta de consistência, pelo Ministério Público em 2017. Ainda assim, todos os depoimentos e material produzido foram repassados a outra CPI, a da Funai e do Incra, que está ocorrendo em sua segunda edição na Câmara dos Deputados, em Brasília. O que não deixa dúvidas de que se trata de mais uma tentativa de criminalizar, desqualificar e incriminar os guerreiros indígenas e seus aliados.

O Acampamento Terra Livre, que estará se realizando em Brasília nesta semana, é uma expressão da caminhada dos povos indígenas na luta pela defesa de seus direitos nas últimas décadas.

E como nas que já se passaram, o Cimi seguirá, lado a lado com os povos, apoiando e participando das justas batalhas em defesa da vida, da diversidade e do Bem Viver.


Gratidão

O sentimento que nos move nestes 45 anos de existência é a gratidão. Aos povos indígenas, nossos mestres permanentes e sábios, que nos ensinaram a viver na resistência, na pluralidade, na simplicidade e na relação harmoniosa entre todos os seres vivos nessa nossa casa comum, o planeta Terra.
Gratidão a todos os que acreditam que o caminho dos povos indígenas é o nosso caminho de futuro, sendo solidários a essa causa e apoiando seus projetos de Bem Viver. Com nosso profeta D. Pedro Casaldaliga repetidos: “A esperança não poderá morrer, jamais”.
Renovamos nosso compromisso com os povos indígenas e todos os lutadores e guerreiros que em nosso país e no mundo afora estão   empenhados na construção de um novo mundo, de justiça e paz.


Egon Heck
Fotos:Laila Menezes
Secretariado Nacional Cimi
21 de abril de 2017


quarta-feira, 19 de abril de 2017

Dia de luta dos Povos Indígenas do Brasil, 19 de abril



Outubro de 1988. Memorável conquista dos povos indígenas na Constituição. Pela primeira vez após a fatídica invasão primeira, os povos originários se mobilizaram para garantir seus direitos na Carta Magna. Comemoraram, porém sem ilusão. Essa seria uma das etapas na dura luta por seus direitos.

Dormiram ao acalanto da conquista, porém de olhos abertos, pois os inimigos seculares queriam ludibriá-los novamente. Cederiam no papel, mas continuariam a invasão, a violência, o saque dos recursos naturais. Ou seja, rasgariam a Constituição, na prática. E se preciso fosse, jogariam a lei no lixo ou a rasgariam em plena luz do dia, sem o menor escrúpulo ou temor. Estamos nesse momento crucial, sob o fogo cruzado dos ruralistas, mineradoras, madeireira e piratas de toda espécie.

Cínica e descaradamente, buscam suprimir os direitos indígenas e outras conquistas sociais da Constituição. O que deveria ter sido cumprido está sendo rasgado. Estamos em tempo de tentativa de retrocesso, sob o fogo cruzado, numa guerra sem tréguas.

Abril Indígena
O movimento indígena com apoio de seus aliados vem se articulando e mobilizando para esse permanente enfrentamento com as forças e interesses  que  tudo fazem para suprimir direitos constitucionais indígenas. De forma racista vem disseminando ódio e preconceitos. Talvez seja esse o momento mais feroz contra os povos indígenas desse último meio século.


Por outro lado, é gratificante e esperançoso ver o crescimento da consciência dos povos originários na luta por seus direitos e suas alianças com aquelas forças que buscam uma transformação social na perspectiva do Bem Viver, do reconhecimento do Estado Plurinacional e da democracia que brota das comunidades e suas múltiplas expressões de organização e poder. Quem sabe dessa forma poderemos começar a enfrentar com eficácia o mar de corrupção que envergonha e conspurca o nosso país.

Nos últimos quatro anos os povos indígenas de todo o Brasil participaram das delegações que vieram à capital federal para dizer aos parlamentares e ao governo que não permitiriam a supressão de seus direitos constitucionais.


Acampamento Terra Livre
Com muita emoção recordo a importante participação dos povos indígenas nos Fóruns Sociais Mundiais, em Porto Alegre, no início deste novo milênio. Ali foi definido que seria necessário dar passos mais efetivos no sentido de consolidar a luta pelos territórios indígenas, criando uma espécie de articulação nacional, um grito de guerra e de vida.

Foi então que, a pedido dos povos indígenas da Raposa Serra do Sol, de Roraima, se passou a realizar um acampamento anual, em nível nacional, para dar visibilidade à sua luta pelo território contínuo e não a demarcação em ilhas. Conseguiram a vitória histórica da homologação desse território, em 2006. Foi então a vez de fazer pressão pela demarcação das terras dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul, de maneira especial dos Kaiowá Guarani e Terena. Foi então realizado o Acampamento Terra Livre (ATL) em Campo Grande-MS e em Altamira, em apoio aos direitos dos Povos Indígenas atingidos pela hidrelétrica de Belo Monte.

Esse é o 14º Acampamento Terra Livre acontecendo num dos momentos mais dramáticos para os povos indígenas e os movimentos sociais. De parte do movimento e organizações indígenas, a expectativa é de que se reúnam representantes de mais de cem povos indígenas de todo o país, com cerca de 1500 participantes. Menor apenas do que a Marcha e Conferência do ano 2000, quando estiveram reunidos em Coroa Vermelha, no litoral da invasão, quase 3000 indígenas de mais de duzentos povos.

 “Unificar as lutas em defesa do Brasil indígenas é o objetivo maior da mobilização deste ano [...]reunindo em grande assembleia lideranças dos povos e organizações indígenas de todas as regiões do Brasil. Neste momento de ameaças e violações dos direitos constitucionais e originários dos povos indígenas e das políticas anti-indígenas do Estado brasileiro”, afirma a convocatória da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) ao acampamento.
O ATL é um importante momento de articulação entre lideranças de todo país e de incidência política do movimento indígena.

Para os povos indígenas do país, hoje é um dia de luta e mobilização pelos seus direitos em aliança com todos os que lutam para construir um Brasil justo e plural.


Texto  - Egon Dionisio Heck
Secretariado Nacional do Cimi
Fotos: Laila Menezes / Cimi





quarta-feira, 12 de abril de 2017

Nos caminhos de lutas, dores e esperança Guarani-Kaiowá


Foram mais de duas semanas ouvindo os relatos de luta e resistência, sentindo e dialogando sobre a violência e criminalização, andando pelos “senderos” da morte nos acampamentos, retomadas e os confinamentos Kaiowá Guarani. Foram dias intensos de sentir o pulsar da alma Guarani, na profundeza de sua espiritualidade, na firmeza de sua resistência e nos sonhos da terra sem males, em seu longínquo horizonte, na fronteira do Mato Grosso do Sul, “onde o Brasil foi Paraguai”. 
Foram momentos coletivos de esperança e intensos debates na Aty Guasu dos Jovens, na Terra Indígena Sassoró, no fechamento de estrada, na BR que liga Amambai a Iguatemi, na discussão e duras exigências com o presidente da Funai, em Dourados.  Foram duros nas cobranças feitas ao Estado brasileiro e a Funai, que tantos vezes os enganaram, principalmente não demarcando as terras, jogando-os na violência e miséria.

Um momento de emoção, revolta e denúncia aconteceu na oga pysy (casa de reza) na retomada de Ytajacu Yguá. Arnaldo, pai de Alessandra, que havia sido atropelada e morta na BR-163, há poucos dias, fez uma fala dura contra todos os responsáveis por essas mortes, tida por eles como intencionais, contra a vida de seu povo.

De fato foram centenas de vidas ceifadas nas estradas do Mato Grosso do Sul. Lembro-me de uma visita à aldeia de Limão Verde, município de Amambai. Revoltados contaram que naquela semana, três indígenas haviam sido mortos por atropelamento. Quando sentiram que uma criança havia sido atropelada foram socorrê-la.  Na sequência mais duas pessoas morreram atropeladas.  A maioria destas mortes são de crianças e das comunidades acampadas na beira da estrada. Até quando continuaremos a contabilizar os mortos por atropelamento, por suicídio, assassinados por pistoleiros ou vítimas de violência por conflitos internos, muitos deles em consequência da não demarcação de suas terras?

A velha tese de dividir para dominar

Um dos temas conversado em quase todas as visitas às comunidades foi a continuidade da política colonialista da divisão dos índios pelos interesses anti-indígenas. O lance mais recente que muito bem expressa essa política foi a criação do “Conselho dos Caciques”, inventado e em fase de implantação por políticos e parlamentares do Mato Grosso do Sul.
Porém, apesar de algumas lideranças Kaiowá Guarani terem sido aliciados por argumentações e promessas falaciosas, a Aty Guasu tem denunciado energicamente essa manobra divisionista, afirmando enfaticamente que esse conselho não os representa. Pelo contrário, está atrelado aos inimigos dos povos indígenas no Estado. Conclamaram os parentes Terena e os demais povos indígenas, a não se deixarem ludibriar por essa artimanha colonialista de “dividir para dominar”. A falácia do arrendamento é outra das estratégias utilizadas pelos inimigos dos índios no Mato Grosso do Sul. Algumas comunidades estão senso assediadas e bombardeadas constantemente com as benesses com que seriam agraciados, no caso do arrendamento de suas terras ao agronegócio.

Organização e autodemarcação

O que mais se viu nas visitas às comunidades e famílias, é a necessidade de aprofundarem a união entre si para poderem continuar enfrentando com êxito e dignidade, as lutas pelos seus direitos e territórios. União, organização e luta, foram os termos mais repetidos pelas lideranças e Nhanderu e Nhande si (líderes religiosos).

Mato Grosso do Sul: a menina dos olhos da Funai

Essa foi uma das afirmações do presidente do órgão indigenista oficial. Essa mesma afirmação já foi feita por presidentes anteriores. Porém, o que os indígenas querem saber é se o órgão está com os olhos tapados e a estrutura sucateada, de tal maneira que o esqueleto cadavérico já não mais defende os direitos dos povos indígenas, especialmente seus territórios, mas está cada vez mais subjugada pelos seus inimigos.

De nada adiante o presidente do órgão pedir perdão aos indígenas se este não se transforma em ações concretas de defesa dos direitos desses povos. 
“Não temos mais paciência, queremos a verdade e não enrolação, queremos a demarcação de nossas terras, e já”, afirmou com contundência uma das lideranças.

“Não temos mais medo de enfrentar a polícia e os fazendeiros. Já tiraram a nossa terra e agora querem tirar a nossa vida. O povo está se levantando. Vamos morrer combatendo”, afirmou  uma das lideranças presentes. E complementou dizendo que recusam a proposta de compra de terras e a aplicação do marco temporal. Por isso exigem a urgente publicação dos relatórios de identificação de seus territórios.

Apesar das ásperas críticas ao governo e à Funai, o presidente do órgão ouviu sem se exacerbar, mas reagiu com veemência, quando disseram que ele estava aí apenas para defender seu salário. Mesmo assim manteve sua promessa de em maio retornar a Mato Grosso do Sul para trazer os resultados dos compromissos assumidos.

Nos últimos anos, a questão Guarani-Kaiowá não apenas ficou nas retomadas, nos acampamentos, nos assassinatos e na permanente violência. Essa realidade foi denunciada nacional e internacionalmente, com lideranças participando de audiências em instâncias como a ONU e a OEA.




Brasília, 11 de abril de 2017.
Texto e fotos - Egon Dionisio Heck
Secretariado Nacional do Cimi


terça-feira, 11 de abril de 2017

Povos indígenas isolados, mas não vencidos






Na Pan Amazônia, nos diversos países são possivelmente em torno de 150 povos isolados ou livres. Eles encontram-se em situação de ameaças e pressão constante sobre seus territórios.

Diante dessa ameaça à sobrevivência está ocorrendo em Cuiabá o primeiro Encontro Pan-Amazônico Em defesa dos direitos dos povos “Isolados”. Foram mais de 30 participantes do Brasil, Peru, Bolívia, Paraguai, Equador e Colômbia.O avanço acelerado e destruidor da mineração, madeireiras grandes obras de infraestrutura e agronegócio põem cada dia mais em risco a sobrevivência desses povos-comunidades. Diante desse quadro de genocídio pessoas e instituições dos países Pan Amazônicos, apoiados pela REPAM – Rede Eclesial Panamazônica se reuniram em Cuiabá para refletir a gravidade da situação desses povos e traçar estratégias eficazes para garantir sua sobrevivência.

Povos Livres

O termo “livres” é uma designação que parece ser mais apropriada para identificar esses grupos, porque descarta a perspectiva da necessidade absoluta da “pacificação” daqueles povos indígenas que sempre fizeram questão de guardar distância das sociedades nacionais (Cimi, 2001).

São poucos os povos isolados sobreviventes no mundo de hoje nos diversos Estados e continentes. Não se trata de povos do passado, mas do presente e do futuro.

O marco legal e os povos isolados


Internacionalmente, o Direito à resistência, livre determinação e autonomia dos povos livres é garantido pelo artigo 3º da Declaração das Nações Unidas sobre os Povos Indígenas.

Entre os tópicos discutidos no evento, chegou-se à conclusão de que é preciso fazer encontros entre os diversos países da América do Sul, para ampliar a discussão a respeito dos direitos dos povos livres em âmbito continental.

Outra questão que chamou atenção é a da segurança, especialmente em relação às fronteiras. Teremos que revisitar essa questão de segurança, pois a realidade hoje é bem mais grave pelos muitos interesses escusos que permeiam as fronteiras hoje em dia, afirmou o Procurador da República Ricardo Pael, que abordou a necessidade de discutir a segurança das comunidades de fronteira frente ao do narcotráfico. O Procurador Ricardo já trabalhou em Ponta Porã, no MS fronteira com o Paraguai.

A dúvida e o medo é que os indígenas sejam vítimas de organizações criminosas na fronteira. Segundo ele, o Ministério Público Federal tem mais perguntas do que respostas.
Ameaças



Grandes projetos, como os contidos na IIRSA (Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana), afetam mais de 400 comunidades na Amazônia. O princípio da precaução deve garantir os direitos dos povos indígenas, não podendo os interesses de projetos alheios a eles passarem por cima desses povos.

“Em suas longas e difíceis trajetórias de fuga e recolhimento, os povos livres não só se protegiam das pessoas que ameaçavam aproximar-se deles, mas também e principalmente, do Estado, um ente abstrato que historicamente se constitui no maior, mais perverso e impiedoso inimigo” (Povos Indígenas Isolados na Amazônia – A luta pela sobrevivência – Cimi 2011)

Urgência

Diante da extrema vulnerabilidade dos povos isolados, é urgente e indispensável que suas terras sejam demarcadas, como medida de precaução que garanta sua sobrevivência.


Cuiabá, 4 de abril de 2017

Nossas lutas, nossos mártires





“Vicente lutou também contra os neobandeirantes, como se autodenominam os fazendeiros que invadem a Amazônia Legal. Vicente morreu para que os Enawenê-Nawê continuem vivos, acompanhados, a partir de agora, por outros companheiros de trabalho e de ideal”. (Thomaz Lisboa)

No início do momento celebrativo e de memória os que conviveram com Vicente destacaram algumas impressões e sentimentos sobre a vida e testemunho do mártir. Bartolomeu Meliá ressaltou que Vicente foi uma pessoa fora do comum, admirada mas nem sempre imitada. Ele tinha uma enorme capacidade de escutar e de estar sozinho. Nem tudo e nem sempre era fácil a convivência. Não era um santo clássico. Tem que acabar com essa civilização (da desigualdade), repetia.

Para Egydio Schwade, ele foi um dos maiores indigenistas que o país conheceu. Ele foi um grande mestre da inculturação, afirmou Elisabeth Aracy Rondon, colocando uma interrogação: “o que diria Vicente sobre a realidade que vivem hoje esses povos?”. Para Vanda, ele foi seu guru, inspirando confiança. Ele tinha uma enorme admiração pelos Enawenê. Era uma pessoa imensamente livre, disse Sebastião Carlos Moreira, que esteve com os amigos na hora que encontramos o corpo de Vicente, no dia 16 de maio. Tinha ideias muito transformadoras e práticas radicais. Thomaz tem “grande admiração por esse seu melhor amigo, que tanto o ajudou nas horas difíceis de discernimento e decisões”. Respeitava profundamente o outro, em especial os povos indígenas.

D. Roque, presidente do Cimi, veio trazer sua palavra de ânimo aos lutadores e lutadoras que, como Vicente assumem a causa dos povos indígenas e da transformação social.

Foram três dias de intensas celebrações em sintonia com a mãe terra, a irmã água, o vento e o fogo. Sentimos a presença de Vicente e os milhares de guerreiros e guerreiras indígenas e missionários que foram assassinados nas últimas décadas, que deram suas vidas para que prevaleçam as forças da Vida sobre os projetos de morte.

Os povos indígenas presentes destacaram a importância de pessoas comprometidas com a causa indígena, como Vicente. Chamaram atenção para o cuidado necessário, por parte dos missionários, pois existem muitas ameaças de assassinato daqueles que apoiam a causa indígena.

“Vivenciamos neste encontro de memória, saudade e partilha momentos celebrativos que nos ajudaram a reavivar nossa fé, esperança e utopia. Os testemunhos das pessoas que conviveram com o Ir. Vicente foram momentos marcantes”, afirma a mensagem do encontro da memória dos 30 anos do assassinato de Vicente Kiwxi.

Vivenciamos aspectos simbolicamente muito fortes. Estiveram presentes os Myky, os Enawenê Nawê e Thomaz Lisboa, que juntamente com Vicente fez os primeiros contatos com esses povos. Thomaz também estava junto aos que encontraram o corpo de seu melhor amigo, assassinado em 16 de abril de 1987.


Genito Guarani Kaiowá, filho do cacique Nísio Gomes, veio para trazer a solidariedade de seu povo e falar da dramática situação pela qual está passando o povo Guarani nas últimas décadas. Denunciou a violência e criminalização, pois após seis anos do assassinato de seu pai, o corpo ainda não foi localizado e os responsáveis por tal barbárie continuam sem punição.

Na mensagem final do encontro ficaram assumidos alguns compromissos e exigências:

- A necessidade das entidades envolvidas com a questão indígena busquem formas concretas de realizar trabalhos em rede, com uma presença na aldeia Enawenê-Nawê contribuindo para a garantia de bem viver frente às várias ameaças das PCHs, BR 174, mineração e agronegócio.

- Novo júri popular, não apenas para que seja feito justiça no assassinato de Ir. Vicente Cañas, mas naquilo em que ele representará para a garantia dos direitos dos povos indígenas e a segurança para aqueles que, em apoio a esses povos se colocam ao seu lado contra projetos que põem em risco suas vidas, seus costumes e seus territórios no Brasil.

Para manter viva a memória do Ir. Vicente Cañas, durante o Seminário, foi lançado o livro “Provocar rupturas, construir o Reino: memória, martírio e missão de Vicente Cañas”, organizado pelo Cimi e publicado pela editora Loyola. Um documentário sobre o seminário também está sendo preparado.

“Chega de tanta violência, basta de tanta morte! Convocamos todos à luta contra esta barbárie e perversidade que ceifa a vida de nossos irmãos e irmãs. Apesar do risco de morte, jamais deixaremos de lutar”. (D. Erwin Kräutler, 24 de maio de 1987)

“Obrigado Ir. Vicente Cañas por deixar-te amassar e germinar pela Amazônia e seus povos. Obrigado por teu túmulo florido, por doar-te todo, por teu martírio e transformação profética, irmão jesuíta, em (Kiwxi) irmão dos índios!” (Fernando Lopez)

Aguaçu, Cuiabá, 04 de abril de 2017


Fotos: Marinelis

Vicente Kiwxi e a luta Enawenê Nawê




Em abril de 1987, um grupo de fazendeiros e pistoleiros chegavam sorrateiramente ao barraco de Vicente Cañas na beira do Rio Juruena, município de Juína (MT). Com pauladas na cabeça e uma facada, assassinaram friamente Vicente em seu barraco, conforme depoimento de indígenas.  Era o sangue de mais um missionário morto por defender a vida e os direitos dos povos indígenas, principalmente suas terras.

Vicente, juntamente com Thomaz Lisboa e alguns indígenas, fizeram contato com os Enawenê em 1974. A partir de então ele esteve com esse povo, sendo os últimos dez anos de sua vida dedicados integralmente aos Enawenê.

Hoje, 31 de março, estará iniciando um relevante encontro de partilha e reflexão sobre a memória da missão e do martírio desse missionário. O Cimi, os jesuítas e a Opan estão organizando esse encontro, do qual estarão participando lideranças indígenas do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, missionários indigenistas, pastorais, professores e membros de diversas entidades.

No decorrer desses dias, será também lançado o livro sobre a memória, martírio e missão de Vicente Cañas. “Provocar Rupturas, construir o Reino” é mais um instrumento importe para celebrar a memória desse “missionário para o século 21”.


“Sim, Vicente estava à frente de seu tempo, de sua Igreja e Congregação e, talvez à frente até do Cimi. Para colocar o martírio de Vicente Cañas no contexto amplo de nossa Ameríndia, quero parafrasear outro santo mártir, Dom Oscar Romero de San Salvador: ‘Alegro-me porque o Cimi é perseguido, justamente por sua opção preferencial pelos povos indígenas e pelo esforço de se encarnar nos desafios dos povos indígenas, na defesa de seus territórios, de seu Bem Viver, de suas culturas e do reconhecimento das poucas leis que protegem seu futuro’”, afirma o presidente do Cimi e Arcebispo de Porto Velho, Dom Roque Paloschi, no prólogo ao livro.

Será um momento forte para animar e reforçar a presença junto aos povos indígenas. “A Vicente Cañas e a todos aqueles que, como ele, fizeram germinar com seu sangue e sua radicalidade a semente da justiça em tantos povos indígenas de qualquer parte do mundo”, afirmam José Terol e José Carrion, autores de “Tras las huellas de Vicente Canãs”.

No Seminário estarão grandes amigos de Kiwxi – nome que Vicente Cañas recebeu dos Myky, outro povo da bacia do rio Juruena com quem o jesuíta conviveu, que significa “doar-se todo” – como Thomás Lisboa, Egydio Schwade, Batomeu Melliá, dentre outros.

Também estarão presentes índios Enawenê Nawê. Depois de 30 anos do assassinato, esse povo não apenas continua com a memória viva de Kiwixi, mas continuam afirmando que era um deles. Com certeza sentem muito a falta desse seu amigo nesses momentos difíceis por que estão passando, com ataques contra seus direitos e pressão sobre seus territórios.