ATL 2017

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quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Os Kaiowá Guarani e as rezas sobre os nomes dos inimigos





O Brasil e o mundo estarão unidos aos Nhanderu e Nhandesi Kaiowá Guarani na luta pela vida e pela terra de Guyraroka e demais territórios indígenas ainda por demarcar. 




A enorme força espiritual dos Kaiowá Guarani se manifesta de várias maneiras, desde as rezas fortes dos Nhanderu, para que o sol se apague até as rezas que lhes permite penetrar no coração das pessoas para demovê-las de ações que atinjam ou neguem os seus direitos de viver em seus tekoha, territórios tradicional, originários, com paz os seus projetos de Bem Viver.

Os mais de 50 Kaiowá e Guarani que estiveram em Brasília para lutar pelos seus direitos, fizeram um dos rituais de reza sobre o nome de várias pessoas, especialmente as que estão fazendo e aprovando leis que vão contra a Constituição do país, no que diz respeito  aos direitos dos Povos Indígenas.

Simultaneamente uma tarefa da Polícia Federal agia no Mato Grosso do Sul. Prenderam o filho do governador Reinaldo Azambuja, PSDB, e o deputado Zé Teixeira, DEM, que reivindica como sua a terra do tekoha Guyraroka. Foram fazer companhia ao ex-governador André Pucinelli, que já está preso. Ele tem insistentemente se manifestado contra o direito dos índios a seus territórios. Dentre afirmações por ele feitas, uma diz que “é um crime dar um palmo de terra aos índios que não produzem”. Nessa mesma direção foram recentes declarações de Bolsonaro, que se eleito for, não demarcará um centímetro de terra para os índios.


Enquanto isso, os povos originários da região continuarão fazendo seus rituais e rezas, até que seus direitos seja garantidos.

Os Kaiowá Guarani continuarão rezando sobre os nomes de seus inimigos, na esperança de que terão suas terras reconhecidas e garantidas. Esse é um direito originário reconhecido na Constituição e legislação internacional da qual o Brasil é signatário.

Quem sabe, a recuperação de altas somas de recursos desviados possa ser canalizada para demarcar e garantir os territórios indígenas no Mato Grosso do Sul.
  
Durante a semana em Brasília, os indígenas também foram para a Advocacia-Geral da União (AGU), para entregar à Ministra documento pedindo imediata revogação do parecer 001, também, conhecido como parecer do genocídio.

Na quinta-feira, a delegação Kaiowá Guarani que esteve a semana em Brasília acabava de embarcar rumo às suas terras, retomadas e acampamentos. Alegria contagiante. Estavam leves, alegres, sorridentes. As vitorias e debates com vários setores da sociedade e do governo alimentaram os frágeis mas profundos e consistentes fios de esperança. Foi a expressão concreta do pacto que assumiram na recente Aty Guasu realizada na Terra Indígena Guyraroka. “Nosso povo já rezou junto e fizemos um pacto. Todos os Tekoha estão conectados e estarão juntos para defender com nossos corpos e nosso sangue os territórios que forem afetados pelo Marco Temporal, Parecer 001 da AGU ou outra ferramenta genocida contra nossos povos” (Carta da Aty Guasu de Guyraroka 24-08-2018).



Chegaram à capital federal ansiosos, pois além das lutas concretas de suas comunidades sentiam o peso da responsabilidade de darem continuidade às lutas  dos povos indígenas do Brasil, tendo como objetivo principal a não aprovação do Marco temporal, pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

A presença mais importante foi com os Ministros do STF, através de conversas e entrega de documentos nos gabinetes, solicitando a reversão da anulação da Terra Indígena Guyraroka e a participação dos índios nesse processo e em todos aqueles que tratam da questão indígena, conforme reza a Constituição. Fizeram muitos rituais antes e depois da retirada da plenária virtual do STF.

Estiveram também na Funai, Ministério da Saúde, Ministério da Educação (MEC) e Procuradoria Geral da República.


O Brasil e o mundo estarão unidos aos Nhanderu e Nhandesi Kaiowá Guarani na luta pela vida e pela terra de Guyraroka e demais territórios indígenas ainda por demarcar e garantir para os povos originários deste país e de América Abya Yala.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Semana de luta Guarani em Brasília



As rezas e os rezadores Nhanderu e Nhandessi


Na semana passada, Brasília tornou-se uma grande casa de reza (Oga Guasu). Por onde passou, a delegação de 45 Guarani Kaiowá e Nhandeva realizou seus rituais, rezas e danças. Impreterivelmente tinham que encerrar seu momento de espiritualidade, fazendo os gestos de expulsão dos maus espíritos. Só não podiam realizar as rezas mais fortes, com medo que Brasília poderia se esvaziar muito. Se todas as contas no exterior fossem revelas a debandada seria grande.

Conquistando aliados: a greve de fome e a demarcação da terra

Um dos momentos emocionantes, nessa semana de luta da delegação Guarani Kaiowá em Brasília, foi o encontro que tiveram com o grupo de lutadores sociais em greve de fome. Depois de inúmeros rituais falaram sobre o significado desse seu gesto de solidariedade. Os Nhanderu abençoaram e desejaram força nesse gesto supremo de por em risco suas vidas por uma causa tão magnânima e generosa.

Na carta que entregaram aos amigos em greve de fome, externaram as razões de sua esperança, nessa permanente guerra e luta que enfrenam: “Somos gratos pelo ato de sacrifício de vocês para que o povo brasileiro possa se alimentar de pão, mas também de justiça. Iremos rezar com toda nossa força para que fiquem bem e temos certeza que com nossa reza e com atos de coragem como o de vocês este país poderá ser melhor, mais democrático e mais justo com todos nós, em especial com os povos indígenas que são seus filhos primeiros. Todos estamos juntos e sabemos que a fome que passamos também conduz nossos pés para o mundo onde ninguém precisará passar fome. Deixamos aqui, junto com a benção de nossos rezadores, nosso abraço, nosso obrigado e nossa amizade enquanto Guarani e Kaiowá”.
Frei Sérgio, emocionado pela forte expressão dos rituais e palavras dos indígenas, disse: “Nós da esquerda, em especial do PT, temos muito que aprender com os povos indígenas”. E concluiu: “Enquanto não forem respeitados os direitos dos povos indígenas, não haverá verdadeira justiça em nosso país”.

O Estado brasileiro na contramão da história


No Dia Mundial dos Povos Indígenas, 9 de de agosto, a delegação Kaiowá Guarani participou com seus rituais e falas, de um memorável ato de protesto e debate sobre a situação dos povos indígenas no Brasil e no mundo.
Durante ato realizado no Memorial dos Povos Indígenas, em Brasília, organizações indígenas e aliados, destacaram avanços importantes registrados nas últimas décadas. Ao mesmo tempo denunciaram o lamentável processo de regressão verificado em vários países, dentre os quais se destaca o Brasil, que “é certamente um dos países que hoje mais violenta os direitos indígenas”.

Na Funai, a choradeira foi geral

Meteram a mão no orçamento, deixando-a pele e osso. Não liberaram grana. Deixaram-na agonizante. Mas seu presidente atual disse não se intimidar. Afirmou trabalhar incessantemente. E para ancorar suas afirmações, prometeu que com seus assessores deixaria pronto um minucioso documento com todas as informações da realidade de todas as terras indígenas Kaiowá Guarani, no Mato Grosso do Sul. Os índios até retardaram sua viagem de volta, mas não levaram o documento com as informações.

Entenda a AGU, quem puder


A Portaria 01 de 2017 é a anti-porta do genocídio dos povos indígenas. Além de impedir e inviabilizar a demarcação das terras indígenas, propõe a possibilidade de anular processos administrativos já em andamento ou mesmo conclusos. Porém, a ministra da AGU, Grace Mendonça, em sua retórica falaciosa continua afirmando que a portaria é para dar segurança jurídica para a demarcação das terras indígenas e mesmo agilizar os processos de demarcação. Será que a ministra plagiou a iniciativa do ministro Jobim que na década de 1990 também editou portaria introduzindo o contraditório nos processos de demarcação das terras indígenas e justificou sua iniciativa afirmando ter estabelecido prazos para cada etapa para agilizar as demarcações? Na prática, além dos prazos terem sido sistematicamente descumpridos, acabou inviabilizando as demarcações, pela forte pressão dos ruralistas e de interesses políticos. Parece que o Estado brasileiro e seus prepostos, apenas buscam justificativas burocráticas para descumprir a Constituição e a legislação internacional, assinados pelo Estado brasileiro, como a Convenção 169 da OIT, a Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas, pela ONU, e a declaração da OEA (Organização dos Estados Americanos).
A delegação Guarani-Kaiowá reforçou o pedido de revogação urgente desse instrumento de genocídio que os interesses antiindígenas estão utilizando na sua incansável investida contra os direitos dos mais de 300 povos originários deste país.

Marco Temporal: enredo supremo para o próximo carnaval




No campo de futebol, nas rodas de pilhéria, o marco temporal servia para fazer chacotas ou piadas.
Quem sabe até o próximo carnaval o dito marco temporal já esteja na cova e sirva apenas para a memória sórdida de um instrumento e decreto de morte para os povos indígenas.
É lamentável que frequentemente os supremos ministros tenham que ser lembrados que a Constituição foi construída para ser cumprida. Quase semanalmente delegações indígenas estão se fazendo presentes no Supremo Tribunal Federal, não apenas para lembrar de que ainda estão vivos, mas que pretendem chegar ao coração dos ministros e demonstrar a eles quanto sofrimento e mortes estão provocando interpretações contra os povos indígenas, como é o caso do marco do temporal.
Egon Heck
Fotos Laila/Cimi
Secretariado Nacional
Brasília, 17 de agosto de 2018

terça-feira, 17 de julho de 2018

Paralisação das demarcações e o racismo institucional que impede entrada de maracás na “casa do povo”



Em audiência na Comissão de Direitos Humanos do Senado, indígenas Krahô-Kanela denunciam projetos que afetam vida do povo. Comunidade não foi consultada.




O racismo institucional, assegurado pelos regimentos da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, se faz mostrar em todas as agendas com participação dos povos indígenas, em Brasília (DF). Na capital federal, a intolerância religiosa contra as espiritualidades indígenas demonstra para quem são feitas as políticas do poder legislativo. Além de paralisar as demarcações, impedem as manifestações espirituais dos povos na “casa do povo”.

“Quando essa casa viola o direito de nós entrarmos com nosso maracá e coloca o rótulo como sendo uma arma perigosa, ela está, na verdade, discriminando toda a cultura dos povos indígenas”, lamenta Babau Tupinambá, liderança indígena da Bahia. “Isto é a mais alta forma de nos indígenas invocarmos nosso criador, aquele que nos protege e  nos dá forma de lutar e continuar lutando pelos nossos direitos. Isso acontece há 518 anos. Por favor presidente desta casa, revogue essa regra”, pediu o cacique Tupinambá a presidência do Senado após um grupo de indígenas ser barrado na portaria da casa por estarem com seus maracás.

 



O fato ocorre recorrentemente. A última vez foi na semana passada, quando uma delegação de indígenas Krahô-Kanela esteve em Brasília para trazer denúncias sobre os impactos ambientais das atividades criminosas que afetam os territórios tradicionais em Tocantins. Os atos feitos por grupos econômicos do agronegócio espalham consequências de extrema gravidade para a região, atingindo os povos indígenas e seu território. A situação foi relatada na Comissão de Direitos Humanos do Senado.

Estão matando nossos rios, envenenando nossas águas

O grupo de indígena denunciou a retirada  ilegal de água dos rios Formoso, Javaé e Noroti por ruralistas no município de Lagoa da Confusão (TO). Outra triste realidade trazida pelas lideranças foi o uso indiscriminado de agrotóxico com graves consequências para o meio ambiente e a população da região.  Só existe ainda mata na terra indígena.


“O Governo não demarca nossa terra por decisão política. Vivemos uma total paralisação da demarcação das terras”, lamenta Wagner Kraho Kanela. Além de não contarem com seu território tradicional demarcado, no momento apenas regularizado, o povo Krahô-Kanela afirmara que dos 16 grandes projetos que estão sendo instalados nessa região, nenhum deles tem relatório de impacto ambiental. Na audiência no Senado, descreveram a forma desrespeitosa como os fazendeiros chegam na região e instalam seus “empreendimentos”, sem nenhum consulta aos povos indígenas.

Agronegócio retira água de rio dentro da Terra Indígena. Nenhuma liderança é consultada. Foto: Divulgação


As consequência desses projetos desrespeitosos com a vida dos povos já são sentidas na região. No período da chuva, de janeiro a maio, a área tradicional fica alagada em mais de 90%, obrigando a saída de famílias indígena.  Nas enchentes passadas, os Krahô-Kanela perderam toda a produção do povo. “Tudo isso acontece em total desrespeito a nossos direitos garantidos na Constituição e a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho da ONU. Ela garante às populações indígenas atingidas por empreendimentos a Consulta prévia, informada e consentida”, lamenta liderança Krahô-Kanela.

Uma delegação dos índios Tupinambá e Pataxó Hã-Hã-Hai, do sul da Bahia também participaram da audiência denunciando a situação de extrema violência que sofrem esses povos, com indígenas assassinados e os processos de regularização das terras totalmente paralisados.


16 grandes projetos que estão sendo instalados na região, nenhum deles tem relatório de impacto ambiental. Foto: Divulgação

Encaminhamento

Como encaminhamento da audiência, a Comissão de Direitos Humanos do Senado enviará ofícios ao presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) e ao Ministro da Justiça (MJ) exigindo urgência na conclusão do processo de demarcação da Terra Indígena Mata Alagada, do povo Krahô-Kanela. Ainda, assumir rever regimento interno do Senado que impede entrada de maracás e instrumentos espirituais dos indígenas.

POR EGON HECK, DO SECRETARIADO NACIONAL CIMI
FOTOS: Laila Menezes e Wagner Krahô Kanela





quarta-feira, 4 de julho de 2018

Torcer pelo Brasil ou pelos brasileiros








O veneno na mesa já está garantido. O pré sal virou pré salada  abocanhado pelas grandes companhias multinacionais. A natureza virou presa fácil da esperteza e sanha dos grandes interesses.  Depois de  estacionadas nas portas das terras indígenas por 30 anos,  partir da Constituinte de 1988, as grandes mineradoras estão sedentas, para aproveitar a euforia da Copa do Mundo, ou o trilho das eleições, para saciar a ganância abrindo a porteira das terras indígenas através da aprovação da “lei Jucá”, PL 1016 ou outros expedientes menos sutis.




Na surdina barulhenta da euforia da bola, tudo pode acontecer. Ou seja, o país anestesiado é prato cheio para os inescrupulosos vendilhões da pátria consumarem a rapina e dilapidação dos nossos recursos naturais e os sagrados direitos dos povos originários a seus territórios e vida digna. A PEC 215 e os inúmeros projetos anti indígenas na manga da camisa para serem colocados em votação a qualquer momento. Os povos indígenas continuam mobilizados, com um olho na bola e outro pé na estada rumo a Brasília. 

A vitória do Brasil pode significar a derrota dos brasileiros (empobrecidos e oprimidos) que são a grande maioria da população. Lembro-me muito bem de 1970, auge da ditadura militar civil, quando o Brasil conquistou o tricampeonato e se afundou na violência do AI5 e aprofundou o regime autoritário por mais uma década e meia.

Os tempos são outros e esperamos ter aprendido com a história. Os inimigos encastelados em seus privilégios e acumulação de capital continuam alimentando o  agronegócio e o neocapitalismo. Que atrás de cada grito de gol venha abaixo o golpe. Que com cada gole de cerveja sintamos também o gostinho amargo da falta de segurança, de saúde e educação de qualidade.

Demarcação já!
Egon Heck
Cimi –Secretariado


























segunda-feira, 25 de junho de 2018


Estudantes universitários indígenas e quilombolas na luta

Aprendendo e construindo a união


Enquanto em torno de 300 estudantes universitários, indígenas e quilombolas deixam o Centro de Formação Vicente Cañas, animados pela histórica semana de mobilização e luta pelos seus direitos, em Brasília, ficam as lições, certezas e desafios. A luta continua na certeza de que o passo dado nesta semana será muito importante, não apenas para terem condições objetivas de continuarem sua formação nas universidades, mas principalmente para que seus povos não percam direitos constitucionais, mas que tenham conquistas, unidos com os quilombolas e outras populações tradicionais. O momento é de somar, construir juntos a união necessária para conquistar a tão sonhada autonomia em seus territórios, na pluralidade de povos e culturas.

Na avaliação, no final da semana de mobilização e incidências políticas em vários órgãos do Estado brasileiro, emoção, lágrimas e compromisso. Dos mais de 300 estudantes indígenas e quilombolas de universidades de todas as regiões do país, foi destacada a importância da união promissora que vem se consolidando entre os povos indígenas e quilombolas. “Ajudamos a construir mais uma página bonita e importante na luta pelos direitos dos povos indígenas em nosso país. O que parecia apenas mais um sonho, aos poucos vai se tornando  realidade. Nós temos que continuar a luta dos nossos antepassados. Eles nos deixaram um testemunho de resistência, coragem e determinação. Se hoje estamos aqui é porque foi derramado muito sangue e sofrimento em nossas aldeias”, ressaltou um dos estudantes.
Era difícil imaginar, quando há quatro décadas se iniciou, através das assembleias indígenas, um novo movimento indígena no Brasil, momentos como os que estão sendo protagonizados pelos estudantes indígenas e quilombolas, como acabamos de ver nessa semana em Brasília. Foi um momento revelador da vitalidade e potencialidade das lutas dos povos indígenas e quilombolas para não apenas evitar retrocessos como pretendem as elites no poder, mas para contribuir com a sabedoria milenar na construção de sistemas de Bem Viver para todos os brasileiros.
A experiência de passar horas em ritual na estrada, na entrada do Palácio do Planalto, na Advocacia Geral da União, perceber o descaso e desdém com que os representantes do Estado tratam os povos indígenas, quilombolas e populações marginalizadas desse país, é uma experiência que cala fundo na alma e não se aprende nas universidades.


A descolonização necessária

Precisam não apenas chegar às universidades, mas nelas poder permanecer e contribuir com a sabedoria de seus povos, lutar pela descolonização desse espaço de saber e sabedoria. Os estudantes indígenas têm consciência de que essa é uma tarefa difícil pois o ranço colonial está impregnado nas estruturas das universidades onde ainda precisam enfrentar muitos preconceitos, desprezo e racismo.
O colonialismo interno e o neocolonialismo impregnam as relações de saber, poder e ser.  Mudanças profundas dessas estruturas só serão possíveis através de lutas de transformação dos sistemas dominantes. A presença de indígenas e quilombolas nas universidades poderá ser um desses espaços de transformação e superação do sistema colonial.


“Diante a conjuntura de golpes nas políticas de inclusão, dos ataques aos direitos indígenas e quilombolas arquitetados nos três poderes do Estado brasileiro, permaneceremos vigilantes contra toda política que tende a governar para os que são privilegiados há 518 anos e contra toda política social”. (Nota Pública – Permanência já! Movimento Nacional dos Estudantes Universitários Indígenas e Quilombolas).





Apesar dos mitos e grandes desafios que os povos indígenas e quilombolas tem pela frente, a manifestação foi de felicidade pela contribuição na luta. “Temos orgulho de estar na luta.
Ficaram sementes que farão crescer a nossa luta e nossa união”.

A luta vai continuar, com maior união, com a força dos encantados e dos que tombaram na resistência e luta pelos direitos.

Egon Heck          
fotos Laila/Cimi
Cimi Secretariado
Brasília 25 de junho 2018

domingo, 6 de maio de 2018

Guerreiras nativas na luta pelos direitos indígenas


“Sem as mulheres nada existiria. Por isso estamos aqui para mostrar a importância da presença das mulheres indígena” (Tuyra Kayapó).
A plenária das mulheres realizada no início do 15º Acampamento Terra Livre, em Brasília, foi um dos momentos fortes dessa grande mobilização nacional do movimento indígena.


Esse primeiro encontro de mulheres indígenas no ATL, foi um espaço conquistado para demonstrar a importância da presença das mulheres na luta pelos direitos dos povos originários. “Esse espaço é nosso, uma construção com muitas mãos”, afirmaram várias das mulheres indígenas em suas manifestações. Algumas com filhos no colo chamavam atenção para a necessidade de estarem sempre mais unidas pela beleza de suas pinturas corporais e adornos. Essas guerreiras não se deixam dobrar pelo desânimo ou dureza de suas lutas diárias, na resistência pela vida.
Depoimento de Elisa Urbano Pankararu, por ocasião da Plenária das Mulheres Indígenas, no decorrer do 15º Acampamento Terra Livre:
“Estou atualmente como coordenadora do departamento de Mulheres Indígenas da APOIME (Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste Manas Gerais e Espírito Santo). Aprendi com as lideranças que conheço e conheci, que APOINME somos todos nós. Portanto, todos e todas, homens e mulheres, o que entendo que nós mulheres somos parte integrante do movimento indígena.


A história desse país, desde o golpe de 1.500, o primeiro golpe que configurou o nosso sofrimento até hoje: negação de direitos, violências de todas as naturezas, segregação por todos os lados. Enfim, um conjunto de elementos responsáveis pelo extermínio físico e cultural dos nossos povos. Portanto, refletir ações de tais naturezas é refletir ações do colonizador pois foi ele que violentou homens, mulheres e crianças. Por isso deixou de herança suas mazelas. A cultura da violência, do racismo, do machismo e da prepotência, que existe em todos os espaços, do privado ao público, até chegar em instâncias administrativas. Nesse caso, a negação de políticas públicas para as mulheres é fruto desse contexto.
Nossas mulheres são também guardiãs dos saberes tradicionais, conhecimentos sagrados de nossos antepassados. Também seres especiais. Ou seja, nosso protagonismo faz parte da natureza. Eis a importância de sermos APOMNE nas nossas aldeias, nas instâncias e espaços ser representatividade municipal, estadual e no cenário nacional”.
Séculos e décadas de resistência e luta nas trincheiras da dura sobrevivência sob as garras da invasão.
Unidas e organizadas somos fortes



Susana Xokleng lembrou a bela e dura luta que as mulheres indígenas travaram, especialmente na década de 1990, quando se organizaram por regiões e povos e em nível nacional criaram o CONAMI (Conselho Nacional de Mulheres Indígenas). Lembrou muitas guerreiras que ainda estão aqui e muitas já não mais estão em nosso meio. Fez uma lembrança especial a Rosana Kaingang que fez parte dessas inabaláveis guerreiras. Terminou sua fala com um grito de alerta: “Nossos inimigos estão querendo nos engolir. Mas se unirmos nossas forças, junto com nossas lideranças tradicionais vamos vencer essas batalhas”.
Adriana Tremembé lembrou que os povos indígenas serão sempre perseguidos, mas nunca vencidos. “A força dos encantados e a inquebrantável disposição de resistência e luta dos guerreiros e guerreiras nos dão a certeza da nossa vitória e garantia dos nossos direitos”.
Em vários momentos foi lembrada a situação caótica por que passa o país, cada vez pior desde o golpe, desafiador para os povos indígenas e todos os pobres.
Encerraram a plenária das mulheres indígenas conclamando: “Precisamos estar juntos na luta. Querem nos exterminar”.

Egon Heck   - fotos Laila/Cimi
Cimi Secretariado Nacional
Brasília, 04 de maio 2018.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Funai: um general a menos


Na tarde de quinta-feira, 19 de abril, Dia do Índio, o general Franklimberg Ribeiro de Freitas, comunicou aos funcionários da Funai, a entrega do pedido de exoneração do cargo de presidente do órgão indigenista. Se antecipou às pressões impostas pelo agronegócio sobre o governo Temer. Na saída, Franklimberg “admite que sofreu uma pressão forte da bancada ruralista e diz que foi demitido por não fazer malfeitos” (Estadão 20/04/1918).



Durante a ditadura militar/civil, um militar afirmou que para ser presidente da Funai não precisava entender de índio, era suficiente saber administrar. O agronegócio e os ruralistas querem mais. Não se precisa entender de índio e não fazer nada do que manda a Constituição. É preciso agir eficazmente contra os índios e seus direitos. Prova disto é que há mais de uma centena de projetos antiindígenas no Congresso Nacional.  Além disso, são inúmeras as iniciativas do governo que vão nessa direção. Controlada pelos ruralistas, a CPI da Funai e do Incra, recomendou em 2017 a extinção do órgão indigenista. Na prática, a política de sucateamento da Funai vem confirmando que a bancada ruralista e o agronegócio trabalham agressivamente para suprimir direitos indígenas da Constituição para avançar sobre os territórios indígenas e os recursos naturais nelas ainda existentes.

Quase um presidente da Funai por ano
Conforme a galeria dos presidentes da Funai, foram nomeados 40 presidentes em 51 anos de existência. É sem dúvida o órgão do Estado brasileiro alimentado com maior número de contradições e antagonismos. É o que expressa inequivocamente o altíssimo número de presidentes do órgão nestas cinco décadas


 O general e os malfeitos

Se perguntássemos quais os malfeitos de Franklimberg nos quase dez meses em que esteve na presidência da Funai, com certeza diríamos que foi a omissão e quase total paralização da obrigação primeira do órgão que é a demarcação e garantia dos territórios indígenas. É evidente que esse é o crime que o Estado brasileiro continua cometendo, gerando uma situação de violência e genocídio. Os poucos funcionários, a falta de recursos, as pressões políticas e econômicas são as causas profundas dessa malfadada política indigenista do atual governo, que nesses dias está sendo denunciado na ONU.


A atual mudança na direção da Funai faz parte das estratégias do agronegócio em curso nesse período pré-eleitoral e de golpe político.
O Acampamento Terra Livre certamente estará trazendo para a capital federal o grito e o clamor dos povos indígenas do Brasil.
Apesar do quadro caótico e desalentado, os povos indígenas tem sustentado um enfrentamento permanente.

O bode na sala

Não tem como não relacionar a troca do presidente da Funai com a intensa atividade, mobilização e enfrentamento dos povos indígenas e seus aliados no decorrer da próxima semana.
O Acampamento Terra Livre se inicia nesta segunda-feira com debates sobre os principais problemas que atingem os povos indígenas no país atualmente. Serão dias intensos de debates, mobilizações e contatos nos três poderes.


Será mais um momento forte de cobrança dos direitos constitucionais e denúncia em nível nacional e internacional da ameaça de retirada de direitos dos povos indígenas e povos tradicionais.
Diante desse cenário, astutamente o governo e setores antiindígenas estão procurando desviar o foco das lutas tentando introduzir um bode na sala. Os povos indígenas já alertaram que não se deixarão envolver pelo debate em torno das disputas pela presidência da Funai.
Os encantados e os guerreiros de todas as tribos, os deuses que iluminam os caminhos da resistência e da vida certamente estarão alimentando mais esse momento de luta.
Egon Heck / Cimi Secretariado Nacional
Fotos – Laila/Cimi